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BRASIL 500
ANOS: O SÉTIMO DIA DA VIAGEM
Depois da terra, as calmarias
Como Cabral previra, a frota passa pelas ilhas Canárias,
mas fica parada em meio às calmarias. Quais as fontes de energia disponíveis
ao homem do século XV
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| A Carroça de Feno,do pintor flamengo
Hieronymus Bosch (1450?-1516), retrata o mundo do trabalho: rodas
de madeira, a energia fundamental
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Sábado, 14 de março de 1500. As previsões de Pedro Álvares
Cabral estavam certas. Hoje, entre oito e nove horas da manhã, os marinheiros
viram a terra, o arquipélago das Canárias, no oeste da África, a mais
de 1500 quilômetros da Europa. A frota não atracou. As sete ilhas grandes
e outras pequenas ilhotas pertencem à Espanha. Foram conquistadas depois
de quase cem anos de disputas entre lusitanos e espanhóis. A luta começou
em 1404 e só terminou há cinco anos, em 1495, por intervenção do papa.
Dizem os historiadores que, ao inaugurar a Era das Navegações, no início
do século XV, o infante dom Henrique sonhava com a conquista lusa do
arquipélago. Sabia da importância estratégica das ilhas, porto de fácil
acesso para quem viaja na Carreira das Índias. O infante jamais conseguiu
realizar seu sonho. Cabral, agora, nem tentou. O máximo que fez foi
navegar bem próximo da costa.
Primeiro, os barcos se aproximaram da maior das ilhas,
a Grã-Canária. Depois, seguiram navegando, sempre ao lado da costa.
As Canárias são mais do que as primeiras terras no caminho. Pela primeira
vez, os viajantes encontram paisagens diferentes das européias. Há pinheiros
e palmeiras, castanheiras e cactos, regiões férteis e áridas. As florestas
tropicais convivem com desertos de pedras cinzas. Contam os espanhóis
que no interior das ilhas há crateras imensas com formas geométricas
perfeitas. Falam também de vulcões extintos e estranhas rochas avermelhadas.
‘‘Ali andamos por todo aquele dia, em calma, sempre
com as ilhas à vista, numa distância de três a quatro léguas’’, anotou
Pero Vaz de Caminha, na carta que mais tarde mandará ao rei dom Manoel.
O que Caminha chama de calma pode ser traduzido como lentidão. Até chegar
às Canárias, a frota não enfrentara calmarias. Hoje, enfrentou. No final
do dia, a velocidade média dos barcos caiu de 5,8 nós para 2 nós, cerca
de quatro quiômetros por hora. O ventos sumiram, as velas sequer vibraram.
Os tripulantes conheceram o desespero. Os padres benzeram
o mar liso. Pedro Álvares Cabral pediu que lhe trouxessem os mapas e
convocou Pero Escolar, piloto da Nau Capitânia, responsável pela singradura
da esquadra. Também chamou mestre João, o astrônomo e cirurgião, além
de Caminha e Aires Corrêa, o homem que dom Manoel nomeou para fundar
uma feitoria em Calecute, na Índia. O alto comando do barco se reuniu
para examinar as cartas náuticas. Já era noite, foi preciso que os meninos
grumetes acendessem e segurassem tochas para iluminar o encontro. Ao
redor da nau-capitânia, os outros 12 barcos mantinham os fogos acesos,
técnica aprendida por Cabral com Vasco da Gama para garantir a união
da esquadra. A reunião acabou sem que a calmaria terminasse. Frei Henrique
continuou a benzer as águas em latim. Cabral autorizou que todos fossem
dormir. Mas, antes do sono, o gajeiro deu o alarme. Chegou o vento.
E a velocidade.
( * ) Ana Beatriz Magno, da equipe do Correio
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