22 de março de 1998 |
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![]() Ana Beatriz Magno O Rio de Janeiro nasceu francês. Entre 1555 e 1560, sete anos antes de os portugueses fundarem a cidade maravilhosa, os franceses montaram uma colônia numa ilhota da Baía de Guanabara. Batizaram o lugar de França Antártica e criaram um dos pedaços mais interessantes e esquecidos do Brasil colonial. A história dessa minúscula ilha, hoje sede da Escola Naval, é o terceiro capítulo da série 500 anos do Descobrimento, publicada pelo Correio Braziliense desde janeiro. A meu senhor, monsenhor Duque de Guise, Par de França
Monsenhor, Deus, por sua graça, favoreceu tanto nossos trabalhos que terminei minha fortaleza, e a pus num estado tal que não penso ter visto uma outra tão fácil de guardar. Desse modo, posso colocar em terra sessenta pessoas em um forte de madeira que fiz à vista de meu castelo, ao alcance de minha artilharia, onde eles se empenham em plantar e semear para viver de sua colheita. Recolhi uma quarentena de escravos de uma aldeia de nossos inimigos que venci. Mandei rever todas as nossas fronteiras, desde a partida de nossos navios, e mandei saber o que desejam fazer os amigos de nossos vizinhos. Tive muito boa resposta. Eles me prometeram rebelarem-se e expulsá-los quando eu desejar. Nossos selvagens formam um exército de mais de três mil homens para ir vingar o prejuízo que aqueles nossos vizinhos nos causaram no ano passado. Enviei um navio muito bem preparado para costear todo nosso país até 36 graus, aproximando de nosso pólo, onde soube que os castelhanos vêm por terra, do Peru, procurar metais. Espero enviar-vos notícias pelo primeiro de nossos navios. Eu vos suplico, Monsenhor, intercedei por mim junto ao rei, a fim de que ele não me abandone, mas que lhe seja agradável vir em meu socorro, com algum dinheiro, para ajudar a trazer de volta meus navios, e espero não decepcioná-lo de maneira que ele não se arrependerá de me ter ajudado.
Suplico ao Criador, Monsenhor, dar-vos, em uma muito feliz e longa vida, a realização de vossos nobres desejos. De nossa fortaleza de Coligny, na ...
Nicolau Durand de Villegaignon era um almirante aflito no meio da baía de Guanabara naquele 30 de novembro de 1557, ao escrever em francês arcaico as 25 linhas da carta acima. Temia pelo destino da França Antártica, nome da colônia e base militar francesa que criara há dois anos na baía. Ficava na minúscula ilha de Itamoguaia, próximo da barra de acesso ao mar alto, aos pés do Pão de Açúcar. Na ilhota de 100 léguas ou 30 mil metros quadrados, Villegaignon aportara em 10 de novembro de 1555 com duas naus, 140 homens, nenhuma mulher e um sonho: criar uma extensão tropical da França na Guanabara, seio do mar , na língua dos tamoios, indios moradores dali. Conseguiu. Os franceses, a maioria prisioneiros arrebanhados nas masmorras de Paris, se aliaram aos nativos. Juntos, construíram 19 casinhas de sapê com telhados de palha e duas pequenas fortalezas sobre os dois únicos montes de pedra da ilha. Passados 443 anos, nada disso existe mais. A aventura francesa é apenas uma lembrança guardada no nome da ilha Villegaignon e na função do lugar. O que era base militar da França virou quartel brasileiro, a Escola Naval, academia de formação dos oficiais da Marinha do Brasil. É a universidade dos marinheiros. Onde navegadores e degredados franceses quiseram inventar a França Antárctica, vivem 689 jovens com idade entre 16 e 24 anos, sob um regime de rígida disciplina militar e excelência acadêmica. Uso de drogas, homossexualismo e cola nas provas são pecados punidos com a expulsão. Quem não tiver média acima de cinco é reprovado. Tentamos fazer uma academia seguindo as mudanças do mundo, mas respeitando os valores da disciplina e hierarquia , explica Ivan Areas, almirante e comandante da Escola Naval. A regra é: não pode nada, ironiza Areas, uma espécie de Villegaignon do fim do milênio. O do século XVI era mais linha-dura do que o atual. Vice-almirante da Bretanha e com um currículo de guerreiro vitorioso, Villegaignon era tão amado pelos índios quanto temido pelos seus compatriotas. Europeu que se relacionasse com índias era obrigado a se casar. O rigor militar de Villegaignon foi o começo do fracasso de sua aventura. Mas às privações materiais e morais, somou-se uma complicada querela religiosa. Em março de 1557, três navios franceses entravam nas águas da baía de Guanabara, com 120 huguenotes . os protestantes franceses. Junto, vieram cinco mulheres, cuidadas por uma governanta solteirona. As moças logo se uniram aos colonos nos primeiros matrimônios de brancos em terra brasileira. Os protestantes entram em conflito com o católico Villegaignon e transformam a pequena ilha numa réplica de Paris que, na época, amargava as guerras religiosas da Reforma. Villegaignon, cavaleiro da católica ordem da Cruz de Malta, se irrita com os huguenotes. Em 1559, o almirante decidiu retornar à França em busca de apoio. Deixou seu sobrinho, Bois Le Comte, como comandante. Tarde demais. O fim Em 1560, Mem de Sá, governador geral do Brasil, decidiu pôr fim à França Antártica. Em 15 de março, atacou a ilha e, em dois dias, expulsou os franceses. Alguns fugiram para o continente, se misturaram aos índios e resistiram até 1567, quando a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro foi fundada por Estácio de Sá, depois de batalhas contra os tamoios. De herança, Villegaignon deixou um dos episódios mais interessantes e esquecidos do Brasil colonial. Há pouca documentação e são raros os historiadores que se dedicam ao tema na biblioteca da Universidade de Brasília existe apenas um livro sobre Villegaignon. Os estudantes da Escola Naval tampouco conhecem razoavelmente a história da ilha onde vivem. O século XVI é o mais importante para entender a estrutura do Brasil de hoje e o mais deprezado pela historiografia, lamenta João Fragoso, historiador e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). A seguir, um pouco das duas aventuras passadas num mesmo lugar, com quatro séculos e meio de diferença: a de inventar uma França tropical e a de passar a juventude num quartel. |
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