logo-correio.gif (3798 bytes) 500 Anos de Brasil

O mundo na época

Música em transformação

 
O Jardim dos Desejos Terrenos, de Hieronymus Bosch (1452-1516): como
a arte, a música fugiu
ao domínio da religião, misturando temas sagrados e profanos

  Os franceses do norte e os flamengos já vêm dominando o ambiente musical há algum tempo. São compositores ousados, inquietos e que enfrentam críticas por causa da complexidade de sua música. No limiar do século XVI, eles criaram os alicerces para que toda a produção posterior do Ocidente se desenvolvesse. Em outros lugares os músicos nem são tão bem vistos assim: em Berna foram proibidos de usar calças para não serem confundidos com os verdadeiros burgueses.
  Na verdade, esta já é a segunda escola franco-flamenga. Pioneiros como o mestre Guillaume Dafay (1400-1474) eram acusados de fazer uma música cerebral demais, que abandonava a emoção em nome do virtuosismo. Os compositores que o sucederam não facilitavam muito, abusando de bordados contrapontísticos e de fios melódicos — Johannes Okeghem (1430-1495) escreveu um Deo Gratias para 36 vozes. Mas é exatamente esta obsessão com o detalhe que faz florescer uma nova escola.
  Josquin des Près (1450-1521) é o ‘‘príncipe dos músicos’’, professor de uma série de compositores que rompem o século com uma música intrigante e que desafia a ditadura religiosa ao misturar nos temas — absurdamente, podemos dizer —, cantos litúrgicos a textos profanos. Mas cada melodia é cantada independentemente das demais em polifonias de efeitos surpreendentes, com choques de dissonâncias que formam um conjunto harmonioso, mas com a letra praticamente ininteligível.
  A música se transforma. A polifonia vocal ainda é a mais consumida nesses primeiros anos de Renascença, mas o número de vozes diminui. Uma canção popular é escrita para quatro, cinco timbres sobrepostos e que se alternam, se misturam e se compõem.
  Nesses tempos a religião divide o mundo e a música aceita a separação: nos países que se mantêm fiéis à fé católica, a música começa a deixar os ambientes sagrados para preencher a vida social da aristocracia. Nos países que aderem à reforma, o caminho é o oposto; a igreja se transforma no único palco. Compositores polifonistas como Claude Goudimel (1505-1572) se submetem à ordem calvinista e têm que escrever peças simples, que acompanhem os 76 salmos e possam ser cantadas por toda a comunidade — e não apenas pelo coro. Os músicos não podem procurar caminhos novos, e com a proibição do uso de instrumentos nos templos calvinistas, a música se empobrece nos países que abraçaram a Reforma.
  No caminho oposto, a Igreja Católica tem o grande mestre do período, Giovanni Pierluigi da Palestrina (1525-1594). O compositor só usa sua arte para servir à liturgia: ao contrário de seus precursores que não se importaram muito com a palavra, Palestrina faz dela o ponto de partida de sua música. Sem renunciar à polifonia, Palestrina torna o texto sacro compreensível na boca dos cantores. Não é uma música para salas de concertos, mas para ser executada na igreja.
  Algumas obras de Palestrina atravessarão os séculos, como a Missa Papae Marcelli, que desde 1567 é tocada depois das cerimônias que anunciam a Páscoa. Também motetes resistirão, como o Salve Regina e o Dum Complerentur.
  Pouco depois a música começaria a mudar. Os franceses desenvolveram a chanson, os alemães criaram o lied e os italianos transformaram a villanella napolitana, a canzonetta e os baletti nos madrigais, inicialmente peças vocais para até cinco vozes, que admitem o acompanhamento eventual de um alaúde. É também na Itália que surgem a ária e a cantata e, da união dos três gêneros, seria criada, no final do período, a ópera, a partir de um erro histórico.
  O mecenas Bardi reuniu vários intelectuais para que estudassem os motivos do fracasso de poetas italianos em imitar a tragédia grega. Concluíram que os gregos declamavam os papéis como se estivessem cantando. O equívoco resultaria na criação da ópera, tempos depois. E a música nunca mais seria a mesma.

(*) Paulo Pestana, da equipe do Correio






© Copyright CorreioWeb. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita do CorreioWeb.