logo-correio.gif (3798 bytes) 500 Anos de Brasil

BRASIL 500 ANOS: O MUNDO NA ÉPOCA

A era em que a madeira valia como petróleo

 

    Para o homem de hoje, o que é o vento? Diante de gigantescas hidrelétricas e complexas usinas de energia atômica, quase nada. Mas no século XV criar uma caravela que, além de a favor do vento, também navegasse contra o vento, foi um feito memorável. Os barcos de então só não sabiam como navegar sem vento, pois a navegação a vapor só surgirá dois séculos mais tarde e fará então tudo, como que por magia, acelerar-se de forma admirável. No século XV, o vento era fundamental para navegar. Mas em terra firme a fonte de energia por excelência era a madeira, que assim permanecerá por quase 300 anos.   

Na virada do século XV para o XVI, a madeira tinha a mesma importância que terá o carvão no século XIX e o petróleo no século XX. Assim como hoje o homem não saberia viver sem o petróleo e derivados — de onde vêm o teclado do computador, os tubos de PVC, os sacos plásticos de leite, o estofamento dos automóveis —, o homem do Renascimento não existiria sem madeira. A lenha, uma vez queimada, gerava energia para cozinhar e aquecer as casas, para movimentar fundições e cervejarias, para produzir vidro, telha, tijolo. Além de seu uso energético, era a madeira que se usava para erguer as casas (mesmo as de pedra), construir carroças, caravelas, moinhos, arados.   

Naquela época, o homem dispunha, além de sua própria força e da queima da lenha, de apenas outras cinco fontes de energia: a dos animais domésticos, do vento, da água corrente, do carvão de madeira e do carvão de pedra. Depois da descoberta de que se podia transportar a madeira flutuando sobre os rios, pranchas e troncos carregados no Báltico e na Holanda passaram a chegar à farta a Lisboa e Sevilha, onde as florestas eram menos generosas e, por isso, a madeira para cozinhar às vezes custava mais do que aquilo que estava dentro da panela. As cidades, então, se aproximam dos rios, domam seu curso, para receber a madeira flutuante e também aproveitar as águas para girar seus moinhos. As cidades, de um modo geral, se tornam meio venezianas, instaladas à beira das águas.   

Os moinhos começam a se disseminar. Surgidos no campo, chegam às cidades, em especial às regiões mineiras. Eles movimentam os trituradores de minério, os foles das forjas, as pedras de amolar. São quase sempre moinhos de água, e não de vento, pois a água é menos manhosa que o vento, que ora sopra em outra direção, ora cessa de soprar. (Só a Holanda ficará como a pátria dos moinhos de vento. Explica-se: o país está situado na grande confluência de ventos permanentes que sopram do Atlântico ao Báltico.) Os moinhos irão se espalhar pelas cidades até se tornarem obsoletos pela Revolução Industrial.   

No mundo renascentista, os animais também desempenhavam um papel central tanto na economia quanto na guerra. Em 1513, um agrônomo espanhol diz num livro que os bois são melhores que as mulas para lavrar a terra, pois são mais econômicos e sulcam o solo mais profundamente. Na França, havia preferência pelo cavalo, esse antigo companheiro do homem que saiu do Egito, atravessou o Saara na época romana e espalhou-se pela Europa. Mas os cavalos valiam ouro. Eram tão caros que, em 1531, um dos Médici criou uma guarda de 2 mil cavaleiros em Florença, e essa tamanha extravagância custou-lhe a ruína.   

Com essas parcas fontes de energia, a Europa renascentista vinha obtendo um avanço paulatino de potência. Mas o mundo, de um modo geral, era lento. Até a China o era, embora fosse o país mais avançado e precoce, porque entrara num período de paralisia, até hoje pouco entendido pelos estudiosos. Mas o que mudava o mundo renascentista, e o que mudará o mundo depois e sempre, não é a água, a madeira, o vento, o carvão, o petróleo, a energia atômica: é a força do homem. Não a força física. Para essa, um cavalo vale por sete homens. Mas é a força criativa, a capacidade de multiplicar a potência de instrumentos, a inteligência, que hoje permitem à humanidade explorar petróleo no fundo do Mar Oceano que Cabral então navegava temendo encontrar monstros marinhos.

( * ) André Petry, da equipe do Correio






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