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O quadragésimo segundo dia
da viagem
A 300 quilômetros
A frota está perto da Baía de Todos os
Santos e traz a bordo o tesoureiro Pero Vaz de Caminha, que narrará
ao rei, com riqueza de detalhes, a paisagem da nova terra e morrerá
nas Índias sem voltar a Portugal
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A carta de Pero Vaz de Caminha a dom
Manuel, datada de 1º de maio de 1500
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Sábado, 18 de abril de 1500. Os ventos sopram
de leste e carregam a frota a cinco nós, nove quilômetros
por hora, para sudoeste. Marujos e comandantes não sabem ainda,
mas estão a pouco mais de trezentos quilômetros da Baía
de Todos os Santos, cada vez mais perto da terra que estão prestes
a descobrir.
Nos barcos, dia de missa e divertimento. É no sábado
de Aleluia que os marinheiros brincam de malhar o Judas, a tradição
medieval de bater e queimar um boneco representando Judas Iscariotes,
o apóstolo que traiu Jesus Cristo. É, também, uma
maneira de exorcizar o medo que os acometera no dia anterior, a Sexta-Feira
Santa de ano bissexto em que, diz a lenda, o mundo iria acabar.
O mundo que conhecem não acabou, mas um mundo novo
está por nascer. A terra da qual a frota está se aproximando
terá sua certidão de nascimento assinada por Pero Vaz
de Caminha, que foi convocado a integrar a tripulação
pelo rei dom Manuel I. Caminha, um escrivão, um homem de números,
foi chamado não para descrever o que via, mas para anotar gastos
e ganhos da expedição portuguesa na feitoria de Calicute,
nas Índias, para onde se dirigirão Cabral e seus homens
nos próximos dias.
Nascido na cidade do Porto, talvez em 1450, Caminha é
filho de Vasco Fernandes de Caminha, mestre de balança da Casa
da Moeda de Porto, uma função que mistura os ofícios
de escrivão e tesoureiro. Por sua fidelidade ao rei e aos números,
Vasco Fernandes conquistou o direito de passar a seu filho a função
que exerceu a vida toda. A competência de Caminha, por sua vez,
lhe deu o lugar de vereador na cidade do Porto. Foi de sua autoria o
regimento da Câmara da cidade enviado a Lisboa. Sua habilidade
com as letras e os números e a conhecida honestidade lhe garantiram
o chamado do rei para fazer parte desta frota.
Pelos planos do rei, Caminha se instalará na feitoria
de Calicute como tesoureiro. É uma promoção para
o mestre do porto. Dom Manuel tem grandes planos para as Índias.
Pretende ganhar muito com as especiarias trazidas da terra estranha.
A função do tesoureiro será cuidar do dinheiro
que circulará pela feitoria. No barco, sua função
é indefinida. Não é seu o dever de tesoureiro.
Também não tem a tarefa de registrar os acontecimentos
da viagem. Não está escalado para ser o escriba que enviará
as boas novas a Portugal.
O burocrata do Porto, no entanto, tem um bom motivo para
escrever a Vossa Alteza: seu genro Jorge Osouro, casado com Isabela,
está no degredo, na Ilha de São Tomé, por ter assaltado
uma igreja e ferido o padre, e Caminha quer pedir ao rei para trazê-lo
de volta ao Porto.
Afeito à precisão e ao detalhe, o escrivão
juntará a seu apelo a primeira descrição das terras
do Brasil. Em sete folhas de pergaminho manuscrito, 27 páginas
de 29,6 por 29,9 centímetros, Caminha descreverá a paisagem
e as águas, as plantas e os bichos, a gente e sua vida na terra
nova. E dará tantos detalhes e tantas cores que criará
a terra de Santa Cruz na imaginação dos portugueses. Sua
carta ao rei será datada de 1º de maio de 1500, último
dia da expedição portuguesa nas terras brasileiras. A
missiva voltará para o reino no barco comandado por Gaspar de
Lemos, encarregado de dar as boas novas ao rei.
(A carta de Caminha chegará a Portugal mas, como
seu autor, só entrará para a história dois séculos
depois. Guardada na Torre do Tombo, em Lisboa, ficou lá esquecida
até 1773, quando o diretor do arquivo, José Seabra, a
encontrou e mandou copiá-la. Em 1817, mais de três séculos
depois da descoberta do Brasil, a carta foi publicada pela primeira
vez pelo padre Manuel Aires do Casal na Corografia Brazílica,
censurada nas partes que tratava da falta de vergonha dos índios
brasileiros.
Caminha, depois de descrever o Brasil, irá com a
frota de Cabral para a feitoria de Calicute, nas Índias, assumir
seu posto de tesoureiro. Mas será por pouco tempo. Em 16 de dezembro
de 1500, os árabes vão desfechar um violento ataque contra
a feitoria portuguesa em Calicute, e Caminha morrerá nesta guerra.
O homem que legou para a história a certidão de nascimento
do Brasil morrerá sem jamais ter pisado de novo o solo de seu
país.)
(*) Lisandra Paraguassú, da equipe do Correio
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