logo-correio.gif (3798 bytes) 500 Anos de Brasil

O MUNDO NA ÉPOCA

Procurando o prazer descobre-se a higiene

 

Banho coletivo numa grande cuba: rotina ditada pelas fases da Lua
Banho num poço de água na zona rural: oferta em sinal de hospitalidade
Os célebres banhos públicos de Baden, perto de Zurique: homens e mulheres juntos
O banho e o prazer, com música, vinho, jardim: eclosão de erotismo com Vênus aladas

  O mundo de Cabral desconhece a existência de micróbios e nem desconfia que a higiene pode ser sinônimo de saúde. A roupa de baixo acaba de ser inventada, reduzindo a incidência de lepra, mas seu advento está no domínio das boas maneiras, e não no da higiene. À mesa, está sendo banido o hábito de comer com as mãos, substituído por pratos e talheres individuais, mas, de novo, não se adotam esses comportamentos por higiene, mas por conceitos de civilidade. Mas desde o século XII existe, em muitos lugares da Europa, o hábito de lavar as mãos antes e depois das refeições — e um viajante deixará para a história uma descrição espantada de sua visita a Noruega, onde ninguém lavava as mãos antes de sentar à mesa.

  A humanidade, nesta época, está procurando o prazer e a saúde e, sem querer, vai descobrir a higiene. Entre os profissionais da saúde, por exemplo, estão o barbeiro e o mestre de banho, e ambos habitam essa fronteira tênue entre o asseio e o deleite. O barbeiro lava a cabeça de seus clientes, corta-lhes a barba e o cabelo, e faz emplastros. O mestre de banho, por sua vez, aplica ventosas e relaxa seus clientes com longas massagens. E uma manifestação de carinho e apreço recorrente é a limpeza mútua de piolhos entre os amantes. Em Ravena, no século XIII, as autoridades até baixaram um regulamento proibindo que os casais ficassem catando piolhos à vista do público, sob a mansidão das arcadas da cidade.

  Ainda não se descobriu a água como elemento central da higiene. A água é usada apenas para lavar as partes expostas, como o rosto e as mãos. O resto do corpo deve ser limpo a seco, friccionando-se ou perfumando-se. A limpeza com água está mais voltada para a roupa, e um sinal de asseio é manter golas e punhos impecáveis, especialmente no caso de vestes brancas. Para efeito de higiene, a água ainda está em baixa. O costume monástico determina que os monges tomem um banho completo duas vezes por ano — uma no Natal, outra na Páscoa. E, por pudor, recomenda-se que não descubram suas vergonhas.

  Por sorte, a água está muito presente na vida do homem renascentista, ainda que não por asseio. Os banhos públicos e privados, tomados a sós ou em conjunto, na água quente ou no vapor, estão por toda a parte. Em Paris, sabe-se que no século XII já existiam 26 banhos públicos. Nos arredores de Zurique, na cidade de Baden (o nome significa banhos em alemão) há cerca de 30 banhos públicos. Embora desde 1349 houvesse um tratado médico na Alemanha, Das Buch der Natur, recomendando banhos freqüentes para a saúde e a higiene, os banhos são populares por outros motivos. Por acolhida, por terapia, por erotismo.

  A acolhida: o bom anfitrião, num sinal de hospitalidade, deve preparar um banho com água quente para o visitante, que o tomará numa tina de madeira colocada no quarto, perto do fogo, às vezes com plantas odoríferas e pétalas de rosa sobre a água. A terapia: os banhos públicos, divididos em vários compartimentos, têm letreiros indicando as virtudes de cada água para certas doenças e atraem os coxos, os enfermos, os deficientes, e costuma-se tomar banho levando em conta as fases da Lua. O erotismo: o casal banha-se junto, na intimidade do quarto, geralmente sob os olhos vigilantes da criada. Mas é nos banhos públicos que o erotismo eclode, pelo menos aos olhos de quem não está habituado.

  Em 1416, um ex-secretário apostólico florentino faz uma viagem a Baden, perto de Zurique, e visita os banhos públicos. Fica encantado com a nudez de velhos e jovens, mulheres e homens. É um tempo em que as prevenções do moralismo monástico, que desaconselhava o banho inteiramente nu, já estão caindo em desuso. O relato do viajante dá uma idéia do erotismo dos banhos de Baden, mesmo naqueles em que os usuários estão parcialmente vestidos: ‘‘Em certo banhos, os homens se misturam diretamente às mulheres, quer sejam seus próximos pelo sangue ou por outras cumplicidades; a cada dia, entram no banho três ou quatro vezes, passando assim a maior parte do dia, cantando, bebendo, dançando. Com efeito, cantam na água ao som da cítara, agachando-se um pouco; e é um espetáculo encantador ver moças, já maduras para o casamento, na plenitude de suas formas núbeis, o rosto brilhante de nobreza, manter-se e mover-se como deusas; enquanto cantam, suas roupas formam uma cauda flutuante à superfície das águas, de modo que as tomaríamos por Vênus aladas.’’

André Petry, da equipe do Correio.

.






© Copyright CorreioWeb. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita do CorreioWeb.