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BRASIL 500 ANOS: O NONO DIA DA VIAGEM

Baralhos jogados ao mar

Escondidos, os marinheiros divertem-se com cartas e irritam os padres a bordo, que consideram o carteado um pecado. Como era o lazer no Renascimento

A Alegre Companhia, do holandês Jan Steen (1625-1679), conhecido como o “pintor humorista”: comida, bebida, música e muito movimento

‘‘E qualquer pessoa que jogasse qualquer jogo (...) por desenfadamento, se fosse fidalgo pagaria vinte cruzados para a igreja da Misericórdia, e se fosse baixo seria açoitado ao pé do mastro.’’
Padre Marcos Nunes, 1591.

Segunda-feira, 16 de março de 1500. Nesta frota de 13 barcos. cheios de homens e vazios de mulheres, divertimento é coisa rara. A leitura de livros profanos e as blasfêmias estão proibidas. Só o xadrez de Pedro Álvares Cabral é permitido. Formalmente, os jogos de dados e cartas, tão comuns em Lisboa, também são ilegais a bordo. A Igreja diz que é pecado, mas os marinheiros, escondidos nos porões, ignoram a censura. Insistem no carteado. Argumentam que a velocidade da frota está baixa e que precisam de algum passatempo.   

Os mapas indicam que 800 léguas separam as Canárias, por onde a frota passou há dois dias, do arquipélago de Cabo Verde, a próxima terra à vista. Como os barcos estão navegando a menos de quatro nós, algo como oito quilômetros por hora, os pilotos não arriscam palpite sobre o dia do desembarque em Cabo Verde. A falta de previsão é terrível para os homens do mar. São consumidos pelo tédio. E jogam. E irritam os padres.

  Vestido de abafada batina negra de algodão, frei Henrique Soares de Coimbra, ‘‘chefe’’ dos quinze religiosos da nau-capitânia, costuma andar pelo convés, de breviário na mão, rezando em latim, e fiscalizando se há gente jogando. Ao flagrar os rebeldes, toma os naipes e os joga no mar.

  Convencidos de seu papel moralizador dentro dos navios, os padres juram que criaram alternativas para a tripulação não sucumbir ao marasmo. Os religiosos permitem teatro e música. Com uma condição: de que os temas sejam sacros. O frei Italiano Maffeo carregou um órgão para a nau-capitânia, volta e meia toca, mas os tripulantes detestam. Preferem os sons alegres da gaita de foles de Nicolau Coelho, comandante de uma das outras naus da esquadra.

  A onipresença do clero em assuntos internos das esquadras é favorecida pela ausência de uma legislação em Portugal que trate da vida dos marinheiros. Só em 26 de dezembro de 1591, portanto quase cem anos depois da primeira viagem de Vasco da Gama às Índias, os portugueses escreverão o regimento dos homens do mar. Até lá, a influência do clero nas viagens de colonização já será tão grande quanto perversa.

  A Igreja conseguirá, por exemplo, colocar no regimento um curioso sistema de controle para a jogatina: os marinheiros, estatisticamente os mais pobres da frota, seriam açoitados no mastro quando flagrados de cartas na mão. Já os fidalgos, mais endinheirados, não sofreriam com açoite, mas seriam obrigados a desembolsar vinte cruzados para a Misericórdia. A Fé Católica punirá, assim, um dos raros prazeres da entediante vida no mar e, principalmente, enriquecerá suas burras.

( * ) Ana Beatriz Magno, da equipe do Correio






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