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BRASIL 500
ANOS: O QUARTO DIA DA VIAGEM
O mundo na época:
Por Cristo e pelas especiarias
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| Um cambista de moedas num porto
indiano. Entre os clientes há europeus, reconhecíveis pelas roupas.
No alto, à esquerda, retrato de Vasco da Gama
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O primeiro europeu da frota de Vasco da
Gama a desembarcar em Calecute é um degredado, mandado pelo capitão
para sondar a acolhida que os visitantes teriam naquele reino estrangeiro.
Segundo o relato de Álvaro Velho, um dos tripulantes da frota,
o degredado encontra em terra dois mouros de Tunis que sabiam
falar castelhano e genovês. Os mouros perguntam o
que aqueles navegadores vinham buscar tão longe.
Vimos buscar cristãos
e especiarias, responde o degredado. É uma definição
concisa e precisa dos objetivos da expedição portuguesa.
A quinhentos anos de distância, é possível avaliar
que Vasco da Gama teve mais sucesso na segunda parte da missão
do que na primeira.
Os portugueses não conseguiram enraizar
o cristianismo na Ásia, ao contrário do que fizeram na
América do Sul. Os católicos são hoje minoria no
Oriente. As culturas asiáticas, antigas e complexas, resistiram
no confronto. Já no capítulo das especiarias, Vasco da
Gama foi bem sucedido.
Sua primeira expedição não
dobrou o samorin de Calecute, como vimos. Mas abriu caminho para Pedro
Álvares Cabral e para a Carreira das Índias o intenso
tráfego de navios lusos ao redor da África que assegurou
por mais de um século o domínio português do comércio
com o Oriente.
Calecute era o porto mais importante da
costa do Malabar. Naquela região se produzia a melhor pimenta
do mundo. E pimenta era cobiçada como ouro. Há registros
do uso da pimenta e de outras especiarias no Egito dos faraós
e na Roma antiga. Para os carnívoros europeus da Idade Média
e do Renascimento, a pimenta não era só tempero. Misturada
a outras especiarias, ela conservava a carne (ou, pelo menos, tornava
palatável o gosto da carne semi-estragada).
Para além do subcontinente indiano
ficavam as ilhas Banda, Ternate e Tidore, produtoras de noz-moscada
e cravo, outras das especiarias mais procuradas, juntamente com a canela
e o gengibre. Ficava também o grande porto livre de Málaca,
entreposto comercial do sudeste asiático (hoje, a Malaísia).
A rota marítima das Índias
era a chave dessas riquezas. Ao chegarem a Calecute, portanto, os portugueses
encontram um tesouro no sentido literal da palavra. E irão explorá-lo
intensamente, realizando enormes lucros até serem desbancados
pelos holandeses e ingleses no século XVII.
A novidade, é claro, desagradou profundamente
aos exploradores tradicionais do tesouro os árabes e seus
aliados, os venezianos que viram ameaçado um rentável
monopólio. Escandalosamente rentável, aliás; o
historiador romano Plínio avalia, no século 1 a.C., que
os mercadores árabes vendiam a pimenta por preços cem
vezes maiores do que o preço de compra, na Índia. Quinze
séculos mais tarde, na época da viagem de Vasco da Gama,
os egípcios taxavam em 33% as especiarias que revendiam a Veneza.
Os venezianos se encarregavam de distribuir os produtos do Oriente na
Europa.
Não é coincidência que
Vasco da Gama encontre em Calecute dois mouros de Tunis
(norte da África) falando castelhano e genovês. Eram, certamente,
marinheiros ou negociantes acostumados a transitar pelos portos do Mediterrâneo.
Nem é de estranhar, igualmente, que os mouros de Calecute tenham
tentado intrigar os portugueses com o samorin.
Os árabes eram os intermediários
no comércio de uma vasta relação de riquezas da
China e do Japão, além da Índia: tecidos finos,
âmbar, almíscar, perfumes, madeiras aromáticas como
o sândalo e o benjoim (a ilha do Timor, produtora de sândalo,
foi ocupada pelos portugueses em 1515; o que acontece lá hoje
é conseqüência direta desse evento de quase cinco
séculos atrás).
Quais são os outros grandes circuitos
comerciais do mundo na época? Destaca-se a Liga Hanseática
(Hansa) uma federação de mercadores de cidades
do Norte da Europa e do mar Báltico, à frente Lübeck
e Hamburgo (hoje na Alemanha).
Elas têm para oferecer madeiras, cera,
trigo, centeio, peles, peixes salgados produtos dos climas frios
além de prata das minas húngaras. Londres, Bruges
(nos Países Baixos), e Veneza, a potência comercial da
época, são os mercados onde a Hansa e os mercadores do
Mediterrâneo se encontram para trocar os produtos do Norte pelos
do Oriente, da África e da Europa do Sul.
O Novo Mundo, neste momento, não
faz parte dos circuitos mundiais (nem é chamado de América).
Mas esse isolamento, já sabemos, está acabando. Faltou
falar do mais vergonhoso negócio do Renascimento o comércio
de gente, dos escravos africanos que começam a ser levados para
a Europa no século XV. É assunto para mais adiante. (AM)
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