logo-correio.gif (3798 bytes) 500 Anos de Brasil

O quadragésimo sexto dia da viagem

A Terra de Vera Cruz

Um monte “mui alto e redondo”surge no horizonte e a esquadra de Cabral encontra a terra que viria a se chamar Brasil. O comandante ainda irá à Índia antes de voltar a Lisboa, mas o Mar Oceano vai cobrar a conta

Índios a bordo da nau capitânia’’, de Oscar Pereira da Silva (1867-1939): os nativos foram convidados ao navio de Cabral sete dias depois do descobrimento

 

A Primeira Missa, óleo de Victor Meirelles. À direita, índios serrando pau-brasil em atlas ilustrado por Johannes van Keulen, em 1683: a exploração da madeira e o novo nome vieram muito depois de Cabral

 

‘‘E quarta-feira seguinte, pela manhã, topamos aves a que chamam fura-buchos. Neste dia, a horas de véspera, houvemos vista de terra! Primeiramente dum grande monte, mui alto e redondo; e doutras serras mais baixas ao sul dele; e de terra chã, com grandes arvoredos: ao monte alto o capitão pôs nome — o Monte Pascoal, e à terra — a Terra de Vera Cruz.’’

Pero Vaz de Caminha

Quarta-feira, 22 de abril de 1500. Primeiro, foram os pássaros. Um bando de fura-buchos, de pernas alongadas, espécie de garças marinhas. Onde há bichos, há terra. Passavam das três da tarde quando o horizonte deixou de ser céu e mar. Os marinheiros pousaram seus olhos sobre um monte alto e redondo. ‘‘Terra à vista !’’, o gajeiro gritou.
  Em homenagem à Páscoa, ocorrida há três dias, o comandante Cabral batizou o monte, de Pascoal. Atrás dele, ao sul, estão outras serras mais baixas e mais distantes. Na frente, há um enorme campo, uma planície que se debruça sobre o mar, ora em escarpas avermelhadas, ora em praias de areias brancas e finíssimas. E aquilo tudo passou a se chamar Terra de Vera Cruz.
  Os marinheiros comemoraram a vista do chão firme. Enfim poderiam descansar, fazer aguada — reabastecer os estoques de água doce e comida. E, principalmente, dormiriam cheios de orgulho. São os descobridores de um novo mundo.
  Cabral mandou os marujos lançarem o prumo, instrumento feito de linha e peso, usado para medir a profundidade. Ali, o mar é fundo. Acharam vinte e cinco braças, quase 50 metros — uma braça são 1,83 metros. Em seguida, os barcos navegaram mais um pouco na direção da costa, até que a seis léguas da praia, com o sol já posto, o comandante ordenou que as âncoras fossem lançadas.
  Ali, o fundo do mar de é acolhedor. A ancoragem foi fácil, ‘‘limpa’’ como anotou Pero Vaz de Caminha. Os barcos permaneceram ancorados durante toda a noite iluminada pela lua mingüante. Os tripulantes dormiram cedo, felizes, convencidos de que na manhã seguinte pisariam num Novo Mundo. E pisaram.

Ana Beatriz Magno, da equipe do Correio

No fim, o esquecimento

  Pedro Álvares Cabral e seu milhar e meio de tripulantes ficarão na terra recém-encontrada até o sábado, dois de maio de 1500. Quando partirem, depois de rezar duas missas e confraternizar com os nativos, levarão alguns tripulantes a mais e a menos: ficarão em terra dois degredados e dois grumetes desertores, mas embarcarão nos navios três destemidos tupinambás.
  Um deles chegará a Portugal a bordo da nau de Gaspar de Lemos, mandada de volta com 80 tripulantes, muitas cartas — entre elas a de Pero Vaz de Caminha ao rei d. Manuel I — e um sortimento de lembranças da terra encontrada: toras de pau-brasil, araras, arcos, flechas, cocares e pedras.
  Os outros dois índios não terão a mesma sorte. Morrerão afogados ao largo do Cabo da Boa Esperança, na costa africana. A caminho das Índias, seu destino original, a esquadra encontrará violentíssima tempestade no dia 23 de maio.
  Três naus e uma caravela vão naufragar. Cabral perderá os dois tupinambás e mais de 300 homens, entre eles os comandantes Aires Gomes, Simão de Pina, Luís Pires e — ironia das ironias — Bartolomeu Dias, o extraordinário navegador que dobrara o Cabo da Boa Esperança pela primeira vez há 13 anos. O Mar Oceano vinga-se do Capitão do Fim.
  Cabral, com os navios remanescentes, chegará à Índia em setembro de 1500, mais de seis meses depois da partida de Lisboa. Ficará três meses em Calecute, o porto aonde Vasco da Gama chegara dois anos antes. Num ataque dos inimigos árabes, morre Pero Vaz de Caminha, o autor da carta que descreve o achamento do Brasil.
  Mas os portugueses conseguirão negociar um grande carregamento de especiarias com o rajá de Cochim, rival do soberano de Calecute. Com os porões abarrotados de pimenta, gengibre e canela, e tendo fundado uma feitoria em Cochim, Cabral decide voltar. Perde mais um navio no caminho, e, finalmente, entre junho e julho de 1501, os cinco barcos sobreviventes da armada que deixou Lisboa em março de 1500 entrarão no Tejo (mais um barco se desgarrou)
  É um triunfo para o comandante Pedro Álvares Cabral. Mas dura pouco. O rei o recebe em seu palácio de verão e ele ganha uma pensão anual de 30 mil reais. Mas não voltará ao mar.
  Por motivos ainda hoje obscuros, Cabral cairá em desgraça. Não embarcará na nova esquadra enviada às Índias em 1502 sob o comando do almirante Vasco da Gama. Sabe-se dele apenas que viverá em Santarém, distante do mundo e da Corte, até morrer, provavelmente em 1520. Pedro Álvares Cabral, o Esquecido, morrerá apenas um ano antes do rei d. Manuel I, o Venturoso.

Armando Mendes, da equipe do Correio






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