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Toniquinho O senhor mudará a capital
do país para o Planalto Central, como está previsto
nas Disposições Transitórias da Constituição?
JK Acabo de prometer que cumprirei, na íntegra,
a Constituição e não vejo razão para
que esse dispositivo seja ignorado. Se for eleito, construirei
a nova capital e farei a mudança da sede do governo.
Conceição Freitas
Da equipe do Correio
Tudo começou com uma chuva inesperada, numa segunda-feira
que amanheceu cheia de sol e mudou a rotina de Jataí, cidade
do sudoeste goiano. Era 4 de abril do já distante 1955,
feriado municipal, decretado por um orgulhoso prefeito que receberia
às 10h, pela primeira vez na história da cidade,
um candidato à Presidência da República. Não
era fácil ao jataiense entender por que o então
governador de Minas Gerais, Juscelino Kubitschek, decidira começar
sua campanha presidencial por uma modesta cidade de 10 mil habitantes.
Jataí chegou em boa hora às ambições
eleitorais de JK. O generalato já tinha deixado claro sua
insatisfação com a candidatura do governador mineiro.
Morto Getúlio Vargas, a UDN queria um candidato único
às eleições. As Forças Armadas falavam
em colaboração interpartidária,
mas o PSD tinha encontrado fôlego próprio. Para não
desafiar as Forças Armadas, Juscelino começou a
comer o mingau pelas bordas.
Lembrou-se de um velho amigo e correligionário,
Serafim de Carvalho, colega na Faculdade de Medicina de Belo Horizonte,
que tinha pleno domínio dos cinco mil eleitores de Jataí
(metade da população!). Dizia-se, à época,
que quando doutor Serafim tocava o berrante, o pessoal batia
atrás. Juscelino decidiu fazer o comício na
cidade a 320 quilômetros de Goiânia.
Jataí parou para receber Juscelino. Uma comitiva
foi recepcioná-lo no aeroporto, os estudantes tinham sido
convocados ao comício, o palanque estava pronto, o alto-falante
anunciava a chegada do candidato e o povo aglomerava-se na Praça
Tenente Omar Menezes, no centro da cidade. Inesperadamente, o
tempo fechou e a chuva parecia dissolver os planos de JK, que
pensara num comício com entusiasmo suficiente para que
seus ecos chegassem ao Rio de Janeiro, sem no entanto soar como
risco ao regime tão instável daqueles tempos.
Decidiu-se, na correria das águas, que o comício
seria transferido para um galpão de oficina mecânica
ali perto. Para palanque foi eleita a carroceria de um velho caminhão
à espera de conserto. O povo que ainda continuou na praça
se espremeu no barracão de não mais de 100 metros
quadrados. Deu-se início ao comício, Juscelino falou
de sua candidatura, remeteu-se ao Sermão da Montanha, e
repetiu seu compromisso com a Constituição e o respeito
à ela recado destinado aos desconfiados generais
a 1,5 mil quilômetros dali.
Disposto a ouvir o que o povo de uma cidade dedicada
à plantação de arroz queria de um presidente
eleito, JK abriu a palavra ao público. Deu-se um silêncio
contrangedor, ninguém se manifestou. No gargarejo, bem
na frente do candidato, estava um rapaz de 29 anos, funcionário
de uma companhia de seguros, e parente dos caciques políticos
da cidade. Num sopetão, lhe veio a pergunta que entrou
para a história. Levantou o dedo e, de pronto, perguntou:
O senhor mudará a capital do país
para o Planalto Central, como está previsto nas Disposições
Transitórias da Constituição?
Pego pelo contrapé, Juscelino olhou para um
lado, outro para o outro, deu-se alguns segundos para pensar e
finalmente respondeu:
Acabo de prometer que cumprirei, na íntegra,
a Constituição e não vejo razão para
que esse dispositivo seja ignorado. Se for eleito, construirei
a nova capital e farei a mudança da sede do governo.
Aplausos e mais aplausos daquele povo acostumado
a ser esquecido pelos governos. O autor da pergunta, Antônio
Soares Neto, o Toniquinho, se assustou com o repentino sucesso.
Havia pouco anos, ele tinha estudado a Constituição
para um curso de tabelião de cartório.
TONIQUINHO JK
Amanhã, quando completam-se 45 anos daquela
histórica segunda-feira, Toniquinho estará vivendo
mais um dia de rotina. O homem de 74 anos vai acordar às
6h, como de hábito, fará sua caminhada de 10 km
ao redor do Jardim Zoológico de Goiânia. Se neste
dia for apresentado a alguém, exibirá o cartão
de visitas: Toniquinho JK. E, se tiver chance, contará
pela enésima vez o comício do longínquo 4
de abril e toda a vida, desde os primeiros fatos da infância,
de um cidadão batizado Juscelino Kubitschek de Oliveira.
Tamanha dedicação não lhe custou
nada e nem lhe rendeu dividendos. Nunca tirei partido
político disso. Nunca pedi emprego a Juscelino nem ele
também nunca me ofereceu, conta o advogado
aposentado, que divide seus dias entre Goiânia, Jataí
e um livro de memórias. Aquela pergunta ficou
inseparável da minha vida, diz. Não
foi inventada, não foi arranjada, foi uma coisa que aconteceu.
E depois daquela pergunta de Toniquinho, a promessa
da construção da nova capital tomou conta de Juscelino
Kubitschek. Diz o presidente, em Por que construí Brasília:
A afirmação do comício em Jataí
fora política até certo ponto. Até então,
eu não me havia preocupado com o problema. Entretanto,
a partir dali, e no desdobramento da jornada eleitoral
quando percorri o país inteiro deixei-me empolgar
pela idéia.
Pouco depois, aos 30 itens do Plano de Metas de Juscelino
50 anos em 5 foi acrescentado
o da construção da nova capital, que passou a denominar-se
meta-síntese do governo JK. E,
dali em diante, Juscelino tomou tanto gosto pela promessa que
deu no que deu.
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