|
Prestes a completar 40 anos, Brasília se vê diante
da necessidade de encontrar caminhos próprios para financiar
os gastos públicos e garantir sua autonomia política.
A regulamentação do Fundo Constitucional do Distrito
Federal, que garantirá um percentual da arrecadação
da União para manter Brasília, representará
a solução financeira da capital?
Isoladamente, não, de acordo com a avaliação
de políticos, estudiosos e ténicos da área
financeira. A capital já percebeu que precisa deixar de
contar tanto com os recursos federais. Sua independência
passa pelo incentivo ao setor produtivo, principalmente industrialização.
Manter-se como cidade administrativa ou tornar-se um pólo
econômico? A solução é ser os dois.
Brasília está vivendo perigosamente.
Seu sustento não está devidamente amparado por lei.
Por isso, estamos lutando pela regulamentação do
Fundo, diz o deputado federal Paulo Octávio
(PFL).
A regulamentação deve ser enviada ao
Congresso nos próximos dias. A criação do
fundo foi estabelecida pela Constituição de 1988.
Assim o custeio de Educação e Saúde, que
hoje dependem de transferências da União, estaria
garantido por lei. Hoje somente o custeio da área de Segurança
da capital é obrigação constitucional da
União.
Existe ainda uma alternativa mais radical para a
capital resolver sua questão financeira: a renúncia
da autonomia política do Plano Piloto, incluindo os Lagos
Sul e Norte. A região voltaria a ser administrada pela
União, que garantiria assim seu sustento integral. É
o que defende o professor de Sociologia e diretor do departamento
de doutorado sobre América Latina, Benício Schmidt,
56 anos.
Ele argumenta que não é possível
manter autonomia política com dependência financeira,
Ser governador no Distrito Federal é uma ficção.
O Distrito Federal é da União e tem de ser gerido
por ela, reforça.
Mas o Fundo não é a única frente
de ação para a capital conquistar sua independência
financeira. Brasília tem um grande trunfo para aumentar
sua arrecadação própria de impostos por meio
do desenvolvimento econômico da região. O eixo Brasília-Goiânia,
que inclui a cidade de Anápolis, vai se transformar no
terceiro maior mercado consumidor do país dentro dos próximos
dez anos. A população dessa região, que hoje
é de 4,7 milhões de pessoas, vai chegar a 6,3 milhões.
A projeção é do Conselho Regional de Economia
que, em comemoração aos 40 anos de Brasília,
concluiu estudo que revela como será a cara da capital
aos 50 anos.
O modelo de cidade administrativa sustentada
pela União se esgotou. O que não significa que o
governo federal tem que deixar a cidade abandonada,
sustenta Júlio Miragaya, presidente do Sindicato dos Economistas
do Distrito Federal.
Por enquanto Brasília é uma balzaquiana
que ainda depende de mesada para pagar suas contas. Às
vésperas de completar 40 anos, esta senhora, que nasceu
poderosa e cresceu cheia de mimos, enfrenta um dilema: ainda busca
sua independência financeira. Durante muitos anos, não
teve com o que se preocupar para garantir o sustento. Mas agora
a realidade mudou. Os tempos de glamour são coisa do passado.
Hoje vive de pires na mão, a contar centavos para se manter.
Apontada e até criticada por ser uma ilha
da fantasia, Brasília enfrenta agora tempos de austeridade
e escassez de recursos. O estatus de ser a capital do país
não é mais suficiente para se manter. As mesadas
que recebe da União estão aquém das suas
necessidades. Mas sem elas entraria em estado de falência.
A metade do orçamento do governo do Distrito
Federal é bancada pela União. Cerca de 2/3 da folha
de pagamento dos 145 mil servidores locais são pagos pelo
governo federal. Os professores, médicos e policiais de
Brasília recebem seus salários da União.
A demanda pelos serviços públicos cresce
ano a ano. Somente o número de atendimentos nos hospitais
do DF quase dobrou de 1997 para 1999. Passou de 360 mil atendimentos
por mês para 670 mil. Entretanto, os repasses do governo
federal mantiveram-se no mesmo patamar nos quatro anos últimos
anos, ficando na ordem de R$ 1,9 bilhão por ano.
O governo federal precisa entender que
Brasília não é um problema apenas do governador
de Brasília. Nossa luta é para que a União
assuma integralmente o sustento das áreas da Saúde,
Segurança e Educação, diz o secretário
de Orçamento e Planejamento do DF, Leonel Paiva. A cada
ano aumenta a diferença entre o repasse da União
e o que é gasto nesses setores. A tendência é
a necessidade de aumentar os recursos e de se manter os repasses
congelados.
É preciso projetar tendências
para traçar os caminhos a seguir, principalmente aqueles
que vão garantir empregos e geração de renda,
defende Júlio Miragaya.
A Federação das Indústrias de
Brasília (Fibra) aposta nesta projeção e
já prepara o terreno para explorar o potencial do mercado
consumidor da capital. Dentro dos programas de governo,
é preciso investir nas políticas de incentivo à
industrialização, defende Lourival Dantas,
presidente da entidade. Ele também defende que a capital
só conquistará sua verdadeira autonomia buscando
recursos na iniciativa privada e não apenas junto à
União.
separação
Para o professor Schmidt, a industrialização
deve ocorrer fora do Plano Piloto. Para isso ele defende a separação
entre Distrito Federal e Brasília. Segundo o professor,
o Distrito Federal deve ficar restrito ao Plano Piloto. Restaria
a Brasília as outras 16 administrações regionais,
que se transformariam em municípios, formando outro estado.
Não haveria mais eleições no Plano, que teria
todos os seus serviços públicos sustentados pela
União.
Nunca ficou claro o que é Brasília
e o que é Distrito Federal. É preciso fazer essa
distinção por meio de emenda constitucional. O Plano
Piloto e as outras regiões administrativas têm realidades
e demandas muito diferentes, expõe Schmidt.
Ele aponta que a dependência econômica
provoca uma incômoda relação de subordinação
política. Politicamente a separação
entre Distrito Federal e Brasília seria traumática,
porque os partidos não querem perder fontes de voto. Mas
não dá para falar em autonomia política com
dependência financeira, diz o professor.
O ex-governador Cristovam Buarque (PT) se viu numa
posição bem desconfortável durante seu mandato,
quando teve de manter relações cordiais com o presidente
Fernando Henrique (PSDB). Todos os meses tinha de bater na porta
da União para pedir recursos. Passou por momentos difíceis
dentro do partido, que exigia uma postura de confronto.
Tinha de defender os interesses de todos
os brasilienses e não somente do meu partido. Mas nunca
abri mão da autonomia política. Dei aumento aos
professores e pagamos com recursos próprios,
lembra Cristovam. A União nunca aceitou cobrir a diferença
por não ter sido consultada sobre o reajuste, o que aumentou
ainda mais as dificuldades financeiras do GDF.
Os repasses não podem ser encarados
como um favor da União. Todas as capitais federais recebem
subsídios para se sustentar. Brasília presta serviço
à União, argumenta o ex-governador.
Por isso, Cristovam também defende a regulamentação
do Fundo Constitucional como a saída para as finanças
do DF.
|