FALTAM 16 DIAS PARA BRASÍLIA COMPLETAR 40 ANOS

É um pássaro? É um avião? Não, é Brasília

Gente que acabou de chegar estranha o calor, a solidão, o comércio, mas adora o pôr-do-sol, o trânsito, a arquitetura

 

Cristina Ávila
Da equipe do Correio

Anderson Schneider 17.4.99

Brasília atrai não somente os migrantes que vêm atrás de lote e de tratamento médico. Cresce a migração dos que podem vir de avião

O espaço urbano é de uma largueza descomunal. As superquadras distanciam as pessoas, dividem a tristeza em blocos ao mesmo tempo em que oferecem a natureza generosa entre prédios de concreto. A estação seca agride, e também produz belo pôr-do-sol avermelhado, céu limpo, azul infinito. Cidade de contradições, Brasília desperta paixões e desconsolo.

  ‘‘Eu já cheguei amando essa cidade’’, declara a gaúcha Regiara Lotuffo Cocino da Costa, 26 anos, que está morando apenas há um mês na 209 Sul. Diversas vezes ressalta ‘‘a maravilha’’ do clima do Planalto Central, embora já informada de que não conhece as agruras da estiagem. Justifica-se: natural de São Gabriel, interior do Rio Grande do Sul, está recém-chegada de Manaus, a capital amazonense onde o calor chega a 45 graus. ‘‘Odeio o calor.’’

  Regiara veio morar na cidade porque o marido, capitão do Exército, foi transferido para a capital. Só não está gostando de uma coisa: não tem nem esperanças de conseguir uma transferência para o curso de psicologia na Universidade de Brasília. Com tanta concorrência, não há chances de vaga sem vestibular, ‘‘como acontece nas outras cidades’’.

  Mas está encantada. Principalmente porque não precisa de guia para chegar em qualquer lugar que deseje. ‘‘Chegamos a Brasília de carro. A primeira impressão foi de uma cidade muito plana, sem prédios altos. Não conhecíamos nada e fomos direto à 102 Norte, encontrar uns amigos. Não precisou perguntar para ninguém. Bastou seguir a sinalização do trânsito. A gente consegue se orientar direitinho aqui’’, diz Regiara.

  Mesmo o horizonte amplo, que tanto encanta os amantes de Brasília, nem sempre se apresenta tão romântico a quem chega. ‘‘Chegamos pela estrada, passando por Cristalina, Valparaíso; era tempo de seca. Muito espaço, poeira, muita pobreza. Pensei: Meu Deus, será que a cidade é isso?’’ — comenta Márcia Helena de Oliveira Melo, 42 anos. Dona-de-casa, ela também é gaúcha de São Gabriel. Veio para Brasília acompanhando o marido, tenente do Exército João Paulo Zolin Melo, 43. Chegaram com a filha, Bianca, 17 anos. Eles moram há oito meses na SQN 103.

  ‘‘Estou completamente solitária. As pessoas que a gente conhece aqui vivem só trabalhando, ninguém tem tempo pra gente. Aqui no bloco tem muitos gaúchos, todos militares. Mas eu sou tímida, não sou do tipo que chega e diz: oi, e vai puxando a cadeirinha na roda de chimarrão’’, diz Márcia.

  Mas, ela também tem seus encantos com a cidade. ‘‘Gosto de ficar olhando Brasília da Rodoviária. Coisa linda, aquilo pra mim é Brasília, o que a gente antes via na televisão e nas revistas. Também gosto das quadras arborizadas. Gostei de Taguatinga. Achei uma cidade normal. Me senti como se estivesse na avenida Assis Brasil, em Porto Alegre. Acho o comércio em Brasília muito estranho... onde tem farmácia tem um monte, onde tem oficina tem um monte. Estou acostumada com variedade. Mas os gaúchos estão amando Brasília. Tem gente que me diz que teria vindo antes, se soubesse que a cidade era tão boa. Eu sou exceção. Não gosto muito, mesmo’’, admite.

  A filha, Bianca, também não está apaixonada por Brasília. É até indiferente. Não foi assim quando chegou. Estudiosa, mas acostumada ao ritmo tranqüilo das escolas de São Gabriel — cidade pequena no centro-oeste gaúcho — quase teve um chilique quando enfrentou o currículo da Escola Militar. Chorou vários dias, pensou que perderia o ano, o último do segundo grau. Agora, está cursando pré-vestibular no Objetivo. ‘‘As aulas tinham coisas que eu nunca tinha visto. Depois, vi que não era preciso ficar apavorada. O ensino aqui é forte, é bom para fazer as provas de vestibular. E as pessoas foram muito receptivas comigo. Só não gosto da seca, dá uma preguiçona.’’

  O pai, tenente Zolin, leva a vida numa boa. Aprecia o traçado bem planejado das ruas, o verde, a população agradável. E a civilidade dos motoristas. Na cidade das curvas arquitetônicas, ele achou muito estranho dar preferência para quem faz o contorno nos balões. ‘‘Não encontrei isso em nenhuma das outras cidades onde andamos.’’

  João Paulo Zolin gosta da culinária local. ‘‘A cidade oferece variedade. Desde restaurantes self-service, lanchonetes com preços acessíveis a restaurantes internacionais. Do sofisticado ao baratinho, tudo fácil, pertinho.’’ Para quem passou por Porto Alegre, Goiânia, Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte e outras cidades, Brasília parece não ter semáforos. ‘‘Não tem sinaleira, não tem esquina, o trânsito flui.’’

  Ele só tem uma reclamação. ‘‘Tudo é longe.’’ Sente falta das fronteiras do Brasil. ‘‘De São Gabriel a Riveira, no Uruguai, eram 170 quilômetros. Até Montevidéu, 600 quilômetros, cinco horas de carro. Para praia, 400 quilômetros até Tramandaí, no litoral do Rio Grande do Sul, 320 até uma grande capital, Porto Alegre. Aqui, a menor distância é 1 mil quilômetros — 1100 até o Rio de Janeiro, 1500 até Salvador. Tudo longe. A cidade é muito isolada.’’

  Apesar de longe, Brasília atrai pessoas de todos as regiões. E os prédios arquitetônicos conhecidos em todo o mundo emocionam sempre. A primeira visão de Brasília não foi agradável para Cyntia Arnas Assunção, 24 anos. Ela e a mãe chegaram de ônibus e se assustaram com a Rodoferroviária. Muito feia. A jovem fazia o terceiro ano de Arquitetura e morava em Santo André, São Paulo.

  O temor passou logo, quando viu ainda de longe o Memorial JK. Reconheceu imediatamente a cidade que conhecia dos livros. Ficou ainda mais emocionada quando soube que trabalharia em um outro monumento, na Câmara dos Deputados, na liderança do PT. Assumiu uma vaga de web-designer, que descobriu trocando e-mails com amigos.

  Cyntia mora aqui há sete meses. ‘‘Me apaixonei por Brasília. Quando fui visitar o Memorial, cheguei a chorar. Eu nunca tinha chorado por causa de uma cidade. Eu estudei tanto aquilo e nunca imaginei que um dia iria morar aqui’’.

  Ela também admira o respeito no trânsito. Mas ainda não se acostumou a parar nas faixas de pedestres. Às vezes ainda passa direto, esquecendo-se da obrigação de ceder a preferência. ‘‘Mas aos poucos estou me acostumando’’. Também ainda estranha o clima. O nariz é que mais sofre, com freqüentes sangramentos nos meses em que não chove. E uma surpresa para a paulista do interior — agora pode andar com os vidros do carro abertos, sem medo de ser assaltada em cada esquina. ‘‘É uma sensação de liberdade.’’

Ronaldo de Oliveira
Cyntia, paulista, moradora recém-chegada: ‘‘Chorei no Memorial JK’’

  Não existe pesquisas sobre a movimentação da classe média em Brasília. Mas o professor Aldo Paviani, doutor em Mobilidade Intraurbana e Organização Espacial em Brasília, não tem dúvidas de que a cidade continua atraindo muita gente. ‘‘Ninguém se dá conta da discreta explosão migratória que chega por avião. Não há pesquisa, mas basta observar como as construtoras estão investindo em edifícios inteligentes e apartamentos’’, diz ele.

  A cidade parece mesmo continuar seu ritmo rotativo. Apesar da falta de pesquisas, o gerente-geral da Granero, empresa de mudanças com 32 filiais no Brasil, dá uma amostra do chega e sai da população. ‘‘Em janeiro deste ano, fizemos 60 mudanças de executivos que chegaram para trabalhar em Brasília e 29 de pessoas que vieram por outros motivos. Em fevereiro, foram 38 executivos e 26 pessoas comuns, que chegam por aposentadoria, em busca de trabalho ou vem por causa de filhos, por exemplo. Em março, 30 executivos chegaram para morar aqui e trouxemos mais 17 mudanças de outros tipos de pessoas.’’

  Haroldo impressionou-se com seu próprio levantamento. ‘‘Ao mesmo tempo em que chegaram 60 executivos, outros 65 foram transferidos em janeiro para outros estados. Em fevereiro, chegaram 38 e saíram 87.’’ Segundo ele, em relação a 1998, os números em todos os casos tiveram queda de aproximadamente 15%. Haroldo comenta que nos dois primeiros meses do ano o movimento de mudanças é maior, provavelmente por causa das férias escolares, quando as famílias preferem mudar.


VIda de pioneiro
Apaixonado pela luz

‘‘É a terra de minha esperança’’. Autor de vários livros sobre a capital, o jornalista Adirson

Adauto Cruz 23.11.98
Adirson: historiador apaixonado

Vasconcelos pisou o chão de Brasília pela primeira vez no dia 1º de maio de 1957 para fazer a cobertura da primeira missa da cidade. Com caneta, papel e um gravador, chegou a Goiânia, onde pegou uma jardineira (ônibus bem pequeno que fazia o percurso até a capital) para chegar ao seu destino. ‘‘Estava anoitecendo e só encontrei solidão e uns 20 a 30 barracos na cidade. Não havia mais nada.’’

Sujo e cansado da viagem, que levara 12 horas, Adirson foi em busca de um lugar para comer e dormir. ‘‘Tinha tanta gente na pensão que o dono disse: só se for para dormir em cima da mesa, porque debaixo já tem gente.’’, lembra. Decidiu, então, dormir na ‘jardineira’ em que viera. No dia seguinte, ao acordar, a capital revelara-se ao jornalista do Correio do Povo de Recife. ‘‘Foi amor à primeira vista. A luminosidade e o céu me deslumbraram.’’

E, durante a missa, a magia do lugar se intensificaram. Atento às palavras do arcebispo de São Paulo, dom Carlos Carmelo Vasconcelos Motta, Adirson percebeu a importância da moderna construção que estava para ser iniciada. ‘‘A frase dele foi a seguinte: Brasília será o trampolim para a conquista da Amazônia’’ relembra Adirson.

Interessou-se pela cidade, procurou informações e acompanhou bem de perto a construção. Em 1959, já trabalhava como assessor de imprensa do Instituto dos Bancários da 108 Sul fazendo o noticiário das obras de Brasília, o que permitia freqüentes visitas à capital. Mas foi só em fevereiro de 1960, aos 23 anos de idade, que Adirson conseguiu chegar à terra de seus sonhos. ‘‘Brasília já era a minha terra, o meu céu e o meu mar’’. Ficou em um acampamento e logo logo publicou o livro O homem e a cidade, onde disserta sobre a relação entre o homem e a cidade até a criação de Brasília.

Hoje, profundo estudioso da obra de Assis Chateaubriand, Adirson, o jornalista que entrevistou Juscelino Kubitschek dois meses antes de o presidente morrer, acredita que a capital é um projeto divino. ‘‘Brasília é a cidade prometida. Já tinha sido antevista pelos nossos antepassados e hoje passamos pela tempestade para logo chegarmos à a bonança.’’

 


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