|
BRASIL 500
ANOS: O TRIGÉSIMO SÉTIMO DIA DA VIAGEM
Em cena, os navegantes
O teatro é uma das diversões prediletas dos marinheiros.
Agora, ensaiam a peça da Semana Santa. No Renascimento, a dramaturgia
resgata as tragédias gregas
|
| Quadro de 1670, de
autor desconhecido, mostra personagens centrais da Commedia dell’Arte:
teatro improvisado no meio da rua
|
Segunda-feira, 13 de abril de 1500. O navio virou palco;
os marinheiros, atores; os religiosos, diretores. Enquanto os pilotos
se alegram com a força dos ventos alísios que empurram esta frota para
o sudoeste, os marujos dedicam-se ao teatro. Ensaiam a peça que será
apresentada na Semana Santa. A temporada começa daqui a cinco dias.
Transformar os navios em teatro já é tradição em
Portugal. Os marujos costumam encenar peças religiosas com textos pobres,
mal decorados, e figurino improvisado. Não há cortinas nem coxias. Quando
os atores saem de cena, continuam ao alcance dos olhos do público.
Os padres controlam os ensaios, escolhem os temas
e não permitem interpretações profanas. As apresentações acontecem em
datas sagradas como Corpus Christi, Natal e Páscoa. Apesar da censura
prévia e da carência de recursos técnicos, os tripulantes vibram com
a dramaturgia.
Não fazem um teatro formal, com palco, atores e horários
fixos. Todos participam, o barco é a ribalta, as apresentações varam
dias e noites. A frota fica em festa, os navios se enfeitam de bandeirolas
e, como numa catarse coletiva, os marinheiros mudam de rotina: passam
a agir como se fossem os personagens de um drama real.
‘‘No dia do Espírito Santo se fez muito solene festa
em nossa nau...Elegeu-se um imperador, ao qual servem todos, os capitães
e os demais por todo aquele dia. Estava a nau toda de festa embandeirada,
toldada de guadamecis muito frescos e com um dossel de tafetá azul onde
o imperador tinha cadeira. Houve canto de órgão... Assim também cumprindo
meu ofício, tive de coroar o imperador, com toda sua corte. Deu-se mesa
franca à toda gente da nau, a qual estava vestida de festa, como na
corte de sua majestade’’, escreverá, em 1561, o jesuíta Gonçalo Rodrigues
durante a viagem que fará de Lisboa até às Índias.
A encenação cuidadosamente descrita pelo jesuíta
chama-se Festa do Imperador e celebra o nascimento de Jesus Cristo.
Ao impor os temas sacros, a Igreja retirou dos barcos um dos maiores
autores portugueses de todos os tempos: Gil Vicente. É considerado o
pai do teatro português.
A partir de 1502, Gil Vicente espalhará pelas salas
de Lisboa deliciosos textos sobre a vida na corte. Falará também do
povo, fará do teatro uma brincadeira mambembe, desprezará o palco, correrá
com suas peças por hospitais, conventos, ruas e escolas.
Um dos temas prediletos do autor será o cotidiano
dos marinheiros. Gil Vicente será o primeiro a denunciar sua cruel rotina.
Fará sátiras ao empenho ultramarino da coroa portuguesa e seu desleixo
com as coisas da terrinha. Ousado, também criticará a ignorância dos
pilotos e comandantes, dirá que serão escolhidos pela política e não
pelo conhecimento náutico.
‘‘Um piloto de pau sabe mais de marinhagem’’, dirá
em sua peça Triunfo de Inverno. É claro que coroa e igreja tratarão
de banir o teatrólogo das naus e caravelas portuguesas. Suas peças jamais
eram encenadas em alto-mar. Se fossem, os marinheiros encenariam seu
próprio motim.
* Ana Beatriz Magno da equipe do Correio.
|