Há 28 anos, Marco Augusto Loures veio para Brasília
com a família, direto de Juiz de Fora (MG). O pai, Geraldo, vinha trabalhar
na sede da Empresa de Correios e Telégrafos, e trouxe a mulher, Jacyra,
com os seis filhos. Uma história comum, muito parecida com a da maioria
das pessoas que povoaram a capital federal no começo dos tempos. Marco
Augusto agora teria que se adaptar e procurar o que fazer aqui.
Era 11 de fevereiro de 1975. ‘‘Não esqueço a data
porque foi um choque danado. Tinha 13 anos, uma vida em Juiz de Fora
e fiquei meio perdido aqui’’, conta Marco, que agora trabalha na Telebrasília.
No começo, a 712 Norte, para onde mudou, só tinha algumas casas e dois
prédios. Havia espaço suficiente para Marco, os irmãos e amigos jogarem
bola sem se preocupar com trânsito. Assim ele foi se acostumando. Na
adolescência, o mineiro-brasiliense já estava totalmente à vontade.
Freqüentava o Gilberto Salomão, o Beirute, festinhas e clubes.
‘‘(Brasília) É boa se você tem um projeto de vida,
se gosta de fazer exercício, de acordar cedo. Mas se você é uma pessoa
notívaga, é o tédio’’, já disse um especialista em Brasília, Renato
Russo, líder da banda brasiliense Legião Urbana, morto em 1996. Talvez
ele estivesse exagerando. Ainda mais porque hoje os bares e boates espalham-se
pela cidade como pragas (para alguns). Só no ano passado foram inauguradas
26 casas noturnas, segundo a Administração de Brasília. ‘‘O mais surpreendente
são as filas. A noite de Brasília virou um sucesso’’, elogia Emivaldo
Silva, chefe da Comunicação Social da Administração.
Para Bárbara Watrin, 22 anos, estudante de psicologia
da Universidade de Brasília, existem opções, mas elas são caras. Segundo
ela, que sai para a noite uma média de cinco vezes por semana, o problema
existe em qualquer lugar no Brasil. ‘‘Se você sai muito, acaba repetindo
os lugares, mas é assim em qualquer lugar’’, explica.
Bárbara fez uma pesquisa para o seu curso sobre
qualidade de vida na cidade, com 290 jovens de 14 a 18 anos. A maior
preocupação, segundo a pesquisa, era o lazer. Eles reclamaram muito
das poucas oportunidades que tinham para sair à noite. Mas há o fato
de eles não poderem entrar em boates, por causa da idade, e não terem
carro para sair. ‘‘Falaram muito bem dos shoppings, porque é onde eles
podem ir’’, diz a estudante. Ela própria era uma adepta de uma das diversões
mais comuns para os jovens brasilienses. ‘‘Ia muito para os shoppings,
com minha jaqueta jeans e meus amigos, para passar a tarde lá’’, lembra.
‘‘Shopping é o que Brasília mais tem.’’
AR LIVRE
Se para o notívago as opções ainda estão melhorando,
para quem gosta de exercício e acordar cedo, sempre foi bom. Brasília
pode não dar tempo para seus cidadãos, mas espaço é o que não falta.
E é exatamente uma das principais características da cidade. Afinal,
quem tem um lugar que possui um parque com uma área de 4,2 milhões de
metros quadrados, onde se encontraram os personagens Eduardo e Mônica,
de Renato Russo, não pode reclamar de falta de espaço. Diariamente,
freqüentam o local uma média de 3 mil pessoas. No final de semana esse
número chega a 50 mil.
‘‘Ultimamente tem ficado difícil por causa do trânsito,
mas comparado a outras cidades, Brasília possui áreas amplas para o
lazer’’, opina Luís Henrique Palma, 41 anos. Kiko, como é conhecido,
chegou na cidade aos 2 anos de idade, vindo de São Paulo. Longe do litoral,
ele e os brasilienses descobriram uma diversão típica da capital: os
clubes. São 36, no total, que desde o começo da cidade fizeram a festa
dos sem-praia.
Kiko freqüenta até hoje o Iate Clube, um dos mais
tradicionais da cidade. Além das piscinas, a maioria fica à beira do
Lago Paranoá, outro ponto de diversão. Claro que nadar no Lago já não
é tão seguro hoje, por causa da poluição e do risco de afogamento. Mas
esportes como remo, canoagem, vela, pesca e jet ski são praticados por,
pelo menos, 1.200 pessoas todo final de semana, fora aquelas que vão
para os clubes à beira do Lago.
Empregado do Fundo de Pensão da Caixa Econômica
Federal, Kiko mora na Asa Norte, por um motivo especial. Fica mais perto
da Água Mineral. ‘‘É outra das minhas paixões’’, observa, elogiando
a área de 32,8 mil hectares do Parque Nacional de Brasília, uma das
maiores reservas ecológicas dentro de um espaço urbano no mundo. Apesar
de mal-cuidado e com suspeita de contaminação, é ainda uma das diversões
mais comuns entre os brasilienses, por ser barata (apenas R$ 3,00) e
ter piscinas e a famosa Trilha da Capivara. Cerca de 8 mil pessoas freqüentam
a Água Mineral todo final de semana.
CHÁCARAS
Quem quiser uma área mais afastada, também tem.
Só de hotéis-fazenda, são pelo menos nove próximos a Brasília. Mas uma
das diversões preferidas dos brasilienses são as chácaras, sítios e
fazendas. Marco Augusto, o mineiro que veio para cá menino, é um dos
adeptos desse tipo de lazer. A família tem uma chácara a 60 km de Brasília.
Uma areazinha fora da cidade, boa para se esquecer da correria do dia-a-dia
e se reunir com a família. ‘‘Compramos em 1984, porque minha mãe gostava
muito de pescar. Depois virou uma área de lazer e hoje juntamos todo
mundo da família por lá’’, diz Marco.
Mas nem sempre o que os brasilienses fazem com seu
tempo livre significa agitos da noite ou caminhadas perto da natureza.
Tem gente que visita presos na Papuda, faz trabalhos sociais ou aproveita
as horas que sobram para cuidar do espírito. Letícia Morum, 25 anos,
moradora da 713 Sul, é uma delas. Professora de educação física e personal
trainner, a brasiliense tem toda uma vida profissional estruturada.
Longe do trabalho, ela só quer saber da Igreja.
Letícia faz parte, há 12 anos, do Movimento Escalada
de Brasília, um grupo católico da Arquidiocese existente na cidade desde
1975. Todo o tempo livre que a professora tem, ela dedica ao grupo religioso
e à evangelização de jovens. ‘‘A Igreja oferece festa, diversão e tudo
em um ambiente com Deus. E tudo o que faço por Deus me realiza’’, explica
Letícia, mais conhecida no Movimento com Let’s. Para ela, Brasília oferece
muito para seus cidadãos fazerem nas horas vagas, com relação a ajuda
ao próximo. ‘‘Conheço muitas pessoas que foram para fora e não encontraram
o espaço para grupos deste tipo’’, conta.
Programas noturnos, juvenis, religiosos, ecológicos,
econômicos. Brasília não é mais aquela, sem opções. O próprio Renato
Russo, que amava e odiava a cidade, sabia disso: ‘‘Muita gente reclama
que aqui não tem nada pra fazer, mas se você procura, você acha’’.