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O MUNDO NA
ÉPOCA
Pequena infância
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| Madonna della Sedia,
do pintor renascentista Rafael (1483-1520), mostra a Virgem Maria
com o menino Jesus o colo e São João, ainda criança, ao lado
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A infância era curta nos tempos de Cabral, logo descobriam
os grumetes dos navios e também as crianças que ficavam em terra. O
tempo de aprender e brincar acabava na adolescência para os mais ricos
e ainda na primeira infância para os pobres. Do nascimento à responsabilidade,
passavam-se poucos anos.
Aqueles com sorte nasciam numa festa que reunia em
torno da cama da mãe parentes e vizinhas, mulheres testemunhas de que
a linhagem familiar seria preservada. Mas por ali não ficavam muito
tempo.
Era nos seios das amas-de-leite que os bebês das
famílias burguesas dos séculos XV e XVI tinham seu primeiro contato
com o mundo. Com a mãe verdadeira, a convivência era esporádica. Afinal,
aquela criança que não sabia andar e nem podia falar, ainda não era
completa. Quando desse seus primeiros passos, o sinal de uma relativa
autonomia, o filho voltava para a casa.
Invenção do final do século XIV, a ama não dava apenas
o leite, mas a primeira educação. Era quem cantava para o bebê adormecer,
tinha a responsabilidade de ‘‘remodelar’’ seu rosto através de manipulações
para evitar má formações ou problemas como estrabismo. Por isso deveria
ser muito bem escolhida pela família. Era nas mãos desse mulher que
a criança iria viver até que falasse e andasse, normalmente até os 18
meses. Só então ganhava o status de parte da família.
Evitar a amamentação permitia às mulheres de famílias
ricas dedicar-se mais às conversas, aos passeios, e também servia como
proteção. A imensa mortalidade infantil criava nos pais um sentimento
de fatalidade. Em Portugal, no século XVI, metade das crianças morriam
antes de completar um ano. Aquelas que sobrevivessem eram fortes e podiam
receber o amor da família.
Esse sentimento de destino era, talvez, uma das poucas
coisas que ligavam os pais da burguesia aos da classe pobre. A miséria,
as pestes, a fome, tornavam frágeis os laços de amor com seres tão fracos,
mas que significam mais despesas. O déficit de meninas em relação a
meninos é conhecido. Menos aptas a ganhar seu sustento, e mais delicadas
quando crianças, são as maiores vítimas do infanticídio. É no século
XV que surgem os primeiros asilos de órfãos, para onde são mandadas
os abandonados.
A vida é dura para as crianças dos tempos de Cabral,
mas também há amor. É a partir do século XV que surge a idéia da família
moderna, composta pelo casal e seus filhos. A criança começa a deixar
de ser apenas a continuação da linhagem, uma peça na família, para criar
nos seus pais um sentimento de imortalidade, de posteridade por meio
da sua semente. O pequeno filho de burguês, o sobrevivente, ganha então
o espaço para aprender, para brincar.
Nas suas arcas, o enxoval é grande e rico como de
um adulto. Entre seus brinquedos, cavalos de gangorras, tamborins e
tambores, pássaros de madeira ou cerâmica multicolorida. Aos sete anos
começa a estudar, nos colégios internos ou em casa, preparando-se para
um dia exercer a profissão escolhida pelo pai. As meninas recebem educação
menos ambiciosa. Aprendem a ler e escrever, algumas estudam o latim
ou grego. A maioria, no entanto, concentra-se em aprender a ser uma
boa esposa.
Mas a infância é curta, e aos 14 anos um menino deve
estar preparado para assumir o sustento da família, se necessário. O
trabalho infantil não só é aceito, quanto exigido. Mesmo nas famílias
burguesas, é esperado que os filhos trabalhem. Quanto mais pobre, menor
o tempo de criança. Nas arcas do povo não há brinquedos nem enxoval.
As crianças dividem as poucas roupas, brincam com a imaginação. Aos
sete anos, o menino camponês vai para o campo com os pais. Na cidade,
meninas de seis anos trabalham como criadas. O mundo adulto começa cedo.
* Lisandra Paraguassú, da equipe do Correio.
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