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BRASIL 500
ANOS: O MUNDO NA ÉPOCA
Tempo de gigantes
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| Pintura de Ticiano, de 1560: curvas
femininas, imagens com movimento e profundidade
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Quanto maior a sensibildiade, maior o martírio
— um grande martírio
Leonardo da Vinci
Cabral é do tempo dos gigantes. Viveu na época de Maquiavel,
Michelangelo, Lutero, Da Vinci, Copérnico. Nasceram sob o signo do Renascimento.
A humanidade floria. Recuperava valores da antiguidade clássica, trocava
verdades religiosas e dogmáticas da Idade Média pela incerteza libertária
do conhecimento. Graças ao polonês Nicolau Copérnico a Terra deixa de
ser o centro do Universo. Agora, o verbo é o saber, não mais o crer.
O indivídio ganha importância, come com talheres, divide a casa em cômodos,
lê mais. Nasce a imprensa. As universidades prosperam. O sucesso não
é mais reduto exclusivo dos nobres. Vale o talento.
Na pintura, os anjos ingênuos medievais ganham músculos
e sexo. As mulheres deixam de ser retratadas como musas cobertas de
roupas. Passam a exibir curvas, peitos, púbis. As figuras ganham profundidade
e movimento. Surge a perspectiva. O belo Leonardo da Vinci, loiro, cabelos
cacheados e olhos azuis, autor da Monalisa, não se contenta apenas em
pintar homens perfeitos. Nascido em 1452, numa aldeia próxima a Florença,
capital do Renascimento, Da Vinci quer conhecer a anatomia humana. Disseca
cadáveres, passa horas observando o caminhar dos florentinos. Da Vinci
traduz a pluralidade do Renascimento. Não se contenta com a arte. Faz
projetos urbanos para Milão e estuda engenharia militar. Desenha armas
futuristas, semelhantes aos atuais tanques de guerra.
Michelangelo (1474-1564) segue o exemplo Da Vinci. Se
aventura pela poesia e pela filosofia enquanto pinta com afrescos de
tirar o fôlego o teto da Capela Sistina, em Roma. Seu David tem olhos
humanos, não é opressivo, como os deuses góticos da Idade Média.
A fé é humanizada — o Renascimento é considerado o pai
do humanismo. Mas as autoridades religiosas estão cercadas de corrupção.
A Igreja vive sua maior crise. Alexandre VI, papa de 1492 a 1503, tem
amantes e filhos bastardos. Chega ao Vaticano pelo suborno e se orgulha
de dizer: ‘‘Deus deu-nos o papado, gozêmo-lo’’. Os pecados do clero
são tantos que geram o chamado Cisma da Igreja. Um frade de nome Martim
Lutero (1483-1546) se rebela e lidera a Reforma Protestante na Alemanha.
Nunca mais os cristãos andariam juntos.
Na política, os cenários também mudam. Sobem ao palco
o cidadão e a burguesia financeira. Todos os célebres citados acima
nasceram em famílias comuns, sem tradição de nobreza. Da Vinci foi rejeitado
pelo pai, um tabelião. Michelângelo era filho de um artesão. Lutero,
de um mineiro. Dos governantes passa se cobrar algum cuidado com o povo.
Nicolau Maquiavel (1469-1527) é o primeiro a traduzir a nova ética.
Em seu livro O Príncipe escreve: ‘‘Um príncipe tem que captar a vontade
coletiva, deve ter um espírito predisposto a se adaptar’’. O próprio
Maquiavel se adaptou.
Durante quatorze anos, serviu na administração pública
de Florença, mas em 1512 foi afastado pelo governo dos Médici. Escreveu
O Príncipe para tentar a recuperar a posição perdida. O Renascimento
dava aos homens essa liberdade: a de mudar seu destino. A Europa que
gerou Cabral e seus contemporâneos, não era apenas uma terra em que
se aprendia a navegar pelos oceanos. Navegava-se pelo homem.
( * ) Ana Beatriz Magno, da equipe do Correio
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