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BRASIL 500
ANOS: O MUNDO NA ÉPOCA
Revolução na mesa de jantar
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| Garfo
e faca com cabos de marfim, do século XVII: carregados no bolso
e exibidos como jóias |
Se a transformação de uma época pudesse
ser fracionada ao ponto de identificar as pequenas revoluções, uma das
menores partes em movimento na Renascença seria a mesa de jantar. Nesse
retângulo de madeira maciça (as mesas redondas estão confinadas às fábulas),
os hábitos mudaram intensamente, rompendo com a barbárie medieval e
escrevendo as primeiras linhas da etiqueta e gastronomia modernas. O
guardanapo, por exemplo, substitui as bordas das toalhas.
Na virada do século XV para o XVI, não havia distinção
entre faca de caça e de mesa. Todas eram pontiagudas e serviam para
espetar os pedaços de carne nas travessas. Conta-se que o cardeal Richelieu,
chocado ao ver um convidado usar a faca como palito, mandou arredondar
a ponta de todas. Até a Renascença, era incomum o uso de talheres. O
convite para um jantar, simples ou sofisticado, obrigava o convidado
a levar seus próprios talheres. Eram carregados no bolso e exibidos
como jóias.
O garfo é para a culinária o que a perspectiva é para
a pintura renascentista. Significa a sofisticação do cardápio, fim de
bizarras tradições gastronômicas. No início, tinha só dois dentes e
por isso apontado por alguns como instrumento demoníaco. O garfo substitui,
como protagonista das mesas, a colher, cujo reinado devia-se à preferência
medieval pelos ensopados.
Na Renascença, as receitas mudam. Desaparece a tendência
de mascarar os alimentos condimentando-os exageradamente, e o tempo
de cozimento, antes de até 24 horas, cai para que o sabor original da
comida aflore. O cardápio europeu aumenta, não só em função das explorações
ultramarinas, mas por que entram em cena plantas nativas até então pouco
cultivadas, como a alcachofra, o aspargo, o espinafre e a ervilha.
Mas é o descobrimento da América que ampliará o tesouro
proteico da Europa. Crendices sobre virtudes de alimentos do Novo Mundo
popularizam cereais, legumes e frutas. Em 1565, Felipe II enviou batata
americana ao papa Pio IV para combater reumatismo. O tomate das Américas
era considerado venenoso e perigoso, capaz de estimular a sensualidade.
Daí os franceses chamarem-no de pomme d’amour.
Além da batata e do tomate, os maias, astecas e incas
fornecerão à Europa várias espécies de feijão, abóbora, amendoim, pimentão,
cacau, baunilha, abacate e abacaxi. Mas, no confronto com o europeu,
o ameríndio perdeu sua tradição culinária. Os pré-colombianos, por exemplo,
não fritavam os alimentos e tampouco usavam fornos. Tudo era assado
ou grelhado. O mais direto descendente da cozinha ameríndia será o miole
poblano de guajolote (peru assado e servido com molho picante e cacau,
típico da região de Puebla, no México). O resto se perderá ou será absorvido
pela cozinha européia, que deve seu esplendor a duas espoliações: das
especiarias do Oriente e da agricultura da América.
( * ) Luiz Alberto Weber, da equipe do Correio
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