logo-correio.gif (3798 bytes) 500 Anos de Brasil

BRASIL 500 ANOS: O QUARTO DIA DA VIAGEM

O mundo na época:
Por Cristo e pelas especiarias

Um cambista de moedas num porto indiano. Entre os clientes há europeus, reconhecíveis pelas roupas. No alto, à esquerda, retrato de Vasco da Gama

  O primeiro europeu da frota de Vasco da Gama a desembarcar em Calecute é um degredado, mandado pelo capitão para sondar a acolhida que os visitantes teriam naquele reino estrangeiro. Segundo o relato de Álvaro Velho, um dos tripulantes da frota, o degredado encontra em terra ‘‘dois mouros de Tunis que sabiam falar castelhano e genovês’’. Os mouros perguntam o que aqueles navegadores vinham buscar tão longe.

  ‘‘Vimos buscar cristãos e especiarias’’, responde o degredado. É uma definição concisa e precisa dos objetivos da expedição portuguesa. A quinhentos anos de distância, é possível avaliar que Vasco da Gama teve mais sucesso na segunda parte da missão do que na primeira.

  Os portugueses não conseguiram enraizar o cristianismo na Ásia, ao contrário do que fizeram na América do Sul. Os católicos são hoje minoria no Oriente. As culturas asiáticas, antigas e complexas, resistiram no confronto. Já no capítulo das especiarias, Vasco da Gama foi bem sucedido.

  Sua primeira expedição não dobrou o samorin de Calecute, como vimos. Mas abriu caminho para Pedro Álvares Cabral e para a Carreira das Índias — o intenso tráfego de navios lusos ao redor da África que assegurou por mais de um século o domínio português do comércio com o Oriente.

  Calecute era o porto mais importante da costa do Malabar. Naquela região se produzia a melhor pimenta do mundo. E pimenta era cobiçada como ouro. Há registros do uso da pimenta e de outras especiarias no Egito dos faraós e na Roma antiga. Para os carnívoros europeus da Idade Média e do Renascimento, a pimenta não era só tempero. Misturada a outras especiarias, ela conservava a carne (ou, pelo menos, tornava palatável o gosto da carne semi-estragada).

  Para além do subcontinente indiano ficavam as ilhas Banda, Ternate e Tidore, produtoras de noz-moscada e cravo, outras das especiarias mais procuradas, juntamente com a canela e o gengibre. Ficava também o grande porto livre de Málaca, entreposto comercial do sudeste asiático (hoje, a Malaísia).

  A rota marítima das Índias era a chave dessas riquezas. Ao chegarem a Calecute, portanto, os portugueses encontram um tesouro no sentido literal da palavra. E irão explorá-lo intensamente, realizando enormes lucros até serem desbancados pelos holandeses e ingleses no século XVII.

  A novidade, é claro, desagradou profundamente aos exploradores tradicionais do tesouro — os árabes e seus aliados, os venezianos — que viram ameaçado um rentável monopólio. Escandalosamente rentável, aliás; o historiador romano Plínio avalia, no século 1 a.C., que os mercadores árabes vendiam a pimenta por preços cem vezes maiores do que o preço de compra, na Índia. Quinze séculos mais tarde, na época da viagem de Vasco da Gama, os egípcios taxavam em 33% as especiarias que revendiam a Veneza. Os venezianos se encarregavam de distribuir os produtos do Oriente na Europa.

  Não é coincidência que Vasco da Gama encontre em Calecute dois ‘‘mouros de Tunis’’ (norte da África) falando castelhano e genovês. Eram, certamente, marinheiros ou negociantes acostumados a transitar pelos portos do Mediterrâneo. Nem é de estranhar, igualmente, que os mouros de Calecute tenham tentado intrigar os portugueses com o samorin.

  Os árabes eram os intermediários no comércio de uma vasta relação de riquezas da China e do Japão, além da Índia: tecidos finos, âmbar, almíscar, perfumes, madeiras aromáticas como o sândalo e o benjoim (a ilha do Timor, produtora de sândalo, foi ocupada pelos portugueses em 1515; o que acontece lá hoje é conseqüência direta desse evento de quase cinco séculos atrás).

  Quais são os outros grandes circuitos comerciais do mundo na época? Destaca-se a Liga Hanseática (Hansa) — uma federação de mercadores de cidades do Norte da Europa e do mar Báltico, à frente Lübeck e Hamburgo (hoje na Alemanha).

  Elas têm para oferecer madeiras, cera, trigo, centeio, peles, peixes salgados — produtos dos climas frios — além de prata das minas húngaras. Londres, Bruges (nos Países Baixos), e Veneza, a potência comercial da época, são os mercados onde a Hansa e os mercadores do Mediterrâneo se encontram para trocar os produtos do Norte pelos do Oriente, da África e da Europa do Sul.

  O Novo Mundo, neste momento, não faz parte dos circuitos mundiais (nem é chamado de América). Mas esse isolamento, já sabemos, está acabando. Faltou falar do mais vergonhoso negócio do Renascimento — o comércio de gente, dos escravos africanos que começam a ser levados para a Europa no século XV. É assunto para mais adiante. (AM)






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