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O mundo na época
O Inferno é o Outro
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Biombo nambam: os portugueses
vistos pelos olhos dos japoneses |
Estes homens, bárbaros do sudeste,
são comerciantes. (...) não sei se existe entre eles um
protocolo qualquer. Bebem num copo sem oferecê-lo aos outros;
comem com os dedos e não com pauzinhos, como nós. Mostram
seus sentimentos de coração aberto. Não compreendem
o sentido dos caracteres escritos. São indivíduos que
passam a vida vagando de um lado para outro, sem domicílio fixo,
e trocam coisas que possuem por coisas que não têm, mas
no fundo são inofensivos.
Trecho de Teppo Ki, crônica japonesa do início
do século XVI
Quem eram os viajantes cujos costumes
estranhos intrigavam os habitantes de Cipango, o nome mítico
do Japão? Eram os navegadores portugueses recém-chegados,
depois de passarem pela Índia e pela Malásia. A crônica
é um de diversos textos do século XVI que revelam vividamente
o outro lado da história: como os os asiáticos, então
sendo descobertos, viam seus descobridores.
Viam gente bárbara e grosseira (comem com os dedos,
não com pauzinhos!). O trecho da crônica permite também,
como numa figura em negativo, compor a imagem que os autores fazem de
si próprios: no rígido Japão feudal, a hierarquia
determina tudo, o autocontrole é regra básica de convivência
e os rituais sociais vedam a expressão dos sentimentos.
Os europeus, em comparação com os contidos
orientais, não parecem obedecer a nenhum protocolo e não
se incomodam de demonstrar o que sentem. Pior: passam a vida vagando
de uma terra a outra a trocar o que têm pelo que não têm.
Ou seja, a fazer comércio, uma atividade vista com desprezo em
sociedades cujo homem ideal é ao mesmo tempo guerreiro, monje
e poeta.
Orientais e ocidentais se enxergam de perspectivas radicalmente
diferentes. É como se quatro outros se encontrassem a cada desembarque
ocidental em terras orientais: o europeu como ele se via, o oriental
que o europeu esperava encontrar, o oriental como ele se via e o europeu
que o oriental esperava encontrar.
Na China, tamanho desencontro produzirá tragédias.
A primeira embaixada do rei de Portugal ao imperador da China, chefiada
por Tomé Pires, é uma sucessão de gafes diplomáticas
e choques culturais. O embaixador e seu séquito chegarão
a Pequim, a capital chinesa, em 1520, e Tomé Pires entregará
ao imperador Wu Zhong uma carta de D. Manuel I.
Mas todos os seus integrantes, menos Tomé e dois
chefes, terminarão presos e cruelmente executados. O que aconteceu?
A carta, traduzida por intérpretes, foi considerada ofensiva.
Os orgulhosos mandarins chineses não podiam conceber que o embaixador
de um rei estrangeiro propusesse a seu imperador nada menos que vassalagem
e submissão.
Era assim que os chineses lidavam com os povos em seu redor
submetendo-os. Seu reino era o Império do Meio, do qual
todos os outros eram tributários. Já os portugueses estão
acostumados a arrancar vantagens comerciais dos reinos que encontram
por bem ou por mal. Se as negociações não
bastam, falam os canhões. Fizeram assim na Índia e em
Malaca, na península malaia.
O choque era inevitável. Para piorar, bem no momento
em que o infeliz Tomé Pires tenta desempenhar sua missão,
chega a Pequim, em fuga, o filho do sultão de Malaca. Queixa-se
ao imperador chinês da violência dos portugueses: recebidos
amistosamente pelo sultão Ahmed Shah (contra o conselho de nobres
da corte), bombardearam e tomaram a cidade. O príncipe denuncia
o embaixador, como relatará Cristóvão Vieira, um
dos sobreviventes do grupo:
diziam os malaios que o embaixador
del-Rei de Portugal que estava na terra da China (...) não vinha
de verdade, que falsamente era vindo à terra da China para enganar
e que andávamos a ver as terras e que logo vínhamos sobre
elas e como na terra púnhamos uma pedra e tínhamos casa,
logo havíamos a terra por nossa, que assim fizéramos em
Malaca e em outras partes, que éramos ladrões.
Diante de tal contrapropaganda, a
embaixada de Tomé Pires não podia mesmo dar certo. Opinião
semelhante sobre os portugueses tinham os muçulmanos do sul da
Índia, onde aportaram Vasco da Gama e Pedro Álvares Cabral.
Veja-se um texto da época sobre os muçulmanos de Malabar:
...não se contavam mais as violências,
o desprezo, os sarcasmos; (...) eles (os portugueses) os espoliavam
de seu comércio, proibiam sua peregrinação, os
roubavam e queimavam suas cidades, fiscalizavam seus navios, maltratavam
o Corão e seus livros, que pisoteavam e queimavam; profanavam
o recinto sagrado das mesquitas, incitavam os muçulmanos à
apostasia e à adoração da cruz...
Os muçulmanos, ao menos, tinham
uma visão realista da expansão européia, ao contrário
dos japoneses, que consideravam os homens brancos inofensivos. Mas em
matéria de análise histórica equivocada, ninguém
bate os Tlaxcalan, um povo ameríndio que se aliou a Hernán
Cortés, o conquistador espanhol, contra os aguerridos mexicas
(depois conhecidos por astecas), senhores da região que hoje
é o México.
Cortés e alguns povos locais aliados derrotaram os
mexicas em 1520. Mas o Lienzo de Tlaxcala, um documento nativo, conta
a história assim: foi uma vitória dos Tlaxcalan, ajudados,
num plano secundário, por um punhado de homens brancos e montados
a cavalo. Os Tlaxcalan nem imaginavam que aqueles homens brancos, vistos
como atores coadjuvantes de uma guerra local, iriam destruir suas cidades,
oprimir sua cultura e transformar o México em colônia de
um distante império europeu.
(*) Armando Mendes, da equipe do Correio
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