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BRASIL 500 ANOS: O OITAVO DIA DA VIAGEM

Com biscoitos do mar

O que os marinheiros comiam e bebiam nos treze barcos da frota de Cabral e como o mundo renascentista criou uma nova culinária e a etiqueta à mesa de refeições

Obra de Sandro Botticelli (1444-1510) mostra os convivas celebrando um grande banquete: o garfo tem para a culinária renascentista a mesma importância da perspectiva para a pintura da época

‘‘No mar não há vendas, nem boas pousadas nas terras dos inimigos, por isso cada um vá provido de sua casa’’
Padre Fernando Oliveira, 1506

Domingo, 15 de março de 1500. A calmaria de ontem acabou na madrugada de hoje, mas os ventos ainda deixam a desejar. Os marinheiros sabem que dias parados significam tédio, doença e fome.

Quem navega faz dieta. Nesta frota, como em todas as viagens marítimas européias, não há alimentos frescos. Jamais se come verduras ou legumes. As técnicas de armazenamento são precárias, a comida estraga com facilidade.

Vive-se mastigando biscoitos do mar. São bolachas duras e salgadas, guardadas em paióis pouco ou nada arejados. Cada tripulante tem direito a 400 gramas diárias dessa maçaroca assada nos fornos reais de Palhais e do Vale de Zebro, em Lisboa. Só entre 1505 e 1507, o Zebro fabricaria 300 toneladas de biscoito por ano. Significa um milhão de rações diárias produzidas apenas para abastecer a dispensa dos navios portugueses. Brincam os historiadores que estas intragáveis bolachas de farinha, de bolor fedorento e adoradas pelas baratas, são o motor da história das navegações.   

Há multidões de baratas na dispensa. Furam as arcas e pipas com tal ferocidade que por vezes derramam o vinho e a água, guardados em tonéis de madeira no porão. Quando escapam dos tonéis, os insetos são devorados pelas bactérias. A água apodrece. Os homens penam com a diarréia.   

Em cada barco todos, do grumete ao capitão, ganham porções idênticas da comida comum. Mas os comandantes podem levar uma dispensa própria, como veremos mais adiante. A ração básica inclui 15 quilos por mês de insuportável carne salgada, além de vinagre, azeite e cebola. Há também manteiga, farinha e uma pequena provisão de compotas de açúcar, ameixa seca, mel e passas para os doentes.   

O escorburto é a pior das doenças marítimas. Provocado pela carência de vitamina C, mata muitos marinheiros. Na dispensa desta frota não há uma única laranja nem um único limão. Em geral, os barcos europeus viajam sem qualquer carregamento de frutas cítricas. Aliás, sem fruta alguma. Não é hábito, na Europa, comer frutas frescas. Só secas. Tampouco é costume pescar durante a viagem. Os marinheiros acreditam que o alto-mar é vazio de peixe. Antes da partida, a frota se abasteceu de sardinha e bacalhau secos, o que é fatal para as narinas dos tripulantes.   

Nem a má alimentação iguala os homens do mar. Toda esquadra é uma pirâmide social flutuante. A rígida hierarquia se faz acompanhar de privilégios nutricionais para os que estão no topo. Os comandantes podem transportar galinhas e ovelhas para engordar suas refeições. Pedro Álvares Cabral trouxe apenas aves. Ficam em capoeiras, espécies de gaiolas no convés.   

Os comandantes, oficiais e religiosos estão autorizados a guardar sua comida em dispensas individuais. O restante da tripulação se contenta com as regras rígidas da sempre trancada dispensa coletiva.   

Os únicos que têm a chave são Cabral e Afonso Furtado, dispenseiro-chefe da frota. Furtado viaja na nau-capitânia e anota com minúcia de contador tudo o que se tira do depósito. Cada barco tem seu dispenseiro, mas todos devem satisfações a Furtado. A comida é objeto de tanta cobiça que soldados, marinheiros e oficiais têm dispenseiros diferentes. O que é deveras arriscado. Contam os tripulantes mais experientes que um dos motivos mais comuns dos motins a bordo é a descoberta de que os oficiais estão dando propina para seu dispenseiro em troca de rações maiores de carne e temperos.   

A comida é entregue crua. Diariamente, na hora de cozinhar, acendem-se pequenos fogareiros no convés. Há vários relatos de barcos que se incendiaram por causa dessa prática, principalmente quando o navio está regressando das Índias. Voltam carregados de especiarias, todas de fácil combustão.   

Ao que parece, o retorno consegue ser pior do que a ida. ‘‘Nas viagens de volta não se distribui senão biscoitos e água’’, escreveria poucos anos depois o holandês Jan de Lichoste, primeiro a pesquisar, em 1638, o cotidiano das gentes do mar.

( * ) Ana Beatriz Magno, da equipe do Correio






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