FALTAM 17 DIAS PARA BRASÍLIA COMPLETAR 40 ANOS

Um tesouro abandonado

Durante 35 anos Gabriel Gondim guardou objetos, fotos, documentos da capital em construção, acervo que hoje está amontoado num quarto na Asa Sul

 

Conceição Freitas
Da equipe do Correio


Gabriel Filho e José Leocádio, filhos de Gondim: acervo de 60 mil peças à espera de quem queira cuidar dele

‘‘Mulher, por aqui as coisas estão indo bem. Estou me virando com Marta Rocha’’, escreveu o candango.

  ‘‘Zé, já que você está com Marta Rocha, eu me arranjei com o Zé da Bodega’’, respondeu a mulher.

  Marta Rocha era um bolo de farinha de trigo, ovos, leite e muito fermento, quase da metade de um tijolo, que saciava a fome dos candangos imersos em 15 horas diárias de labuta. O humor da peãozada ficou na memória do fotógrafo Gabriel Gondim, um cearense que dedicou 35 de seus 68 anos a montar um dos maiores acervos da história de Brasília.

  Gondim contava outra:

  O candango escreveu para a mulher informando que havia construído uma casa com mil sacos de cimento. Pouco tempo depois, ela e a reca de filhos chegaram à Cidade Livre, certos de que o conforto os aguardava. O peão-de-obra não contou, na carta, que os sacos — vazios — foram usados para fazer as paredes do barraco num lugar que se chamava Sacolândia.

  Mais que histórias pitorescas, Gondim guardou documentos, filmes, livros, revistas, jornais, souvenirs, depoimentos gravados (veja quadro), mapas e muitas e muitas fotos para compor um acervo precioso, porém abafado num quarto de seis metros quadrados num apartamento da 305 Sul. É a memória de Brasília e as lembranças de um homem que tinha a obstinação de um historiador e a paciência de um arquivista.

  Enviado especial de um jornal de Fortaleza, Gabriel Gondim deixou mulher e três filhos para vir fotografar a construção da nova capital. Ele tirou um pedaço de cada história do jeito que pôde. Guardou jornais, caixas de fósforo, parafuso da estrada de ferro, garrafinha com terra vermelha, régua de cálculo, pedaço da pedra que serviu de altar para a primeira missa. Ao todo, 60 mil itens.

  Uma vez, queria ser fotografado dentro de um Lacerdinha (como eram chamados os redemoinhos, por conta da ferrenha oposição de Carlos Lacerda à construção de Brasília). Postou-se junto com um amigo num lugar ermo e ficou esperando a formação de um pé-de-vento. Naquele tempo, eles surgiam a torto e a direito. Quando apareceu o primeiro, Gondim mergulhou na onda de poeira, fez pose e saiu pintado de vermelho.

  — E aí, deu certo?

  O amigo fotógrafo, entre divertido e escabreado, explicou:

  — Não deu pra ver você lá dentro. Não se via nada...

  A foto foi feita, mas do lado de fora do poeirão que novamente se formava naquela vastidão de terra e de horizonte.

  O cearense tenaz dedicou um bom tempo a recuperar uma das histórias mais admiráveis da mudança da capital: a Missão Cruls. Gondim conseguiu um exemplar de 1894 do Relatório Cruls, com o raríssimo volume dedicado aos mapas. Mas parecia pouco: foi atrás de Viriato Correa que, aos dez anos de idade, acompanhou a missão por esses confins. Encontrou-o já velho, mas conseguiu gravar um inédito depoimento dele três meses antes de sua morte.

  Ainda assim, ele quis mais. Procurou a família de Luiz Cruls, chefe da Comissão Exploradora do Planalto Central do Brasil, conseguiu saber muito da vida do astrônomo que liderou a equipe de desbravadores e, ao final, trouxe um troféu: um prato com o monograma de Cruls.

  O incansável fotógrafo nunca teve emprego fixo, como quem queria o tempo a seu dispor para correr atrás da história de Brasília. E fazia isso numa rotina incansável: encontrou Roseo Spotto, o artífice que fundiu a placa da pedra fundamental, obelisco construído próximo a Planaltina, e inaugurado em 7 de setembro de 1922. Localizou-o em Araguari, Minas Gerais, e o trouxe para uma foto na pedra fundamental.

  A arqueologia de Brasília ainda está ao alcance das mãos, mas se continuar exposta à ação do tempo, sem qualquer cuidado especializado, não durará muito tempo. As 220 plantas de todo o território do Distrito Federal estão dobradas em rolo, bordas rasgadas, amontoadas aleatoriamente numa prateleira abarrotada de papéis, caixas, discos. Raridades puídas como o primeiro catálogo telefônico de Brasília, em letra de máquina de datilografia, com 150 assinantes. O texto que orienta o usuário é, 41 anos depois, risível (vide quadro).

  Há muito os filhos de Gondim tentam vender o acervo, mandam cartas a deputados, ouvem promessas de políticos, mas até agora ninguém se dispôs a olhar por esse tesouro abandonado. ‘‘Minha mãe já disse que qualquer hora dessa vai levar isso pro Ceará e guardar num quarto’’, diz Gabriel Gondim Filho. Os herdeiros do fotógrafo calculam o acervo em R$ 800 mil, mas passados seis anos de tentativas não conseguiram nenhuma oferta. O pai deles acreditava que aquele era o patrimônio que deixaria para os quatro filhos, José Leocádio, Gabriel, Marília e Paulinho. O caçula foi o único que nasceu aqui — por desejo do pai de ter um filho brasiliense.


 
O que há no quartinho

* Livro com a íntegra do relatório original da Missão Cruls
* Atlas dos itinerários, perfis longitudinais e da zona demarcada da Missão Cruls
* Primeiro livro impresso em Brasília, Bagana, de Rui Carneiro
* Três moedas de ouro comemorativas da inauguração de Brasília
* Relógio suíço banhado a ouro tendo ao fundo a esfinge de Juscelino Kubitschek
* Negativos e slides da construção de Brasília, da primeira criança nascida aqui, do primeiro engenheiro, do avião que caiu no Catetinho em 1957, do primeiro avião que desceu no Catetinho
* Todos os catálogos telefônicos de Brasília
* Mapas e plantas originais das fazendas que foram desapropriadas para compor o Distrito Federal
* Coleção de selos que conta a história de Brasília
* Primeiro disco gravado na cidade
* Gravação em fita cassete do discurso de despedida do presidente JK no Aeroporto de Brasília em 1961
* Coleção da Revista Brasília, editada pela Novacap
* Edições da revista Módulo, de 1957 a 1990, da qual fazia parte Oscar Niemeyer
* Convites e credenciais para a inauguração de Brasília.

Foto de Gabriel Gondim Termômetro de parede Prato com monograma de Cruls Prato de parede
Moedas de ouro Prato do Brasília Palace Hotel Cinto da inauguração
 
Parafuso da estrada de ferro Caneta com relevos que lembram a cidade
Gravata da inauguração  

 


Alô, Brasília
(Lista de assinantes produzida pela Novacap, em 1959, ensina a usar o telefone)

 

1 —Procure na lista de assinantes o número do telefone com quem se deseja falar.
2 — Tira-se o fone do suporte e põe-se ao ouvido.
3 — Preste-se atenção a fim de ouvir o ruído da chamada, que é um zumbido característico, que indica estar o aparelhamento automático pronto para receber a chamada; é ouvido, geralmente, logo que se retira o fone do suporte. Forma-se no numerador (disco numerado) o número desejado, a partir do algarismo das centenas. Exemplo: Suponhamos que se queira ligar para o telefone 1024. Introduz-se o dedo no orifício correspondente ao algarismo 1 e gira-se até o índice e solta-se o disco. Depois do disco ter voltado à posição primitiva procede-se do mesmo modo para os algarismos restantes.
4 — Não se deve acelerar a volta do disco auxiliando a sua marcha.
5 — Feita a ligação desejada, o aparelho fará automaticamente a chamada, ouvindo o assinante, pelo fone, sinais correspondentes a campainha do aparelho desejado, com intervalo de cinco segundos. Quando os sinais forem curtos e com intervalo de um segundo, quer dizer que o aparelho desejado está ocupado. Neste caso deve-se colocar o fone no suporte e repetir a operação depois de dois segundos de espera.
6 — Tendo falhado a manobra da escolha do número desejado é indispensável repor o fone no suporte. O assinante, deixando de proceder dessa maneira, será advertido pelo ruído de uma buzina.
7 — Não se deve bater com o suporte de fone para não provocar ligações erradas.

Personagem do dia
Brasília, na voz do poeta
 

Juliana Monteiro
Especial para o Correio

Cassiano: ‘‘redenção nacional’’

Se não tivesse nascido poeta, sua história o teria poetizado. Cassiano Nunes nasceu no dia 27 de abril de 1921. Os pais vieram de Portugal tentar a vida no Brasil. Instalaram-se em Santos, São Paulo, onde Cassiano nasceu. Aos 16 anos, o poeta publicou seu primeiro artigo no jornal Tribuna de Santos e não parou mais. Participou do Movimento Literário Santista, na década de 40, esudou literatura nos Estados Unidos e Alemanha, foi orientador literário da editora Saraiva, lecionou em faculdades de letras até se aposentar. O pai não aceitava a vocação literária do menino Cassiano, que se formou contador. Mas a vida e a influência de amigos como Carlos Drummond de Andrade, Cacilda Becker, Mário de Andrade, Tarsila do Amaral promoveram o encontro com a literatura e com artes.Cassiano chegou a Brasília em 11 de janeiro de 1966. Havia sido indicado para dar aulas no departamento de letras da Universidade de Brasília (UnB), pelo ilustre conterrâneo Carlos Drummond. Aos 79 anos, o poeta não pensa em deixar a cidade. ‘‘Mesmo por que, quem tem uma biblioteca do tamanho da minha, não pode se mudar com facilidade’’, diverte-se. Os volumes da biblioteca são incontáveis, mas Cassiano ainda não leu todos. ‘‘Muitos ficam anos na estante até chegar a hora certa de lê-los.’’

Por que veio para Brasília?
Para lecionar na faculdade de letras da Universidade de Brasília.

O que mais gosta aqui?
Das árvores. Gosto de cidades ajardinadas

O que mais detesta?
A cidade ainda não tem capacidade de projeção para escritores e artistas, como São Paulo e o Rio de Janeiro, por exemplo. Brasília não pode ser só política.

O que mais falta à cidade?
Locais de comunicabilidade, reunião e distração. Por isso a importância do Beirute (de onde o poeta é freqüentador assíduo). Brasília tem poucos lugares de convívio.

Qual o primeiro lugar onde você levaria um turista?
À Esplanada dos Ministérios.

O dia ou a noite de Brasília?
Prefiro o dia. A noite em Brasília sugere recolhimento.

De onde a vista de Brasília é mais bonita?
Do parque.

O que você responde quando alguém fala mal de Brasília?
Eu não gosto de ouvir isso. Eu chamo os inimigos de Brasília de ‘idiotas da subjetividade’. Brasília tem um sentido de redenção nacional. Brasília deu ao Brasil uma consciência de nacionalidade, unidade e autocolonização. Brasília mudou a cara do Brasil.

 


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