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BRASIL 500
ANOS: O TRIGÉSIMO OITAVO DIA DA VIAGEM
Pobres meninos grumetes
Na frota de Cabral, 10% da tripulação é formada por
meninos entre 10 e 15 anos. Eles lavam o barco e dormem no convés. No
século XVI, metade das crianças nascidas em Portugal morrem antes de
completar um ano
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| Mãe alimenta seu bebê
no quadro Oficina de Tecelão, do pintor flamengo Koedick
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| Jogos Infantis, quadro
de Pieter Brueghel, mostra brincadeiras do século XVI. Algumas ainda
sobrevivem, como cinco marias e perna-de-pau
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‘‘Deu a nau um balanço grande, com que lançou o pobre
grumete por cima da gávea, que veio pelo ar cair ao mar (...) e desfazendo
a cabeça em pedaços com os miolos fora dela, nas vergas que todas ficaram
tinta de seu sangue’’ Henrique Dias, na Relação de Viagem e Naufrágio
da Nau São Paulo (1560)
Terça-feira, 14 de abril de 1500. Apesar dos divertidos
ensaios teatrais e dos bons ventos alísios, alguns tripulantes jamais
se alegram. São os pequenos grumetes. Meninos com idade entre nove e
quinze anos que, obrigados pelos próprios pais, trocaram a infância
pela terrível vida do mar.
Estima-se que 10% da frota de Cabral é formada por
crianças. Nos anos seguintes, os meninos chegarão a representar 18%
das esquadras. Trabalham como gente grande, ou melhor, como escravos.
Limpam o convés, fazem faxina nos porões e remendam velas.
Estão sob a responsabilidade do guardião, cargo imediatamente
abaixo do contra-mestre. Recebem ordens com apitos e se não obedecem,
apanham de chicote ou bastão. Se repetem a rebeldia, vão para os ferros
nos porões, ficam com os braços e as mãos presos.
Os grumetes estão no pé da hierarquia marinheira.
Ganham menos da metade do soldo dos marujos, mas sequer ficam com o
dinheiro. É entregue aos pais antes do embarque em Lisboa. Se morrem
durante as viagens, as famílias seguem recebendo uma pensão vitalícia.
O mar é cemitério freqüente para estas crianças.
Adoecem com facilidade. Não é para menos. Dormem ao relento, no convés,
próximos aos amantilhos, cabo que sustenta as vergas. Não têm direito
sequer a catre, a pequena cama dos marujos. Também não ganham baú para
guardar seus pertences.
Se em terra, a taxa de mortalidade infantil portuguesa
chega a 50% das crianças com menos de um ano, no mar a situação é mais
drástica. As crianças sofrem com a má alimentação. Tomam água podre
e comem biscoitos fétidos. Recebem uma arroba de carne salgada por mês,
que costuma estragar antes de ser consumida. Em tempos de calmaria quando
vigora o racionamento, comem ratos e baratas. Se alegram quando alguém
morre. O cadáver no convés, atrai pássaros.Os meninos, então, se lambuzam
um mórbido banquete.
‘‘Os grumetes aproveitaram haver morrido um homem
e uma menina juntamente com mais 10 pessoas que expostos no convés atraíram
muitos pássaros. Os grumetes comiam as aves, em contínuo banquete’’,
escreverá Henrique Dias, na Relação de Viagem e Naufrágio da Nau São
Paulo, em 1560.
Fora os horrores comuns das viagens bem sucedidas,
as crianças são as primeiras vítimas das tragédias do mar. Quando há
tempestades, seus frágeis corpos são lançados na água. Em casos de naufrágios,
são os últimos a embarcar nos pequenos batéis salva-vidas. Se não há
espaço, ficam esperando a morte no navio. Durante os ataques de piratas,
viram escravos dos bucaneiros. Há também relatos de sevícias, marujos
inescrupulosos que estupram as crianças. Algumas delas se prostituem
em troca de comida ou de alguma proteção dos mais velhos.
Além dos grumetes, há mais três categorias de meninos
que embarcam na Carreira das Índias: pagens, crianças judias e orfãs
do rei. Os pagens têm rotina um pouco melhor que a dos grumetes. Servem
apenas aos oficiais. Arrumam suas refeições, quartos e camas.
Os pequenos judeus também são personagens frequentes
nestes navios. Desde 1486, quando começou a perseguição aos judeus em
Portugal, os funcionários da Marinha, arracam a força as crianças judias
de suas famílias. Vão povoar as ilhas de São Tomé e Príncipe.
As orfãs do rei só viajarão pelo Atlântico a partir
da segunda metade do século XVI. Serão levadas até as colônias portuguesas
para casar com colonos, No barcos, essas meninas, todas com menos de
16 anos, viverão escondidas, com medo das maldades dos marujos.
São essas crueldades que daqui a alguns dias levarão
dois grumetes da frota de Cabral a fugirem dos barcos. Preferirão viver
no Brasil ao lado dos índios. Serão os primeiros brasileiros por opção.
* Ana Beatriz Magno, da equipe do Correio.
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