logo-correio.gif (3798 bytes) 500 Anos de Brasil

BRASIL 500 ANOS: O MUNDO NA ÉPOCA

A geografia mutante

 

Xilogravura colorida a mão e impressa na Alemanha em 1486: geografia do dinheiro e da fé

 Imagine que as naves espaciais de hoje chegaram a Marte e seus astronautas descobriram que, além de ser habitado, o planeta vermelho é rico em petróleo e avançado em tecnologia da informação. Agora, tente imaginar o impacto que uma descoberta de tal envergadura teria sobre o mundo. Acontecia algo semelhante quando Cabral lançou-se ao mar, em março de 1500. Havia seis anos, sob as bençãos de Alexandre VI, um papa mais afeito à matéria que ao espírito, Portugal e Espanha dividiram entre si o mundo oceânico já descoberto e por descobrir, com a assinatura do Tratado de Tordesilhas, em 1494. O acordo escandalizou a Europa Ocidental. Francisco I, rei da França, indignado, dizia que as terras desconhecidas, assim como o sol, eram de todos e de ninguém, mas nada adiantou. A chancela papal, embora tivesse seu poder enfraquecido por esta época, ainda tinha força de lei.   

O mundo estava em plena expansão marítima. Havia doze anos, Bartolomeu Dias descobrira o Cabo da Boa Esperança, no sul da África. Dez anos depois, Vasco da Gama encontrara o cobiçado caminho marítimo para a lendária Índia, terra de metais preciosos e especiarias infindas. Portugal, um país pronto, com sua geografia definida e um povo maciçamente favorável à conquista dos mares, reunia excelentes condições para virar um império oceânico. Espanha também atravessava um momento ímpar. Em 1469, Fernando e Isabel se casaram, unindo os reinos de Castela e Aragão, regiões da atual Espanha, e, havia oito anos, se apoderaram da Granada muçulmana, outra região da atual Espanha. E Cristovam Colombo, a soldo espanhol, aportara nas praias da América.

Nesta época, ruía a idéia de um império universal, unindo todos os povos cristãos, e crescia a noção do imperialismo de nações hegemônicas. Existia, então, o imperialismo continental e oceânico. O oceânico era o cenário predileto da disputa entre Portugal e Espanha e, no segundo pelotão, França e Inglaterra. O imperialismo continental, antes tratado à boca dos canhões, agora era determinado por casamentos régios, mas as mortes prematuras desequilibravam o jogo constantemente. Nos cinco anos anteriores à viagem de Cabral, a geografia européia estava em ebulição devido ao ímpeto imperialista: Carlos VIII, rei da França, conquista Nápoles e é derrubado em seguida. O rei João, da Dinamarca, invade a Suécia e se une à Noruega. A Suíça desliga-se do Sacro Império, comandado pela Alemanha. Ivan III anexa Smolensk e Chernikov à Rússia.

Ao descobrir o rota para a Índia, Portugal estava atraindo para si o centro do mundo. Dom Manoel apressara a descoberta porque queria ir atrás ‘‘dos mares, terras, gentes e coisas delas’’, mas sobretudo para quebrar o monopólio árabe das especiarias orientais. Lisboa, com seu expansionismo, ameaçava a hegemonia comercial de Veneza, banhada pelo mar Adriático e porto privilegiado para quem trazia os cobiçados produtos do Oriente. Pela mesma razão, ameaçava Gênova, à beira do Mediterrâneo, e Alexandria. E, pela mesma razão, como uma Washington renascentista, virou centro da espionagem de espanhóis e italianos, que atulhavam a fervilhante Ribeira das Naus — o Cabo Canaveral do século XV.

A conquista de novas terras era movida pela economia e pela religião. Dinheiro e fé andavam tão juntos que se tornaram inseparáveis. Em 1453, Maomé II tomara Constantinopla, atual Istambul, na Turquia.Com as notícias de que avançava sobre o Mar Vermelho, então chamado de Mar Roxo, promoveu a fachada religiosa para o revide europeu. Era o ‘‘pesadelo turco’’ ao qual a Europa cristã tinha de se contrapor. Enquanto isso tudo se desdobrava, Cabral rumava para o Brasil. E Montezuma II, deste outro lado do mundo desconhecido, era serenamente ungido chefe dos astecas, no atual México. Até que os espanhóis chegassem para o extermínio final.

( * ) André Petry, da equipe do Correio






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