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O mundo na
época
Os navegadores eram enxadristas
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Jogadores de Cartas, de Bartolomeo Manfredi (1580-1621)

Baile de Camponeses, obra de Pieter Brueghel, pintada
em 1568

Os venezianos passeiam na Praça São Marco, em obra
de Canaletto (1697-1768)

Detalhe da obra Mesa de jogo, de 1282
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Pedro Álvares Cabral, Américo
Vespúcio e Vasco da Gama tinham algo em comum, além do
gosto pelo mar e pela aventura: jogavam xadrez. O jogo era popular entre
os navegadores que deixaram a península Ibérica atrás
de um caminho novo para as Índias, 500 anos atrás.
Os movimentos das peças exigem raciocínio
de general. Ou de almirante, no caso. É preciso atacar e defender,
tentar antecipar as jogadas do inimigo. Enfim, o objetivo é fazer
com que o rei adversário se renda. Perfeito para essa mistura
de negociante e mercenário que eram os navegadores. E foi exatamente
na época dos descobrimentos que o xadrez, jogo originado na Índia
por volta do século V d.C., tomou sua forma atual.
O homem médio do Renascimento, aquele
com escasso acesso à cultura, ao poder ou à riqueza, se
divertia basicamente de três maneiras diferentes: na mesa de uma
taberna, bebendo; na mesa da sala de estar, ouvindo histórias;
e em uma mesa qualquer, jogando.
Jogos de azar destruíam ou erguiam
reputações e fortunas. Carteado e dados eram os passatempos
preferidos dos oficiais palacianos com tarefas administrativas aborrecidas
e pouco a fazer. Em uma sociedade de enriquecimento demorado e distrações
monótonas, tentar a sorte e esperar o milagre da fortuna súbita
explicam a paixão pelos jogos de azar. O modelo era disseminado,
vinha de cima e encantava até as crianças, que apostavam
dinheiro. Nem que fosse preciso furtá-lo dos pais.
Quem perdia, porém, não precisava
necessariamente pagar em dinheiro. O perdedor oferecia serviços,
franqueava a colheita em seu pomar, em sua vinha, em seu jardim. Devia
favores.
Historiadores que preferem examinar os fatos
à luz do cotidiano de seus personagens associam o sucesso dos
jogos de azar e de salão entre a Idade Média e o Renascimento
aos longos invernos europeus. O xadrez e o gamão o mesmo
gamão que conhecemos ocupavam lugar de destaque nas mesas,
ao lado dos dados e do carteado, principalmente um jogo chamado lansquenê,
popular quando os marinheiros de Cabral avistaram o Monte Pascoal.
Se, para os jovens, divertimento era jogar,
embriagar-se em uma taberna, derrubar garrafas e copos no chão
e abraçar à força moças de classe baixa,
para as famílias o passatempo era outro: ouvir histórias.
Quando a esquadra de Cabral deixou Belém, nos arredores de Lisboa,
a impressão com tipos móveis criada por Johannes Gutemberg
já tinha 60 anos. Livros, divididos em comédias, pastorais
e romances, eram disseminados. Pouca gente sabia ler e escrever, por
isso as histórias eram contadas, geralmente para grupos de dez
pessoas.
Isso acontecia nas feiras e nas casas. No
caso, a literatura era um elemento essencial para a sociabilidade e
um propagador de cultura, não mais a cultura falada em latim,
mas em italiano, em espanhol, as línguas que as pessoas entendiam.
O hábito era tão disseminado que o livro espanhol La Celestina,
editado em Toledo em 1500, tinha um capítulo dedicado a ensinar
como ler a história em voz alta, como empostar a voz, que tom
usar e em que partes da trama o efeito seria melhor.
Ouvir histórias era o passatempo
das famílias de todas as classes sociais. Crianças ricas
eram criadas com pajens da sua idade. Além de servir a seus pequenos
senhores, esses pajens tinham que distraí-los contando histórias.
Cem anos depois, a tradição persistiria e um criado alfabetizado
passou a ser devidamente valorizado pela capacidade de emocionar lendo
um livro em voz alta.
Entre o povão, a mesma coisa. Por
volta de 1500, formavam-se auditórios populares para ouvir a
leitura em voz alta de vários escritos, sobretudo novelas de
cavalaria, as preferidas da maioria da população. Ocupavam
o lugar comparável ao das telenovelas do Brasil de hoje. Dom
Quixote, do espanhol Miguel de Cervantes, enlouqueceu lendo as histórias
de cavaleiros que salvavam donzelas das garras de dragões e bruxos.
Na época, as aventuras dos navegadores ainda não tinham
merecido lugar no enredo de novelas populares.
(*) Antonio Vital, da equipe do Correio
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