logo-correio.gif (3798 bytes) 500 Anos de Brasil

O mundo na época

O outro não tem lugar nem vez

  Da obra recatada de Vespúcio, Lettera, foi extraído o quase apócrifo Mundus Novus com caricaturas para virar sucesso de leitura ao explorar pontos mais exóticos. O canibalismo é um deles com referências ilustradas no mapa Kunstman II, de 1503. A xilogravura do alemão Johan Froschauer de Ausburg, mostra a imagem antropófaga de uma tribo. A prática era comum na fronteira entre a dieta alimentar e o ritual de transferência dos poderes vindos pela oralidade da deglutição.

  Em 1556, ao naufragar no litoral de Alagoas, o primeiro bispo do Brasil, dom Pero Fernandes Sardinha, não teve tempo de contar a história e virou banquete na foz do rio Coruripe, para os índios caetés. Entre os relatos posteriores destaca-se o do arcabuzeiro alemão, Hans Staden, que ficou nove meses em 1554 prisioneiro dos Tupinambás. Hans Staden nasceu em 1510, em Homberg, Hessen, e faleceu em 7 de setembro de 1576 em Wolfhagen. Vindo de Sevilha ele naufraga em um navio espanhol no litoral de Santa Catarina, em 1549, dirigindo-se ao Rio da Prata. Dois anos depois, seguindo para o norte, foi a pique novamente, em Itanhaém. Staden fica no Forte de Bertioga com idas periódicas a Boiçucanga até 1554. Dez dias antes de seu retorno à Europa é capturado. Sua obra ‘‘Duas Viagens ao Brasil‘‘, de 1557, Publicado em 1557 em Marburg, com xilogravuras que inauguram a iconografia brasileira em escala mais apurada. Foram mais de cinqüenta edições em alemão, flamengo, holandês, latim, francês, inglês e português, o que demonstra o imenso interesse que os relatos canibais despertavam. Staden relatou: ‘‘É gente capaz, astuta e maldosa, sempre pronta para perseguir os inimigos e devorá-los’’.

  Na mesma época o francês Nicolas Barré, em 1556, escreve: ‘‘Tudo me leva a crer que esses nativos são o povo mais bárbaro e estranho que habita sobre a Terra. Eles vivem sem conhecimento de nenhum deus, sem inquietude de espírito, sem lei e sem nenhuma religião‘‘. Parceria próxima a de Montaigne nos ‘‘Ensaios’’ que menciona a descoberta no Novo Mundo de um povo sem lei nem rei, mas que parecia ser feliz. Em 1580, Michel de Montaigne radicaliza ao escrever: ‘‘cada qual considera bárbaro o que não se pratica em sua terra’’.

  O holandês Albert Eckhout, retrataria em ‘‘Mulher Tapuia’’ uma índia com um cesto com pedaços de um corpo humano. Nas gravuras criadas pelo flamengo Theodor de Bry, sem ter visitado a terra, há descrições literais de esquartejamento e banquetes de carne humana. O impacto sobre a cultura européia foi imenso e mais acirradas as investidas para domar ‘‘tamanhas mosntruosidades’’ justificando-se assim quaisquer meios. O outro era ‘‘inferior’’.(TT)

Estranho, intruso, invasor, visto por quem aqui vivia

Chefe Tupinambá de Pernambuco, Momboré-Uaçú, conforme nos relata Claude d’Abbeville, em História da missão dos padres capuchinhos na ilha do Maranhão e terras circunvizinhas, de 1614:

(...) No começo os Peró (portugueses) não faziam mais que andar sem pretender fixar residência. Nessa época dormiam livremente com as moças, o que nossos confrades de Pernambuco acreditavams ser alguma coisa de muito honrado. Mais tarde disseram que deveríamos nos acostumar com eles e que precisavam construir fortalezas para se defenderem e edificar cidades para viver com a gente. E assim parecia que desejavam que construíssemos uma só nação. Depois, começaram a dizer que não mais podiam ficar com a moças assim sem mais nem menos, que Deus somente permitia que as possuíssem depois do casamento e que eles não podiam casar sem que elas fossem batizadas (...) Mas tarde afirmaram que não podiam viver sem escravos que os servissem e para eles trabalhassem e assim forçaram para que os nossos os oferecessem. Mas não satisfeitos com os escravos capturados na guerra eles também quiseram os filhos dos nossos e acabaram escravizando toda a nação e com tal tirania e crueldade os trataram que os que ficaram livres foram, como nós, forçados a deixar nossa terra (...)






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