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O MUNDO NA ÉPOCA

Farsa e tragédia

 

Concerto, de Gerrit van Honthorst (1592-1656): encenações musicadas

    Paris tem apenas um grupo autorizado a montar peças na cidade. É a Confrérie de la Passion, companhia amadora que se fixou em teatro permanente no início do século XV e, nos próximos duzentos anos, receberá as tragicomédias de grupos profissionais vindos das mais variadas regiões. É para lá que se dirige o povo em busca de diversão. No tempo de Cabral, o teatro é talvez o mais importante mecanismo de entretenimento — vem sempre acompanhado por música.

  As raízes da Confrérie estão nas peças religiosas, oficialmente abolidas na França no início do século XVI, numa tentativa de impedir seu uso a favor dos avanços protestantes. Em Castela, no entanto — onde os mouros foram derrotados e tem início a recristianiazação do reinado — os governantes contam com o teatro: trata-se de importante veículo para o ensino religioso pela fácil assimilação. Os autos sacramentais, como são chamadas essas peças, reúnem características dos mistérios e das moralidades. São os mesmos autores que escrevem as peças leigas e religiosas, ambas apresentadas no meio da rua.

  A época de ouro do teatro espanhol será no século XVII, mas um dramaturgo português de origem desconhecida aponta, a partir de 1502, o caminho que está por vir. Gil Vicente escreve em português, espanhol e chega a misturar as duas línguas no mesmo texto. Ele é um desses autores tanto de autos com enredos religiosos quanto de tragicomédias e farsas, que chegam a satirizar o clero e a nobreza. As personagens representam o povo português, de diversas profissões, e os diálogos são construídos com o mesmo linguajar das ruas. A obra de estréia, Monólogo del Vaqueiro, por exemplo, traz texto em castelhano.

  Enquanto as encenações religiosas florescem na região de Castela, são postas de lado no resto da Europa. O movimento renascentista, que determina a imitação dos modelos grego e romano, chega ao teatro. Pela primeira vez, as peças clássicas são estudadas como dramatização em vez de literatura. Comédias e tragédias gregas conquistam a cena italiana e logo nascem textos inspirados no estilo teorizado na Poética de Aristóteles.

  Nos “quinhentos”, as confrarias e corporações leigas de teatro seguem de cidade em cidade por terra. E, a partir do final do século XVI, vão levar o palhaço Arlequim e o velho Pantaleão, personagens típicos da Commedia dell’Arte de origem italiana. Esse gênero será bastante popular em toda a Europa por volta de 1575. Na Commedia, os papéis serão fixos. O ator que interpretar Arlequim, por exemplo, fará a mesma personagem até o final da vida. As histórias de amor serão os temas principais, mas o público se interessará mesmo pelo cômico.

  As farsas estarão pelas ruas da Itália quando o maior dramaturgo do século XVI surgir na Inglaterra. William Shakespeare, autor de Romeu e Julieta, Rei Lear e Othelo, entre tantas outras, será o mais importante autor do teatro elizabetano, propagado na segunda metade do reinado de Elizabeth I, entre 1580 e 1603. As peças de Shakespeare, em que a música estará mais integrada no texto dramático, serão imortais: estarão nos palcos dos teatros do século XX do mundo inteiro, inclusive daquelas terras nas quais Cabral vai aportar.

* Alethea Muniz, da equipe do Correio.

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