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O MUNDO NA
ÉPOCA
Procurando o prazer descobre-se a higiene
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| Banho coletivo numa
grande cuba: rotina ditada pelas fases da Lua
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| Banho num poço de água
na zona rural: oferta em sinal de hospitalidade
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| Os célebres banhos
públicos de Baden, perto de Zurique: homens e mulheres juntos
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| O banho e o prazer,
com música, vinho, jardim: eclosão de erotismo com Vênus aladas
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O mundo de Cabral desconhece a existência de micróbios
e nem desconfia que a higiene pode ser sinônimo de saúde. A roupa de
baixo acaba de ser inventada, reduzindo a incidência de lepra, mas seu
advento está no domínio das boas maneiras, e não no da higiene. À mesa,
está sendo banido o hábito de comer com as mãos, substituído por pratos
e talheres individuais, mas, de novo, não se adotam esses comportamentos
por higiene, mas por conceitos de civilidade. Mas desde o século XII
existe, em muitos lugares da Europa, o hábito de lavar as mãos antes
e depois das refeições — e um viajante deixará para a história uma descrição
espantada de sua visita a Noruega, onde ninguém lavava as mãos antes
de sentar à mesa.
A humanidade, nesta época, está procurando o prazer
e a saúde e, sem querer, vai descobrir a higiene. Entre os profissionais
da saúde, por exemplo, estão o barbeiro e o mestre de banho, e ambos
habitam essa fronteira tênue entre o asseio e o deleite. O barbeiro
lava a cabeça de seus clientes, corta-lhes a barba e o cabelo, e faz
emplastros. O mestre de banho, por sua vez, aplica ventosas e relaxa
seus clientes com longas massagens. E uma manifestação de carinho e
apreço recorrente é a limpeza mútua de piolhos entre os amantes. Em
Ravena, no século XIII, as autoridades até baixaram um regulamento proibindo
que os casais ficassem catando piolhos à vista do público, sob a mansidão
das arcadas da cidade.
Ainda não se descobriu a água como elemento central
da higiene. A água é usada apenas para lavar as partes expostas, como
o rosto e as mãos. O resto do corpo deve ser limpo a seco, friccionando-se
ou perfumando-se. A limpeza com água está mais voltada para a roupa,
e um sinal de asseio é manter golas e punhos impecáveis, especialmente
no caso de vestes brancas. Para efeito de higiene, a água ainda está
em baixa. O costume monástico determina que os monges tomem um banho
completo duas vezes por ano — uma no Natal, outra na Páscoa. E, por
pudor, recomenda-se que não descubram suas vergonhas.
Por sorte, a água está muito presente na vida do
homem renascentista, ainda que não por asseio. Os banhos públicos e
privados, tomados a sós ou em conjunto, na água quente ou no vapor,
estão por toda a parte. Em Paris, sabe-se que no século XII já existiam
26 banhos públicos. Nos arredores de Zurique, na cidade de Baden (o
nome significa banhos em alemão) há cerca de 30 banhos públicos. Embora
desde 1349 houvesse um tratado médico na Alemanha, Das Buch der Natur,
recomendando banhos freqüentes para a saúde e a higiene, os banhos são
populares por outros motivos. Por acolhida, por terapia, por erotismo.
A acolhida: o bom anfitrião, num sinal de hospitalidade,
deve preparar um banho com água quente para o visitante, que o tomará
numa tina de madeira colocada no quarto, perto do fogo, às vezes com
plantas odoríferas e pétalas de rosa sobre a água. A terapia: os banhos
públicos, divididos em vários compartimentos, têm letreiros indicando
as virtudes de cada água para certas doenças e atraem os coxos, os enfermos,
os deficientes, e costuma-se tomar banho levando em conta as fases da
Lua. O erotismo: o casal banha-se junto, na intimidade do quarto, geralmente
sob os olhos vigilantes da criada. Mas é nos banhos públicos que o erotismo
eclode, pelo menos aos olhos de quem não está habituado.
Em 1416, um ex-secretário apostólico florentino faz
uma viagem a Baden, perto de Zurique, e visita os banhos públicos. Fica
encantado com a nudez de velhos e jovens, mulheres e homens. É um tempo
em que as prevenções do moralismo monástico, que desaconselhava o banho
inteiramente nu, já estão caindo em desuso. O relato do viajante dá
uma idéia do erotismo dos banhos de Baden, mesmo naqueles em que os
usuários estão parcialmente vestidos: ‘‘Em certo banhos, os homens se
misturam diretamente às mulheres, quer sejam seus próximos pelo sangue
ou por outras cumplicidades; a cada dia, entram no banho três ou quatro
vezes, passando assim a maior parte do dia, cantando, bebendo, dançando.
Com efeito, cantam na água ao som da cítara, agachando-se um pouco;
e é um espetáculo encantador ver moças, já maduras para o casamento,
na plenitude de suas formas núbeis, o rosto brilhante de nobreza, manter-se
e mover-se como deusas; enquanto cantam, suas roupas formam uma cauda
flutuante à superfície das águas, de modo que as tomaríamos por Vênus
aladas.’’
André Petry, da equipe do Correio.
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