FALTAM 18 DIAS PARA BRASÍLIA COMPLETAR 40 ANOS
 

Se não fosse Toniquinho...

 
Aos 74 anos, Antônio Soares Neto relembra a pergunta que fez JK construir Brasília
 
 

Toniquinho — O senhor mudará a capital do país para o Planalto Central, como está previsto nas Disposições Transitórias da Constituição?

JK — Acabo de prometer que cumprirei, na íntegra, a Constituição e não vejo razão para que esse dispositivo seja ignorado. Se for eleito, construirei a nova capital e farei a mudança da sede do governo.

Conceição Freitas
Da equipe do Correio

Tudo começou com uma chuva inesperada, numa segunda-feira que amanheceu cheia de sol e mudou a rotina de Jataí, cidade do sudoeste goiano. Era 4 de abril do já distante 1955, feriado municipal, decretado por um orgulhoso prefeito que receberia às 10h, pela primeira vez na história da cidade, um candidato à Presidência da República. Não era fácil ao jataiense entender por que o então governador de Minas Gerais, Juscelino Kubitschek, decidira começar sua campanha presidencial por uma modesta cidade de 10 mil habitantes.

  Jataí chegou em boa hora às ambições eleitorais de JK. O generalato já tinha deixado claro sua insatisfação com a candidatura do governador mineiro. Morto Getúlio Vargas, a UDN queria um candidato único às eleições. As Forças Armadas falavam em ‘‘colaboração interpartidária’’, mas o PSD tinha encontrado fôlego próprio. Para não desafiar as Forças Armadas, Juscelino começou a comer o mingau pelas bordas.

  Lembrou-se de um velho amigo e correligionário, Serafim de Carvalho, colega na Faculdade de Medicina de Belo Horizonte, que tinha pleno domínio dos cinco mil eleitores de Jataí (metade da população!). Dizia-se, à época, que ‘quando doutor Serafim tocava o berrante, o pessoal batia atrás’. Juscelino decidiu fazer o comício na cidade a 320 quilômetros de Goiânia.

  Jataí parou para receber Juscelino. Uma comitiva foi recepcioná-lo no aeroporto, os estudantes tinham sido convocados ao comício, o palanque estava pronto, o alto-falante anunciava a chegada do candidato e o povo aglomerava-se na Praça Tenente Omar Menezes, no centro da cidade. Inesperadamente, o tempo fechou e a chuva parecia dissolver os planos de JK, que pensara num comício com entusiasmo suficiente para que seus ecos chegassem ao Rio de Janeiro, sem no entanto soar como risco ao regime tão instável daqueles tempos.

  Decidiu-se, na correria das águas, que o comício seria transferido para um galpão de oficina mecânica ali perto. Para palanque foi eleita a carroceria de um velho caminhão à espera de conserto. O povo que ainda continuou na praça se espremeu no barracão de não mais de 100 metros quadrados. Deu-se início ao comício, Juscelino falou de sua candidatura, remeteu-se ao Sermão da Montanha, e repetiu seu compromisso com a Constituição e o respeito à ela — recado destinado aos desconfiados generais a 1,5 mil quilômetros dali.

  Disposto a ouvir o que o povo de uma cidade dedicada à plantação de arroz queria de um presidente eleito, JK abriu a palavra ao público. Deu-se um silêncio contrangedor, ninguém se manifestou. No gargarejo, bem na frente do candidato, estava um rapaz de 29 anos, funcionário de uma companhia de seguros, e parente dos caciques políticos da cidade. Num sopetão, lhe veio a pergunta que entrou para a história. Levantou o dedo e, de pronto, perguntou:

  — O senhor mudará a capital do país para o Planalto Central, como está previsto nas Disposições Transitórias da Constituição?

  Pego pelo contrapé, Juscelino olhou para um lado, outro para o outro, deu-se alguns segundos para pensar e finalmente respondeu:

  — Acabo de prometer que cumprirei, na íntegra, a Constituição e não vejo razão para que esse dispositivo seja ignorado. Se for eleito, construirei a nova capital e farei a mudança da sede do governo.

  Aplausos e mais aplausos daquele povo acostumado a ser esquecido pelos governos. O autor da pergunta, Antônio Soares Neto, o Toniquinho, se assustou com o repentino sucesso. Havia pouco anos, ele tinha estudado a Constituição para um curso de tabelião de cartório.
  
TONIQUINHO JK

  Amanhã, quando completam-se 45 anos daquela histórica segunda-feira, Toniquinho estará vivendo mais um dia de rotina. O homem de 74 anos vai acordar às 6h, como de hábito, fará sua caminhada de 10 km ao redor do Jardim Zoológico de Goiânia. Se neste dia for apresentado a alguém, exibirá o cartão de visitas: Toniquinho JK. E, se tiver chance, contará pela enésima vez o comício do longínquo 4 de abril e toda a vida, desde os primeiros fatos da infância, de um cidadão batizado Juscelino Kubitschek de Oliveira.

  Tamanha dedicação não lhe custou nada e nem lhe rendeu dividendos. ‘‘Nunca tirei partido político disso. Nunca pedi emprego a Juscelino nem ele também nunca me ofereceu’’, conta o advogado aposentado, que divide seus dias entre Goiânia, Jataí e um livro de memórias. ‘‘Aquela pergunta ficou inseparável da minha vida’’, diz. ‘‘Não foi inventada, não foi arranjada, foi uma coisa que aconteceu.’’

  E depois daquela pergunta de Toniquinho, a promessa da construção da nova capital tomou conta de Juscelino Kubitschek. Diz o presidente, em Por que construí Brasília: ‘‘A afirmação do comício em Jataí fora política até certo ponto. Até então, eu não me havia preocupado com o problema. Entretanto, a partir dali, e no desdobramento da jornada eleitoral — quando percorri o país inteiro — deixei-me empolgar pela idéia’’.

  Pouco depois, aos 30 itens do Plano de Metas de Juscelino — ‘‘50 anos em 5’’ — foi acrescentado o da construção da nova capital, que passou a denominar-se ‘‘meta-síntese’’ do governo JK. E, dali em diante, Juscelino tomou tanto gosto pela promessa que deu no que deu.

 


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