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BRASIL 500 ANOS: O quadragésimo
dia da viagem
Estrangeiros, sem lei nem rei
Os tripulantes trazem a carga preconceituosa da Europa
que não confere individualidade aos nativos. Terror ao canibalismo mítico
das novas terras
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Gravura de Thedor de Bry para os relatos de Hans Staden, quase
devorado pelos Tupinambás

Staden testemunha ritual de preparação

Índia Tarairiu, de Albert Eckhout

As mulheres no ritual da deglutição. Theodor de Bry
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Quinta-feira, 16 de abril de 1500. Tantos dias ao mar
e os assombros se avizinham como a terra que em breve se mostrará
próxima. Mitos e relatos da época ocupam a esquadra como
a pergunta natural de toda a viagem: Que gentes e tipos
encontraremos?. Os olhos já se voltam angustiados
para o horizonte à espera da terra. A visão do outro tem
suas deformações naturais de época e carregam o
peso do colonizador.
Saídos de Portugal refletem a sociedade
em ruptura e descoberta ( a recriação do mundo),
como define o historiador dos Descobrimentos, Jaime Cortesão,
sobre o painel de Nunes Gonçalves: Ali agoniza o
ocaso dum mundo que foi e alvorece o que há de ser.
A pintura teve início em 1478 a pedido do rei Afonso V, o Africano.
Mesmo a utopia do Quinto Império
espiritual fundamentado sobre um reinado iniciático do Espírito
Santo tem a sua visão do outro fragmentada. Ela não é
física, concreta. Ao estar na Europa de fronteiras instáveis
sob guerras e ameaças permanentes não há muito
o que se cultuar sobre o outro, quando tudo que é estranho, estrangeiro,
ameaça, desestabiliza.
O próprio desenho do mundo se altera
lentamente. Desde a ultrapassagem do cabo da Boa Esperança, a
3 de fevereiro de 1488, por Bartolomeu Dias, ficara estabelecida a união
dos oceanos Índico e Atlântico. Em 1434, Gil Eanes ultrapassara
o Cabo Bojador e o Cabo Não para o início do contato e
exploração do litoral africano. Somam-se relatos de povos
diferentes já correntes antes do embarque. Mesmo apavorantes
e distorcidos. O outro é ameaça selvagem, canibal,
carnívoros de carne humana. Pelo impulso religioso o outro
também era a alma a ser resgatada pela soberania salvadora da
Igreja unilateral e poderosa em armas e artifícios.
Esta imagem do outro como um corpo estranho
encontrará ênfase no trecho da carta de Caminha, que se
espantará naturalmente com nativos nus, sem coisa
alguma que lhes cobrisse suas vergonhas. Como um primeiro
relato português a visão descoberta do corpo torna-se documento
intransferível da primeira identidade.
O estrangeiro português, como qualquer
um em sua época, acha estranho o que não entende. A passagem
de Vicente Pinzón, em janeiro de 1500, e Vespúcio em sua
Lettera, de 1504, também falam dos nativos pelo exótico.
Mais tarde se seguirão relatos de Pero Lopes de Sousa, de Álvaro
Nunes Cabeza de Vaca, de Ulrich Schmidel, de Hans Staden, de Antonie
Knivet, de André de Thévet e de Jean de Léry. Com
maior ou menor requinte de detalhes, a maioria revela o choque cultural
com o que normalmente carrega de preconceitos: Tudo o que
difere do meu mundo a mim me soa exótico, estranho,
no dizer de um opúsculo do século XV, anônimo, encontrado
nos arquivos da catedral de Chartres. O outro é um enigma tanto
para quem chega quanto para quem é nativo (veja o relato de Momboré-Uaçu
). Os japoneses chamam os portugueses de nambam-jin:
bárbaros vindos do sul.
A esquadra encaminha-se para um enigma onde
a convivência será forçada. A diferença estaria
entre a docilidade da recepção e a avidez de quem pretende
conquistar. A Igreja de Portugal não tem um projeto teológico
para o próximo embora amai-vos uns aos outros
esteja nos evangelhos. Envolvida em apropriações e litígios
pelo poder temporal não havia espaço para tal requinte
humanitário. O estrangeiro religioso europeu (e mais prevaleciam
as superstições dogmáticas) resolve
essa angústia: simplesmente não confere condição
humana, sob a pecha de incivilizado, ao nativo.
Assim não estariam transgredindo a Santa Madre ou conspurcando
as palavras do Cristo.
Índios não eram próximos
a serem amados. Não havia outro. Mas corpos úteis.
Mercadorias a mais como os escravagistas tratariam depois os negros
como cargas. O que Darcy Ribeiro no Processo Civilizatório -
escrito no exílio em março de 1968 - chama de Impérios
Mercantis Salvacionistas.
( * ) TT Catalão, da equipe do Correio
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