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BRASIL 500 ANOS: O QUARTO DIA DA VIAGEM

O Bojador

Os antecedentes da viagem marítima de Cabral e seus objetivos comerciais. Como era o comércio no século XV e os produtos e terras mais cobiçados

Quarta-feira, 11 de março de 1500. A frota avança a boa velocidade. No terceiro dia de mar, os navios de Cabral deixam para trás o golfo de las Yeguas, na boca do mar Mediterrâneo, a leste, e avançam no rumo sul-sudoeste.

  Aqui não há motivos para medo. São águas conhecidas dos tarimbados pilotos da esquadra. Os portugueses navegam nestas latitudes desde o começo do século XV. É uma história que tem início em 1415 com a tomada de Ceuta, no Norte da África, pelo rei D. João I.

  Desde então, os navegadores empurraram os limites conhecidos do Atlântico sempre no rumo Sul. O infante D. Henrique, terceiro filho de D. João I, era o cérebro e o coração do desafio. Planejava e impulsionava o avanço das primitivas barcas e, mais tarde, das ágeis caravelas.

  Começou por colonizar as ilhas da Madeira e dos Açores. Adiante delas, um obstáculo tremendo: o cabo Bojador, na costa africana, fim dos mares navegados na época. As ondas sempre violentas do cabo apavoravam os marinheiros. Além dele, era o Mar Tenebroso.

  Os discípulos de d. Henrique levaram doze anos para vencer o medo do Bojador, finalmente ultrapassado por Gil Eanes em 1434. Descobriram que não havia ali nada de tenebroso. Era o mesmo mar. Avançaram.

  D. Henrique morreu em 1460. Duas décadas de marasmo. A exploração marítima ganhou impulso de novo em 1481, com a subida ao trono de D. João II. O tratado de Alcáçovas, assinado dois anos antes com os reis de Castela, deu aos portugueses o domínio do golfo da Guiné. D. João II mandou construir uma grande fortificação na costa do golfo.

  A fortaleza de São Jorge da Mina tornou-se um ponto de apoio estratégico na exploração da África e do Atlântico. A conquista seguinte está clara: é o extremo sul da África, o cabo que, uma vez ultrapassado, abrirá o caminho para as Índias. Portugal poderá contornar a rota árabe e veneziana do comércio com o Oriente e tornar-se enfim uma potência européia (ver texto abaixo e mapa).

  Diogo Cão tentou encontrar o novo cabo. Imaginou tê-lo visto numa viagem de 1484, só para cair em desgraça ao fazer nova tentativa em 1485-86. Não era a ponta da África que ele tinha encontrado. Foi Bartolomeu Dias, afinal, quem dobrou, em 1488, o extremo sul do continente. Dias o batizou de Cabo das Tormentas e chegouao Oceano Índico (ver mapa). D. João II discordou do batismo: para ele, Dias chegara ao Cabo da Boa Esperança. O rei viu que era possível alcançar a Índia pelo mar. E sabia mais.

  Pouco antes da partida de Bartolomeu Dias, D. João mandara um diplomata, Pero da Covilhã, alcançar a Índia pela rota dos mercadores árabes. No caminho, deveria procurar o reino de Preste João, país mítico de cristãos orientais. Pero da Covilhã cumpriu a missão: chegou à Índia, mandou detalhado relatório ao rei, e, na volta, parou no reino cristão da Etiópia, no Norte da África.

  As viagens de Dias e Covilhã fecharam as preliminares da conquista dos oceanos. Estava tudo preparado para a façanha máxima dos navegadores portugueses: a descoberta do caminho marítimo para as Índias. Vasco da Gama foi o comandante escolhido para realizá-la. Levou uma carta do rei d. Manuel I, sucessor de d. João II, ao samorin (soberano) de Calecute — por onde Pero da Covilhã passara alguns anos antes — propondo a aproximação política e comercial entre os reinos.

  A frota de Vasco da Gama partiu de Lisboa a 8 de julho de 1497, com quatro navios. Dobrou o cabo da Boa Esperança e atracou em pontos do litoral oeste da África. Um piloto árabe os guiou na travessia do Índico. Já era o ano de 1498.

  No dia 20 de maio, a frota de Vasco da Gama atracou em frente a Calecute. Acabou o isolamento de séculos da Europa. Um punhado de europeus estava frente a frente com povos mais ricos do que eles. Tão ricos, que o samorin de Calecute fez pouco caso das miçangas e balangandãs enviados pelo rei português (presentes que impressionariam reis africanos).

  O samorin duvidou que recebesse o embaixador de um rei poderoso. Para consertar a má impressão, Pedro Álvares Cabral está agora a caminho da Índia à frente de uma impressionante frota de treze navios. E leva presentes mais ricos.

( * ) Armando Mendes, da equipe do Correio






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