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O quadragésimo quarto dia
da viagem
Parcas letras
Apenas 10% da frota de Cabral tem algum domínio
das letras. Muitos marinheiros são analfabetos, não passaram
nem por escolas de marinhagem
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Vista Panorâmica do Monastério
da Praça de Belém, de Felipe Lobo: em 1500, os lisboetas
passam sede
enquanto o rei manda construir este suntuoso prédio, símbolo
da arquitetura renascentista portuguesa |
Lisboa, a senhora dos Mares, nesse
ano de 1500 (...) era a Lisboa honrada e mesteirosa dos mesteres esquecidos,
atafoneiros, regatões, gibeteiros, espareleveiros e desses
escrivães do Pelourinho Velho, que, abancados às mesas
redigiam, ao sabor dos freguezes, cartas de amor, requerimentos, versos,
discursos, epitáfios, coisa que em que parte
alguma das cidades da Europa eu vi jamais , diria
o viajado Damião de Góis
Jaime Cortesão, em a Expedição de Cabral
Segunda-feira, 20 de abril de 1500. Último
dia de lua cheia, já está minguando, hoje apareceu no
céu perto das 21h15. Os barcos continuam com boa velocidade,
no rumo sudoeste, bastante embicados para o oeste.
Os marujos curam a ressaca do vinho fajuto que beberam ontem
para celebrar a Páscoa. Marujos são assim, alegres, um
pouco rústicos, quase todos analfabetos. Sobem aos barcos, sem
antes passar pelas escolas, mesmo as de marinhagem.
A carência de estudos é tão grave que
muitos marinheiros não conhecem termos elementares da navegação,
como bombordo (esquerda) e boreste (direita). Para evitar confusões
nas horas de manobra, colocam um punhado de alho de um lado, e um de
cebola do outro. E gritam: Virar à cebola, virar
ao alho
Desta tripulação, só os capitães,
pilotos, religiosos, escrivães e feitores, portanto pouco mais
de 10% do total de viajantes, têm algum domínio das letras.
As escolas em Portugal ainda são para nobres e fidalgos.
Até bem pouco tempo atrás nem os fidalgos conheciam colégios.
Na fidalga família de Cabral, só ele e seu irmão
mais velho João, foram estudar em Lisboa. Viraram pajens, recebiam
uma bolsa de 100 reais (moeda portuguesa da época) mensais.
Tinham uma rotina dura, estudavam astronomia, leis, latim,
geometria, gramática e linguagem, como era chamado o idioma pátrio,
ainda em formação. As crianças pobres aprendiam
a fazer contas nas feiras, as ricas nas classes de ábaco, a máquina
de calcular chinesa. Quando erravam a lição, apanhavam
de palmatória.
Melhor sorte que os Cabrais têm os meninos de famílias
nobres. Portugal começa a tentar um ingresso no erudito mundo
da cultura renascentista. A nobreza lusitana prefere mandar seus pimpolhos
para estudar em Flandres, Salamanca, Paris, Florença e Veneza,
as cidades do saber no século XV.
No estrangeiro, os pequenos portugueses se formam geógrafos,
físicos, matemáticos, juristas ou mestres de latim, artes
clássicas ou humanidades. Os filhos do chanceler João
Teixeira foram para Florença, os de Henrique Caiado para Pádua
e os de Aires Barbosa para Salamanca.
A coroa paga a conta. No final do século XV, o rei
dom Manoel mantinha cerca de 300 bolsistas estudando em universidades
européias.
Mas, estudar fora é um luxo para pouquíssimos.
Lisboa de 1500 é uma cidade com cinquenta mil habitantes, grande
parte analfabetos. Há muitos trabalhadores braçais, os
gibeteiros. Tem os atafoneiros, homens que trabalham na atafona, um
moinho manual ou movido por cavalgaduras. Há os espareleveiros,
ou pescadores que trabalham com rede. As figuras mais comuns são
os regateiros, vendedores que compram em grosso para vender a retalho.
Em todos estes ofícios, há muita labuta e
pouco domínio das letras. Quando é preciso escrever, cartas
de amor ou ofícios; requerimentos ou versos, apela-se para os
escrivães. Homens que passam os dias debruçados sobre
banquinhas nas praças, botando no papel o que os lisboetas têm
no coração.
(*) Ana Beatriz Magno, da equipe do Correio
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