logo-correio.gif (3798 bytes) 500 Anos de Brasil

O quadragésimo primeiro dia da viagem

O zero e a lenda das sete cidades

Os marujos celebram a sexta-feira santa e temem a lenda do ano bissexto. O homem europeu está dividido entre a ciência e a religião

Navios em Perigo em Litoral Rochoso (1667), de Ludolf Bakhuisen: quando as águas do mar inspiram lendas

Imagem medieval do mundo, em Comentarii et Postillas Fratis: na Idade Média, a terra estava parada

Sexta-feira, 17 de abril de 1500. Começaram ontem os festejos teatrais da Semana Santa. Os marujos representaram o julgamento de Cristo e logo depois comemoraram a boa velocidade de cinco nós, nove quilômetros por hora, uma das melhores performances nos quarenta dias desta viagem.

  Hoje é sexta-feira da paixão, os tripulantes estão assustados. Temem a antiga lenda do ano bissexto: o mundo acabará às três horas da tarde de uma sexta-feira de ano bissexto, como 1500. É hoje, crêem os religiosos. Tementes, os padres acordaram cedo para benzer as águas. Diz a profecia que os mares ficarão revoltos, engolirão os barcos e devorarão as terras.

  No começo da noite, o manso Atlântico desmentiu os devotos. Não houve sinal de desastre. A tripulação vibrou e os padres mandaram preparar uma ceia de festa. Como obriga a tradição do jejum da sexta-feira santa, todos os marinheiros privaram-se de carne. Comeram peixe, cereais e queijo, especialmente retirado da dispensa para o festejo. Antes da refeição, todos rezaram em frente ao altar da popa, na missa celebrada pelo frei Henrique de Coimbra.

  A história do ano bissexto é um bom exemplo do que se passa nestes tempos das grandes navegações. A Europa está numa encruzilhada entre a religião e a racionalidade científica. A aritmética avança com a criação do zero, levado para Portugal e Espanha pelos árabes no século IX. (Os primeiros a representarem o ‘‘nada’’, foram os indus, usuários do ábaco. Para designar a coluna vazia das dezenas no ábaco, eles introduziram um símbolo que chamaram de sunya, que significa vazio e que passou para o árabe com o nome de cifer)

  Mas, os europeus demoraram cinco séculos — justo os tempos de trevas da Idade Média — para transformar o zero em conceito. É só em 1491 que o vocábulo zero aparece pela primeira vez num manuscrito. Nomear o símbolo facilitou o raciocínio dos matemáticos, mas enriqueceu a imaginação dos místicos. No final do século XV, circulam várias histórias de que o algarismoredondo é mágico.

  No mar também vigora esta contradição. Se de um lado, a engenharia naval e o conhecimento náutico jamais estiveram tão avançados, de outro os marujos ainda se impressionam com fantasias de monstros marinhos, tão repetidas pelos padres que viajam pela Carreira das Índias. Fala-se da Serpente do Mar, a mensageira do mal. Teme-se aportar na ilha das sete cidades. É uma lenda romana que ainda vigora em Portugal. Os marujos acham que esta é uma terra errante, pavorosa e protegida por estátuas. Seriam marcos do fim do mundo. Haverá quem diga que esta ilha é o Brasil. Ao invés do fim do mundo, o Novo Mundo.

( * ) Ana Beatriz Magno, da equipe do Correio






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