logo-correio.gif (3798 bytes) 500 Anos de Brasil

O mundo na época

O Inferno é o Outro

 
Biombo nambam: os portugueses
vistos pelos olhos dos japoneses

 ‘‘Estes homens, bárbaros do sudeste, são comerciantes. (...) não sei se existe entre eles um protocolo qualquer. Bebem num copo sem oferecê-lo aos outros; comem com os dedos e não com pauzinhos, como nós. Mostram seus sentimentos de coração aberto. Não compreendem o sentido dos caracteres escritos. São indivíduos que passam a vida vagando de um lado para outro, sem domicílio fixo, e trocam coisas que possuem por coisas que não têm, mas no fundo são inofensivos.’’

Trecho de Teppo Ki, crônica japonesa do início do século XVI

  Quem eram os viajantes cujos costumes estranhos intrigavam os habitantes de Cipango, o nome mítico do Japão? Eram os navegadores portugueses recém-chegados, depois de passarem pela Índia e pela Malásia. A crônica é um de diversos textos do século XVI que revelam vividamente o outro lado da história: como os os asiáticos, então sendo descobertos, viam seus descobridores.
  Viam gente bárbara e grosseira (comem com os dedos, não com pauzinhos!). O trecho da crônica permite também, como numa figura em negativo, compor a imagem que os autores fazem de si próprios: no rígido Japão feudal, a hierarquia determina tudo, o autocontrole é regra básica de convivência e os rituais sociais vedam a expressão dos sentimentos.
  Os europeus, em comparação com os contidos orientais, não parecem obedecer a nenhum protocolo e não se incomodam de demonstrar o que sentem. Pior: passam a vida vagando de uma terra a outra a trocar o que têm pelo que não têm. Ou seja, a fazer comércio, uma atividade vista com desprezo em sociedades cujo homem ideal é ao mesmo tempo guerreiro, monje e poeta.
  Orientais e ocidentais se enxergam de perspectivas radicalmente diferentes. É como se quatro outros se encontrassem a cada desembarque ocidental em terras orientais: o europeu como ele se via, o oriental que o europeu esperava encontrar, o oriental como ele se via e o europeu que o oriental esperava encontrar.
  Na China, tamanho desencontro produzirá tragédias. A primeira embaixada do rei de Portugal ao imperador da China, chefiada por Tomé Pires, é uma sucessão de gafes diplomáticas e choques culturais. O embaixador e seu séquito chegarão a Pequim, a capital chinesa, em 1520, e Tomé Pires entregará ao imperador Wu Zhong uma carta de D. Manuel I.
  Mas todos os seus integrantes, menos Tomé e dois chefes, terminarão presos e cruelmente executados. O que aconteceu? A carta, traduzida por intérpretes, foi considerada ofensiva. Os orgulhosos mandarins chineses não podiam conceber que o embaixador de um rei estrangeiro propusesse a seu imperador nada menos que vassalagem e submissão.
  Era assim que os chineses lidavam com os povos em seu redor — submetendo-os. Seu reino era o Império do Meio, do qual todos os outros eram tributários. Já os portugueses estão acostumados a arrancar vantagens comerciais dos reinos que encontram — por bem ou por mal. Se as negociações não bastam, falam os canhões. Fizeram assim na Índia e em Malaca, na península malaia.
  O choque era inevitável. Para piorar, bem no momento em que o infeliz Tomé Pires tenta desempenhar sua missão, chega a Pequim, em fuga, o filho do sultão de Malaca. Queixa-se ao imperador chinês da violência dos portugueses: recebidos amistosamente pelo sultão Ahmed Shah (contra o conselho de nobres da corte), bombardearam e tomaram a cidade. O príncipe denuncia o embaixador, como relatará Cristóvão Vieira, um dos sobreviventes do grupo:

‘‘diziam os malaios que o embaixador del-Rei de Portugal que estava na terra da China (...) não vinha de verdade, que falsamente era vindo à terra da China para enganar e que andávamos a ver as terras e que logo vínhamos sobre elas e como na terra púnhamos uma pedra e tínhamos casa, logo havíamos a terra por nossa, que assim fizéramos em Malaca e em outras partes, que éramos ladrões.’’

  Diante de tal contrapropaganda, a embaixada de Tomé Pires não podia mesmo dar certo. Opinião semelhante sobre os portugueses tinham os muçulmanos do sul da Índia, onde aportaram Vasco da Gama e Pedro Álvares Cabral. Veja-se um texto da época sobre os muçulmanos de Malabar:

‘‘...não se contavam mais as violências, o desprezo, os sarcasmos; (...) eles (os portugueses) os espoliavam de seu comércio, proibiam sua peregrinação, os roubavam e queimavam suas cidades, fiscalizavam seus navios, maltratavam o Corão e seus livros, que pisoteavam e queimavam; profanavam o recinto sagrado das mesquitas, incitavam os muçulmanos à apostasia e à adoração da cruz...’’

  Os muçulmanos, ao menos, tinham uma visão realista da expansão européia, ao contrário dos japoneses, que consideravam os homens brancos inofensivos. Mas em matéria de análise histórica equivocada, ninguém bate os Tlaxcalan, um povo ameríndio que se aliou a Hernán Cortés, o conquistador espanhol, contra os aguerridos mexicas (depois conhecidos por astecas), senhores da região que hoje é o México.
  Cortés e alguns povos locais aliados derrotaram os mexicas em 1520. Mas o Lienzo de Tlaxcala, um documento nativo, conta a história assim: foi uma vitória dos Tlaxcalan, ajudados, num plano secundário, por um punhado de homens brancos e montados a cavalo. Os Tlaxcalan nem imaginavam que aqueles homens brancos, vistos como atores coadjuvantes de uma guerra local, iriam destruir suas cidades, oprimir sua cultura e transformar o México em colônia de um distante império europeu.

(*) Armando Mendes, da equipe do Correio






© Copyright CorreioWeb. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita do CorreioWeb.