| 15 de fevereiro de 1998 | |
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| Ana
Beatriz Magno e Raimundo Paccó (fotos) Da equipe do Correio |
Passado esquecido |
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do porto de São Vicente há duas ilhas grandes habitadas de índios... Na ilha ocidental
têm os os portugueses um povoado chamado São Vicente, de dez ou doze casas, uma feita de
pedra com seus telhados, e uma torre para defesa contra os índios em tempo de
necessidade. Estão providos de coisas da terra, de galinhas e porcos de Espanha e com
muita abundância, e hortaliça" Diego
Garcia, navegador espanhol que passou por São Vicente em 1527
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São Vicente correu atrás do
futuro e esqueceu o passado. Carrega o título de primeira vila organizada no Brasil dos
tempos coloniais. Hoje, está cheia de prédios e vazia de memória. Não lhe falta
história. Espremida entre a poluição do porto de Santos e a fumaça das indústrias de
Cubatão, São Vicente, no litoral paulista, tem quase a idade do país. Seu nome já
aparecia nos mapas dos navegadores europeus em 1502. Agora, não há preservada uma só construção do século XVI. O único museu sobrevive entre goteiras e mato. O município, de 300 mil habitantes, entrou na modernidade tentando seguir o exemplo de seus vizinhos. Não conseguiu. As indústrias fracassaram, não há porto. A agricultura é de bananas. Nem sempre foi assim. Quando a metrópole Lisboa repartiu as terras brasileiras em capitanias hereditárias e inaugurou a economia da colônia, foi São Vicente que deu a largada para o ciclo da cana-de-açúcar. Criou três filhos importantes, um deles polêmico: a democracia tupiniquim, a escravidão e a cidade de São Paulo. De lá, 13 jesuítas saíram para fundar São Paulo, em 1554. Também foi ali que os portugueses construíram a primeira Câmara dos Deputados das Américas. Ao lado, fizeram um pelourinho — amontoado de pedras para açoitar índios escravos. A São Vicente pioneira virou uma cidade que sofre com problemas modernos. A rede de esgotos ainda não chegou para 58% dos moradores. A maioria das casas fica na fatia insular do município, uma ilha cercada de 14 favelas — pelo menos 50 mil pessoas vivem nelas. Equilibram-se em palafitas. Para a classe média, o problema está nas praias de areias lotadas no verão e águas castigadas pela poluição do porto santista. De bom, existem os pacatos vicentinos, gente de cor misturada, herança da colonização — ali, portugueses, índios e negros começaram a virar brasileiros. Com São Vicente, o Correio Braziliense publica hoje o segundo capítulo da série de reportagens sobre os 500 anos do Descobrimento — o primeiro mostrou Cabrália, na Bahia, onde Pedro Álvares Cabral desembarcou. Em comum, as duas cidades revelam um país de costas para o passado. Oscila entre desprezá-lo e inventá-lo — São Vicente data, nos registros oficiais, de 22 de janeiro de 1532, quando Martim Afonso de Souza desembarcou por lá como donatário do território. Três décadas antes, no entanto, um bacharel de nome Cosme Fernandes, português e judeu degredado pela metrópole, era largado ali pela esquadra de Américo Vespúcio. Construiu 12 casas, um forte e um estaleiro. Traficou escravos e criou galinhas. Não ganhou nem nome de rua.
Martim Afonso e Cosme Fernandes não passam de ilustres desconhecidos para Sérgio de Oliveira, 23 anos, nascido e criado nas palafitas vicentinas. Não sabe nada do passado de sua terra, mas tem decorado o preço de um cigarro de maconha, R$ 5, de uma pedra de crack, R$ 5, e de sete carreiras de cocaína, R$ 10. São valores diurnos. De noite, a droga é mais cara nas esquinas do bairro de Sérgio, favela México 70, a maior do município — ganhou este nome por conta da tri-campeonato mundial de futebol. ‘‘Não existe favela sem droga’’, resume o rapaz, que vende cachaça como água num boteco. Sobrevive de fiado — só em janeiro foram R$ 500 em compras sem pagamento. Confia nos clientes. ‘‘Aqui o máximo que entra é malandro. Malandro rouba de rico, safado rouba de pobre’’, ensina ao lado do pupilo Eduardo, menino de 5 anos. O tóxico chega em São Vicente pelo porto de Santos. De lá, os vicentinos também importam a Aids. A pacata primeira cidade brasileira está em 13º lugar no ranking nacional de pessoas contaminadas pelo HIV. ‘‘Santos exporta para nós tudo que o porto tem de ruim: tráfico, Aids e poluição’’, lamenta o prefeito Márcio França. É. Nos 146 km quadrados de terras e águas vicentinas, há um shopping, um hospital, um cinema e o prefeito socialista Márcio, 33 anos, homem do PSB que aprendeu cedo a fazer política de alianças. Chegou à prefeitura com apoio de oito partidos. Juntou o PPB de Paulo Maluf com o PSDB de Mário Covas, tradicionais inimigos na capital paulista. Só o PT lhe faz oposição, mas não chega a atrapalhar: existem apenas dois vereadores petistas. SHOPPING E INFIDELIDADE Para governar, o prefeito usa a máxima: ‘‘quem está convencido, convence’’. Vale para tudo, inclusive para mudar o passado. Sócio militante da maçonaria local, uma das poderosas instituições vicentinas, Márcio França descobriu que o currículo de São Vicente pode lhe render marketing e dividendos. Planeja mega-investimentos — de até R$ 150 milhões — que reproduzam a antiga São Vicente. São shoppings comerciais e culturais e nenhuma fidelidade à história. Um exemplo: está fazendo um centro cultural numa casa datada do século XIX e que ganhou da prefeitura nome e placa de residência de Martim Afonso de Souza, o português que passou por ali em 1532. ‘‘Se ele não morou ali. A gente faz de conta que morou’’, diz o prefeito, que comanda a única cidade do país que tem em seu brasão a expressão ‘‘cellula mater da nacionalidade’’. O hábito de reinventar a história convive com o abandono do pouco de passado que sobrou na cidade. O Porto das Naus, onde os portugueses desembarcaram no século XVI, se resume hoje a uma pilha de pedras cercadas de lixo. Carece de placas explicativas. Se existissem, diriam que ali funcionou o primeiro estaleiro da colônia — faziam ‘‘bergantins’’, embarcações velozes com dois mastros e remos. Também era o lugar onde os navegadores contratavam os ‘‘Língua da Terra’’ — intérpretes — entre brancos e índios. Além do porto, o que restou do século XVI é um pedaço de parede da primeira fortaleza brasileira, erguida por Cosme Fernandes para a defesa dos ataques indígenas. Era a Casa de Pedra. Hoje, está esquecida num estacionamento privado de nome Tomy Park. O dono pintou as pedras de branco. ‘‘Gostei da cidade, mas acho que poderia ter mais informação sobre a Colonização. Bons são os bares’’, reclamou Marcelo Buarque, professor gaúcho e um dos 900 mil turistas que visitam São Vicente no verão quente — tão quente que os policiais militares trabalham de bermudas. UMA TERRA DE MUITOS SÓIS A maioria dos veranistas fica em apartamentos de temporada — o melhor hotel é um duas estrelas que nos dias de semana funciona como motel. No verão, o clima ajuda os vicentinos: ‘‘é uma terra de muitos sóis’’, escreveu José de Anchieta, o famoso jesuíta português que saiu de São Vicente, atravessou 77 quilômetros de Serra do Mar para criar São Paulo. Antes fez, em São Vicente, o segundo colégio de Jesuítas do Brasil — o primeiro foi na Bahia. Não há mais nem ruínas dele. ‘‘Nem sabia desse
Colégio’’, admite Luciane Orlando, 15 anos. Em janeiro, ela ganhou o concurso
da Secretaria de Cultura sobre a história vicentina. Fez uma redação rigorosamente bem
escrita mas com muitas gafes históricas. O prêmio, uma viagem à Porto Seguro.
‘‘Não foi lá que Cabral chegou ?’’, pergunta a menina. Não, foi em
Santa Cruz de Cabrália. |
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Sapato desenhado por Fernando Peres, retrato do que há de mais moderno em São Vicente. Fernando calça os pés de Madonna, Cláudia Raia e Marília Pera. São sapatos que não tem nada de convencional - nem o preço: o mais barato custa R$ 150,00.
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Luciane Orlando, a menina de 15 anos que faturou o concurso da Secretaria de Cultura sobre a história vicentina. Estuda em escola pública e sonha em ser jornalista. De prêmio, ganhou da prefeitura uma viagem a Porto Seguro - Elas e os organizadores da prova acham que lá Cabral descobriu o Brasil (foi em Cabrália)
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A biquinha: o principal ponto turístico de São Vicente é uma fonte de água natural, cercada de um painel de azulejos. Mostra José da Anchieta, o jesuíta, catequisando índios. Nesta mesma fonte, os navegadores abasteciam de água doce suas naus no século XVI
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Prefeito Mércio França: o jovem administrador da cidade descobriu que pode atrair turistas e investimentos se transformar o município numa meca cultural. Para isso, não se intimida em reiventar a História. |
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