logo-correio.gif (3798 bytes) 500 Anos de Brasil

O quadragésimo terceiro dia da viagem

Um dia decisivo

Os barcos viram para o sudoeste, a tripulação
canta para celebrar a Páscoa. Franceses e flamengos mudam a música

Grupo Musical numa Sacada, Gerrit van Honthorst (1592-?):
a música é a melhor companheira dos marujos

Concerto, de Van Honthorst: novas melodias flamengas dominam o ambiente musical na Europa, mas nos barcos, os padres obrigam os marinheiros a ouvir entediantes canções religiosas
Jovem Flautista, de Judith Leyster (1609-1660): educação musical começa na infância. Reforma protestante simplifica melodias para que todos possam cantar

Domingo, 19 de abril de 1500. É um dia decisivo para o destino desta frota. Os ventos de leste sopram forte, os 12 navios navegam rápido, com mais de dez nós de velocidade. Trocaram o rumo sul sudoeste, pelo ‘‘franco sudoeste’’. Significa que, como nunca nesta jornada, os barcos estão apontados para o oeste.
(500 anos depois: o almirante Max Justo Guedes, respeitado especialista em navegação e estudioso da viagem do descobrimento brasileiro, defende que neste ponto Cabral mudou propositalmente de direção. Queria encontrar as novas terras, pressentidas em 1498 durante a viagem de Vasco da Gama. ‘‘Tal busca não atrasaria a viagem nem o desviaria de seu objetivo. Por isto, creio que, neste trecho, o rumo foi fechado sobre a provável terra’’, explica Guedes, em seu artigo O Descobrimento do Brasil, publicado em setembro de 1999, na revista portuguesa Oceanos)
  Hoje é domingo de Páscoa. Os marujos comemoraram com missa, ceia, vinho e música. Frei Maffeu, um italiano que mal arranha o português, tocou comportadas melodias sacras em seu pequeno orgão. Os marujos preferem as notas alegres saídas da gaita de foles de Gaspar da Gama, judeu e tradutor desta frota. (Daqui a sete dias a música de Gaspar da Gama terá serventia diplomática, seduzirá os índios tupinambás, nas areias do sul da Bahia, e será um dos belos exemplos da hospitalidade indígena e do inicial deslumbramento português com os nativos. ‘‘Nosso gaiteiro logo meteu-se com eles a dançar, tomando-os pelas mãos; e eles folgavam e riam, e o acompanhavam muito bem ao som da gaita. Depois de dançarem, fez-lhe ali, andando no chão, muitas voltas ligeiras e o salto mortal, de que eles se espantavam muito, e riam, e folgavam’’, anotará um encantado escrivão Pero Vaz de Caminha).

(*) Ana Beatriz Magno, da equipe do Correio







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