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BRASIL 500
ANOS: O SEXTO DIA DA VIAGEM
Perto das Canárias
A linhagem de Pedro Álvares Cabral, o comandante da
frota que agora se aproxima das ilhas Canárias, e quais eram os grandes
gênios do Renascimento
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| Cabral (1468/69?-1520)
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Sexta-feira, 13 de março de 1500. Pedro Álvares Cabral
calcula que a frota alcançará amanhã as ilhas Canárias, território espanhol
há cinco anos, desde 1495. Graças à providencial colaboração dos ventos,
a velocidade é boa, o rumo é sul-sudoeste. As previsões náuticas de
Cabral não resultam de longa experiência no mar. Cabral não é navegador,
é nobre. Aos 32 anos, conhece o oceano pelos livros. Antes de embarcar,
o comandante leu Imago Mundis, uma espécie de atlas. Devorou a brochura
Comosgraphia Pompononii cum figuris, de Pompônio Mella, onde assinou
seu nome na folha de rosto para assegurar que ninguém lhe roubaria o
tesouro. Também estudou os escritos de Abrão Zacuto, respeitado astrônomo
judeu que escreveu o Almanaque Perpétua em 1496, obra preciosa com tabelas
de medição do sol em todas as épocas do ano.
Consciente de suas limitações, Cabral não se satisfez
com a literatura náutica. Procurou navegadores famosos para ouvir sobre
os segredos do Mar Oceano. Falou com Vasco da Gama e obteve minuciosas
instruções escritas para a viagem. Na primeira folha de uma carta
sem data, Gama recomenda a Cabral cuidado para que os barcos não se
afastem uns dos outros. Explica a técnica de emitir sinais com fogos:
deve soltar um foguete e esperar que os comandantes das outras naus
respondam com dois fogos. Assim, saberá se a frota está completa.
Na carta, agora guardada num baú no camarote do comandante,
Gama aconselha que a esquadra não atraque no arquipélago de Cabo Verde
nem para pegar água. ‘‘Depois que em boa hora daqui (Lisboa) partirem,
façam seu caminho direto a Ilha de Santiago (no arquipélago do Cabo
Verde) e se ao tempo que ali chegarem tiverem água em bastança para
quatro meses não devem parar na dita ilha’’, escreveu. Vasco da Gama
teme o tempo. Sabe que Cabral precisa aproveitar as monções de verão
para atravessar da África para a Índia.
Além de bibliografia e conselhos, o comandante se espelha
num herói: Álvaro Gil, seu trisavô. Pedro ainda era um menino na pequena
cidade de Belmonte quando ouviu as primeiras histórias sobre o patriarca
medieval da linhagem dos Cabrais. Em 1385, Alvaro Gil participou da
Batalha de Aljubarrota contra os castelhanos durante a Revolução de
Avis. Pouco depois, na mesma batalha, defendeu o Castelo de Belmonte.
Por sua perfomance guerreira, conseguiu o posto vitalício e hereditário
de alcaide-mor do Castelo e recebeu o direito de mandar fabricar um
brasão para a família. Para símbolo, escolheu as cabras. Seus herdeiros
viraram Cabrais — e nobres.
O filho de Alvaro Gil, Luis Álvares Cabral, bisavô do
comandante, herdou do pai o gosto pelas armas. Lutou ao lado do infante
dom Henrique na batalha de Ceuta, em 1415, quando os portugueses expulsaram
os mouros da cidade no norte da África. Começava ali o périplo africano,
ou a expansão de Portugal para outros continentes. Em troca de seus
préstimos militares, Luis virou fiscal de finanças da Casa Real.
Fernão, avô do comandante, também serviu a dom Henrique,
o príncipe das navegações. Viajou numa das galés do infante para guerrear
no Marrocos. No caminho, contraiu a peste bubônica, doença que vitimou
milhares de pessoas na Europa no século XV, mas curou-se a tempo de
duelar contra os árabes. Seu desempenho no campo de batalha lhe rendeu
alguma linhas na posteridade. ‘‘Foi o primeiro europeu a matar um mouro
a cavalo nas terras de Ceuta’’, nas palavras de Gomes Zurara, biógrafo
do infante. Fernão, o guerreiro, teve um filho também Fernão, porém
mais apegado à farra que à farda.
Era ‘‘galanteador e troveiro, metedor d’alvoroços entre
as moças’’, conforme descreveu Garcia Rezende, no livro Cancioneiro
Geral, de 1472. Fernão, apelidado de Gigante da Beira, graças à sua
estatura, mais de 1,90 metro, casou com a endinheirada Isabel Gouveia.
Tiveram sete filhos. O segundo é Pedro, o comandante.
Cresceu como Pedralvares Gouveia. Aliás é com este nome
que o rei dom Manoel o nomeou para o comando desta esquadra. Só virará
Cabral em 1508, ano em que seu irmão João morrerá. Segundo a tradição
portuguesa apenas o primogênito leva o nome do pai. Também é o filho
mais velho quem recebe a maior fatia da herança dos pais. Do pai boêmio
e amante da vida na corte, Pedro Alvares Cabral repetiu apenas a altura.
Mais alto do que todos desta frota, o comandante nunca foi um cortesão
carreirista. Freqüenta o Palácio, mas não se mete em política. Quando
dom Manoel o escolheu para comandar a frota tinha apenas o título de
cavaleiro-fidalgo da Casa Real.
Uns dizem que, ao escolher Cabral, o rei desejava agradar
os nobres, outros discordam. Falam que os nobres já valem muito pouco
em Portugal e que na verdade, dom Manoel, de cabeça coroada e coração
mercantil, pensava na riqueza de Isabel de Casto, noiva de Pedro e neta
do rei de Castela.
( * ) Ana Beatriz Magno, da equipe do Correio
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