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BRASIL 500
ANOS: O TRIGÉSIMO NONO DIA DA VIAGEM
Exaustos e imundos
Os tripulantes tomam pouco banho, usam vinagre para
lavar-se, fazem do mar o seu banheiro e o mau cheiro é uma constante
nos barcos
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| A Dama no Banho, tela
do francês François Clouet (1520-1572), retratista da corte: vinagre,
pele ressecada, lavanda
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‘‘Na primeira coberta, onde estavam os doentes, sofria-se
tão grande fedor, que trespassava as entranhas, por estar ali com eles
a fazer suas necessidades, e os que podiam faziam-nas em um quarto de
pipa e os outros onde estavam por ser necessário assim.’’ Carta do
padre Herédia, de 25 de novembro 1552, em viagem ao Cochim.
Quarta-feira, 15 de abril de 1500. Depois de 39 dias
de viagem, os marinheiros estão exaustos e imundos. Tomam raríssimos
banhos. O que chamam de banho é uma lavagem malfeita. Não há banheiras.
Os marujos se limpam com aquela mesma água fétida que lhes provoca diarréia.
Usam uma pequena caneca para derramar a água sobre o corpo. Não há sabonetes.
Para a higiene pessoal recorre-se ao vinagre — sua fórmula contém ácido
acético, limpa, mas a pele resseca. Fica com cheiro ocre. Para disfarçá-lo,
os capitães se lambuzam de uma oleosa lavanda — a emenda sai pior que
o soneto. Não perfuma e ainda enjoa os tripulantes.
Enjoar em alto-mar é corriqueiro, vomitar é parte
do cotidiano. Desde que os barcos trocam as águas mansas do Tejo pelas
marolas do Atlântico, os tripulantes começam a marear. Muitos se recolhem
aos porões e não conseguem subir ao convés para vomitar. Botam a tripas
para fora no mesmo lugar em que dormem. O porão é o mais nojento compartimento
destes barcos que hoje navegam com boa velocidade na direção sudoeste.
Enquanto em terra, os europeus já se maravilham com
a toillete, se perfumam com sândalo e almíscar importados do Oriente,
nos barcos as roupas sequer são lavadas. Mesmo os capitães passam semanas
com o mesmo traje. Os grumetes e soldados têm tão poucas peças de roupa
que em dias de tempestade ficam com as vestes molhadas.
A sujeira não é uma tragédia apenas dos barcos de
Cabral. Todos os relatos de viagens pela Carreira das Índias, entre
os séculos XV e XVIII, tratam do assunto. ‘‘Estes navios são extremamente
sujos e infectos porque a maior da gente não toma o trabalho de ir acima
para satisfazer suas necessidades’’, escreverá em 1610 o viajante francês
Pyrard de Laval.
Os barcos carecem de instalações sanitárias. Não
há banheiros, o mar é a latrina. Para defecar os marujos agacham-se
sobre um pequeno buraco aberto numa das varandas dos barcos e ali fazem
suas necessidades. Quando estão adoecidos, os marinheiros sequer conseguem
sair do porão. Urinam e defecam no mesmo lugar em que vomitam e dormem.
Estão ali também os animais vivos que servem de víveres aos marujos.
Há galinhas e carneiros. E os tripulantes. Os resultados desta mistura
são óbvios: doenças e mortes. As epidemias se alastram e se agravam
com a entrada de doentes nos portos asiáticos e africanos. ‘‘De 400
pessoas que levam esta nau, não andam 20 em pé’’, escreverá em 1597
o padre Gaspar Rodrigues, religioso da nau São Martinho.
Ana Beatriz Magno, da equipe do Correio.
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