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BRASIL 500
ANOS: O QUINTO DIA DA VIAGEM
Sob as ordens do rei
Quem era dom Manoel, um rei que andava sobre um elefante
pelas ruas de Lisboa e insistiu em lançar a frota de Cabral ao mar,
e qual era a geopolítica do mundo renascentista
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Fernando e Isabel, retrato
de 1484: Espanha unida
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Quinta-feira, 12 de março de 1500. Dia ensolarado, os
barcos deslizam no rumo sul-sudoeste. Os ventos empurram a frota a seis
nós, cerca de 12 quilômetros por hora. Não há contratempo dentro dos
navios. Os marinheiros obedecem ao regimento régio assinado por dom
Manoel há menos de um mês, no dia 15 de fevereiro, em Lisboa. No regimento,
o rei exige subordinação dos tripulantes e autoriza Pedro Álvares Cabral
a castigar os rebeldes.
Dom Manoel, O Venturoso, cuidou de cada detalhe da viagem.
Entregou ao comandante um roteiro do percurso. ‘‘Passado o Cabo da Boa
Esperança não tomeis outro porto nem faceis demora em alguma parte’’,
ordena o rei no regimento. Dom Manoel tem pressa. Quer que a frota chegue
logo às Índias e teme as calmarias que tanto atrapalharam Vasco da Gama
há dois anos, em 1498.
Meticuloso, o rei, de apenas 30 anos, descreve até a
maneira com que as naus devem atracar em Calecute, na Índia, para impressionar
os rajás: ‘‘Juntas e metidas em grande ordem, com bandeiras e estandartes.’’
Também usa da sedução. Carregou esta frota de presentes, instruiu o
comandante a entregá-los logo após o desembarque e anotou até dicas
de etiqueta para Cabral e subordinados: ‘‘Lhes mostrará todo bom rosto
e sinal de paz e boa vontade, dando de comer e beber e fazendo todo
outro bom trato a todos aqueles que a nossas naus vierem.’’ Mas pondera:
‘‘Resguarda para que não gastem muito mantimento nem de nossas naus
se apoderem.’’
Dom Manoel tem fascínio pelo Oriente. Até já desfilou
nas ruas sobre um elefante. Deslumbrava-se com bestas do continente
africano. Montou uma arena em Lisboa e organizou um rodeio entre rinocerontes
e elefantes. No dia do confronto, óbvio: confusão. O elefante soltou
um urro para assustar a outra fera, quebrou a grade e ganhou as ruas
de Lisboa. O exotismo real não tem limites nem diplomáticos. Dom Manoel
mandou um elefante e uma onça como regalos ao papa Leão X. Tanto sucesso
fizeram em Roma, onde cardeais se enfileiraram para vê-los, que dom
Manuel decidiu mandar um rinoceronte.
O rei é um hábil estrategista, mas não nasceu herdeiro
do trono. Seu antecessor, dom João II, perdera o herdeiro ainda criança
e escolheu dom Manoel, primo e cunhado, para sucedê-lo. Não que o parentesco
lhe fosse caro. Ao contrário. Um irmão de dom Manoel fora morto pelo
próprio dom João, esfaqueado, por conspirar contra a Coroa. Dom João
achava que Manoel, apesar de irmão de um subversivo, teria ousadia para
deslanchar seu projeto expansionista. Acertou.
Manoel foi fiel a dom João mesmo depois da morte. Quando
o corpo de seu antecessor foi transferido de Silves para Lisboa, dom
Manoel entrou de madrugada na capela onde jaziam os restos mortais.
Ordenou que abrissem o esquife e assoprassem a cal que cobria o cadáver.
O rosto, os cabelos estavam intactos. E o rei beijou as mãos que haviam
matado seu irmão.
( * ) Paulo Silva Pinto, da equipe do Correio
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