logo-correio.gif (3798 bytes) 500 Anos de Brasil

BRASIL 500 ANOS: O MUNDO NA ÉPOCA

Tempo de gigantes

 

Pintura de Ticiano, de 1560: curvas femininas, imagens com movimento e profundidade

  Quanto maior a sensibildiade, maior o martírio — um grande martírio
Leonardo da Vinci   

Cabral é do tempo dos gigantes. Viveu na época de Maquiavel, Michelangelo, Lutero, Da Vinci, Copérnico. Nasceram sob o signo do Renascimento. A humanidade floria. Recuperava valores da antiguidade clássica, trocava verdades religiosas e dogmáticas da Idade Média pela incerteza libertária do conhecimento. Graças ao polonês Nicolau Copérnico a Terra deixa de ser o centro do Universo. Agora, o verbo é o saber, não mais o crer. O indivídio ganha importância, come com talheres, divide a casa em cômodos, lê mais. Nasce a imprensa. As universidades prosperam. O sucesso não é mais reduto exclusivo dos nobres. Vale o talento.   

Na pintura, os anjos ingênuos medievais ganham músculos e sexo. As mulheres deixam de ser retratadas como musas cobertas de roupas. Passam a exibir curvas, peitos, púbis. As figuras ganham profundidade e movimento. Surge a perspectiva. O belo Leonardo da Vinci, loiro, cabelos cacheados e olhos azuis, autor da Monalisa, não se contenta apenas em pintar homens perfeitos. Nascido em 1452, numa aldeia próxima a Florença, capital do Renascimento, Da Vinci quer conhecer a anatomia humana. Disseca cadáveres, passa horas observando o caminhar dos florentinos. Da Vinci traduz a pluralidade do Renascimento. Não se contenta com a arte. Faz projetos urbanos para Milão e estuda engenharia militar. Desenha armas futuristas, semelhantes aos atuais tanques de guerra.   

Michelangelo (1474-1564) segue o exemplo Da Vinci. Se aventura pela poesia e pela filosofia enquanto pinta com afrescos de tirar o fôlego o teto da Capela Sistina, em Roma. Seu David tem olhos humanos, não é opressivo, como os deuses góticos da Idade Média.   

A fé é humanizada — o Renascimento é considerado o pai do humanismo. Mas as autoridades religiosas estão cercadas de corrupção. A Igreja vive sua maior crise. Alexandre VI, papa de 1492 a 1503, tem amantes e filhos bastardos. Chega ao Vaticano pelo suborno e se orgulha de dizer: ‘‘Deus deu-nos o papado, gozêmo-lo’’. Os pecados do clero são tantos que geram o chamado Cisma da Igreja. Um frade de nome Martim Lutero (1483-1546) se rebela e lidera a Reforma Protestante na Alemanha. Nunca mais os cristãos andariam juntos.   

Na política, os cenários também mudam. Sobem ao palco o cidadão e a burguesia financeira. Todos os célebres citados acima nasceram em famílias comuns, sem tradição de nobreza. Da Vinci foi rejeitado pelo pai, um tabelião. Michelângelo era filho de um artesão. Lutero, de um mineiro. Dos governantes passa se cobrar algum cuidado com o povo. Nicolau Maquiavel (1469-1527) é o primeiro a traduzir a nova ética. Em seu livro O Príncipe escreve: ‘‘Um príncipe tem que captar a vontade coletiva, deve ter um espírito predisposto a se adaptar’’. O próprio Maquiavel se adaptou.   

Durante quatorze anos, serviu na administração pública de Florença, mas em 1512 foi afastado pelo governo dos Médici. Escreveu O Príncipe para tentar a recuperar a posição perdida. O Renascimento dava aos homens essa liberdade: a de mudar seu destino. A Europa que gerou Cabral e seus contemporâneos, não era apenas uma terra em que se aprendia a navegar pelos oceanos. Navegava-se pelo homem.

( * ) Ana Beatriz Magno, da equipe do Correio






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