‘‘Mulher, por aqui as coisas estão indo bem. Estou
me virando com Marta Rocha’’, escreveu o candango.
‘‘Zé, já que você está com Marta Rocha, eu me arranjei
com o Zé da Bodega’’, respondeu a mulher.
Marta Rocha era um bolo de farinha de trigo, ovos,
leite e muito fermento, quase da metade de um tijolo, que saciava a
fome dos candangos imersos em 15 horas diárias de labuta. O humor da
peãozada ficou na memória do fotógrafo Gabriel Gondim, um cearense que
dedicou 35 de seus 68 anos a montar um dos maiores acervos da história
de Brasília.
Gondim contava outra:
O candango escreveu para a mulher informando que
havia construído uma casa com mil sacos de cimento. Pouco tempo depois,
ela e a reca de filhos chegaram à Cidade Livre, certos de que o conforto
os aguardava. O peão-de-obra não contou, na carta, que os sacos — vazios
— foram usados para fazer as paredes do barraco num lugar que se chamava
Sacolândia.
Mais que histórias pitorescas, Gondim guardou documentos,
filmes, livros, revistas, jornais, souvenirs, depoimentos gravados (veja
quadro), mapas e muitas e muitas fotos para compor um acervo precioso,
porém abafado num quarto de seis metros quadrados num apartamento da
305 Sul. É a memória de Brasília e as lembranças de um homem que tinha
a obstinação de um historiador e a paciência de um arquivista.
Enviado especial de um jornal de Fortaleza, Gabriel
Gondim deixou mulher e três filhos para vir fotografar a construção
da nova capital. Ele tirou um pedaço de cada história do jeito que pôde.
Guardou jornais, caixas de fósforo, parafuso da estrada de ferro, garrafinha
com terra vermelha, régua de cálculo, pedaço da pedra que serviu de
altar para a primeira missa. Ao todo, 60 mil itens.
Uma vez, queria ser fotografado dentro de um Lacerdinha
(como eram chamados os redemoinhos, por conta da ferrenha oposição de
Carlos Lacerda à construção de Brasília). Postou-se junto com um amigo
num lugar ermo e ficou esperando a formação de um pé-de-vento. Naquele
tempo, eles surgiam a torto e a direito. Quando apareceu o primeiro,
Gondim mergulhou na onda de poeira, fez pose e saiu pintado de vermelho.
— E aí, deu certo?
O amigo fotógrafo, entre divertido e escabreado,
explicou:
— Não deu pra ver você lá dentro. Não se via nada...
A foto foi feita, mas do lado de fora do poeirão
que novamente se formava naquela vastidão de terra e de horizonte.
O cearense tenaz dedicou um bom tempo a recuperar
uma das histórias mais admiráveis da mudança da capital: a Missão Cruls.
Gondim conseguiu um exemplar de 1894 do Relatório Cruls, com o raríssimo
volume dedicado aos mapas. Mas parecia pouco: foi atrás de Viriato Correa
que, aos dez anos de idade, acompanhou a missão por esses confins. Encontrou-o
já velho, mas conseguiu gravar um inédito depoimento dele três meses
antes de sua morte.
Ainda assim, ele quis mais. Procurou a família de
Luiz Cruls, chefe da Comissão Exploradora do Planalto Central do Brasil,
conseguiu saber muito da vida do astrônomo que liderou a equipe de desbravadores
e, ao final, trouxe um troféu: um prato com o monograma de Cruls.
O incansável fotógrafo nunca teve emprego fixo,
como quem queria o tempo a seu dispor para correr atrás da história
de Brasília. E fazia isso numa rotina incansável: encontrou Roseo Spotto,
o artífice que fundiu a placa da pedra fundamental, obelisco construído
próximo a Planaltina, e inaugurado em 7 de setembro de 1922. Localizou-o
em Araguari, Minas Gerais, e o trouxe para uma foto na pedra fundamental.
A arqueologia de Brasília ainda está ao alcance
das mãos, mas se continuar exposta à ação do tempo, sem qualquer cuidado
especializado, não durará muito tempo. As 220 plantas de todo o território
do Distrito Federal estão dobradas em rolo, bordas rasgadas, amontoadas
aleatoriamente numa prateleira abarrotada de papéis, caixas, discos.
Raridades puídas como o primeiro catálogo telefônico de Brasília, em
letra de máquina de datilografia, com 150 assinantes. O texto que orienta
o usuário é, 41 anos depois, risível (vide quadro).
Há muito os filhos de Gondim tentam vender o acervo,
mandam cartas a deputados, ouvem promessas de políticos, mas até agora
ninguém se dispôs a olhar por esse tesouro abandonado. ‘‘Minha mãe já
disse que qualquer hora dessa vai levar isso pro Ceará e guardar num
quarto’’, diz Gabriel Gondim Filho. Os herdeiros do fotógrafo calculam
o acervo em R$ 800 mil, mas passados seis anos de tentativas não conseguiram
nenhuma oferta. O pai deles acreditava que aquele era o patrimônio que
deixaria para os quatro filhos, José Leocádio, Gabriel, Marília e Paulinho.
O caçula foi o único que nasceu aqui — por desejo do pai de ter um filho
brasiliense.