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O mundo na época
A revolução livreira
Enquanto Caminha está
escrevendo sua carta com bico de pena e letras desenhadas sobre um pergaminho,
a Europa vive uma revolução nas artes gráficas.
A imprensa está nascendo. Um ourives alemão de nome Johann
Gutenberg descobriu que é possível reproduzir em papel
as letras do alfabeto. Tomou emprestado uma antiga técnica de
produzir moedas prensando metais numa matriz e inventou a tipografia.
A genialidade Gutenberg foi perceber que era possível usar matrizes
separadas para cada uma das letras, permitindo assim todas as combinações
silábicas. Para imprimir usou uma engenhoca chamada prelo (confira
o processo ao lado).
A descoberta de Gutenberg encerrou séculos de manuscritos
e iniciou o tempo dos livros. Na realidade desde o século XI,
os chineses conhecem o princípio de produção de
livros com tipos gráficos móveis, mas a tecnologia teve
muito mais impacto no Ocidente porque era mais adequada ao nosso alfabeto
do que às centenas de ideogramas chineses. Depois de dois anos
de trabalho, Gutenberg conseguiu, em 1455, a primeira prova concreta
de sua façanha. Imprimiu a Vulgata, tradução latina
da Bíblia.
A Vulgata foi o primeiro de uma série de livros.
Estimularam o hábito de leitura, ajudaram a reduzir o analfabetismo
e popularizaram o conhecimento literário, antes privilégio
dos poucos sábios medievais que dominavam a tradução
dos manuscritos. Também abriram um novo mercado de trabalho.
No final do século XV, havia cerca de mil tipografias, espalhadas
por mais de 250 localidades européias. No início do século
XVI, circulavam pela Europa de 30 mil edições literárias
e pelo menos 9 milhões de exemplares para demonstrar o
perfil elitista dos manuscritos, basta registrar que em todo o século
XV circularam apenas 50 mil manuscritos.
Depois da Bíblia, cresceu o interesse por obras resgatadas
da Antiguidade. Os europeus devoraram textos de Ovídio, Cícero
e Virgílio. Escolas e universidades compraram centenas de brochuras,
as bibliotecas começaram a montar seus acervos. Em 1460, inaugurou-se
a xilogravura. Estava inventado o livro ilustrado. Em 1485, os gráficos
imprimiram várias cores numa mesma página. Criaram o livro
colorido. Como é hoje. Passados cinco séculos, nem a Internet
derrotou a revolução livreira. E, graças a Gutenberg,
podemos hoje nos deliciar com a carta de Pero Vaz de Caminha.
(*) Ana Beatriz Magno, da equipe do Correio

Essa reconstrução de uma
impressora primitiva mostra os mecanismos usados para fazer uma impressão.
Na preparação, a fôrma era colocada sobre o mármore,
os tipos recebiam tinta e uma folha de papel era presa ao tímpano.
Dobrada sobre o tímpano, a frasqueta expunha apenas a área
do papel a ser impressa. As duas partes eram então dobradas sobre
a forma e o conjunto, empurrado sob platina. Uma alavanca enfiada no
eixo baixava a platina.
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