logo-correio.gif (3798 bytes) 500 Anos de Brasil

O quadragésimo quinto dia da viagem

Sinais de Terra

Botelhos e rabos de asno flutuam no Atlântico. Os marinheiros comemoram. É a primeira boa nova depois de difíceis 45 dias de viagem. O nome Brasil está cercado de mistério

“Até que terça-feira das oitavas de Páscoa, que foram 21 dias de Abril, topamos alguns sinais de terra, estando distantes da dita Ilha, (a ilha de São Nicolau, no arquipélago de Cabo Verde) — segundo os pilotos diziam, obra de 660 ou 670 léguas — os quais eram em muita quantidade de ervas compridas, a que os mareantes chamam de botelho e assim mesmo outras a que dão o nome de rabo-de-asno.”

Pero Vaz de Caminha

 

Segunda-feira, 21 de abril de 1500. Ufa! Enfim, sinais de terra. Logo cedo, apareceram filamentos verde-escuros e amarelados boiando sobre as águas densas do Atlântico. Os experimentados pilotos festejaram. Sabem que sargaço no mar é sinal de terra por perto.
  Estas algas, que eram muitas e compridas, vinham da banda oeste dos barcos. Dirão os historiadores que esta é mais uma evidência de que nesta região a forte corrente empurraria os navios para longe da costa, o que derruba os argumentos dos que acreditam na casualidade da descoberta do Brasil.
  Explica-se: na costa brasileira, as correntes marítimas são circulares e dirigidas ao sul. Isso significa que, se, naquele momento, os homens de Cabral não tivessem firmes intenções de chegar a Pindorama, costeariam o litoral, sem jamais pisar por aqui. Aconteceu com Vasco da Gama dois anos antes.
  Em sua carta ao rei dom Manoel, o escrivão Pero Vaz de Caminha anotou o nome destas plantas que hoje tanto alegraram aos marujos. São de dois tipos: botelhos e rabos-de-asno. Os botelhos, também chamados botelhas, têm longas folhas lisas, parecem ‘‘botijas’’, garrafas, e terminam em rechonchudos tubérculos. Já os rabos de asno têm hastes felpudas, levemente flabeladas, em forma de leque, nas extremidades. Parecem rabos de raposa.
  É compreensível o entusiasmo dos tripulantes ao enxergar estas plantinhas.
Viajam há 45 dias, a última vez em que viram terra foi em 24 de março, nas proximidades da ilha de São Nicolau, no arquipélago de Cabo Verde, onde o mar engoliu o barco e os 150 homens de Vasco de Ataíde. Conforme as anotações de Caminha, os pilotos calculam que barcos percorreram 670 léguas entre a ilha de São Nicolau e os sargaços de hoje. Estão certíssimos.
  Os sofisticados equipamentos náuticos do futuro mostrarão que, entre o ponto médio do arquipélago de Cabo Verde e a paragem de Porto Seguro, a distância é de 37 graus e cinco minutos, o que corresponde a 675 léguas.
  Estas paragens serão batizadas de Brasil. Dirão que é por causa dos milhares de pau-de-tinta, árvore que libera um corante vermelho e chama-se Pau-Brasil. Porém, Brasil tem origens mais interessantes e misteriosas. Na Idade Média, acreditava-se que o Atlântico era um mar tenebroso cheio de ilhas mitológicas. Uma dessas ilhas, assinaladas em textos e mapas medievais, chamava-se Hy Brazil. Estava a sudoeste da Irlanda, como aparece no Atlas de Palmela, do século XV. Seria o lendário lugar de São Brandão. Um místico irlandês que, em 565 da Era Cristã, teria enfrentado os mares para encontrar uma terra sem males.
  Achou a terra da bem-aventurança, que nomeou Hy Brazil. Mais tarde em 1325, o italiano Angelinus Dalorto a descreverá como ‘‘um largo anel de terra ao redor de um mar interior’’. Melhor é a definição de um velho poema anglo-normando de 1200: a ilha Hy Brazil é um lugar abençoado, onde não há nem calor nem frio excessivos, tristeza, fome ou sede.

(*)Ana Beatriz Magno da equipe do Correio

 






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