O espaço urbano é de uma largueza descomunal. As superquadras
distanciam as pessoas, dividem a tristeza em blocos ao mesmo tempo em
que oferecem a natureza generosa entre prédios de concreto. A estação
seca agride, e também produz belo pôr-do-sol avermelhado, céu limpo,
azul infinito. Cidade de contradições, Brasília desperta paixões e desconsolo.
‘‘Eu já cheguei amando essa cidade’’, declara a
gaúcha Regiara Lotuffo Cocino da Costa, 26 anos, que está morando apenas
há um mês na 209 Sul. Diversas vezes ressalta ‘‘a maravilha’’ do clima
do Planalto Central, embora já informada de que não conhece as agruras
da estiagem. Justifica-se: natural de São Gabriel, interior do Rio Grande
do Sul, está recém-chegada de Manaus, a capital amazonense onde o calor
chega a 45 graus. ‘‘Odeio o calor.’’
Regiara veio morar na cidade porque o marido, capitão
do Exército, foi transferido para a capital. Só não está gostando de
uma coisa: não tem nem esperanças de conseguir uma transferência para
o curso de psicologia na Universidade de Brasília. Com tanta concorrência,
não há chances de vaga sem vestibular, ‘‘como acontece nas outras cidades’’.
Mas está encantada. Principalmente porque não precisa
de guia para chegar em qualquer lugar que deseje. ‘‘Chegamos a Brasília
de carro. A primeira impressão foi de uma cidade muito plana, sem prédios
altos. Não conhecíamos nada e fomos direto à 102 Norte, encontrar uns
amigos. Não precisou perguntar para ninguém. Bastou seguir a sinalização
do trânsito. A gente consegue se orientar direitinho aqui’’, diz Regiara.
Mesmo o horizonte amplo, que tanto encanta os amantes
de Brasília, nem sempre se apresenta tão romântico a quem chega. ‘‘Chegamos
pela estrada, passando por Cristalina, Valparaíso; era tempo de seca.
Muito espaço, poeira, muita pobreza. Pensei: Meu Deus, será que a cidade
é isso?’’ — comenta Márcia Helena de Oliveira Melo, 42 anos. Dona-de-casa,
ela também é gaúcha de São Gabriel. Veio para Brasília acompanhando
o marido, tenente do Exército João Paulo Zolin Melo, 43. Chegaram com
a filha, Bianca, 17 anos. Eles moram há oito meses na SQN 103.
‘‘Estou completamente solitária. As pessoas que
a gente conhece aqui vivem só trabalhando, ninguém tem tempo pra gente.
Aqui no bloco tem muitos gaúchos, todos militares. Mas eu sou tímida,
não sou do tipo que chega e diz: oi, e vai puxando a cadeirinha na roda
de chimarrão’’, diz Márcia.
Mas, ela também tem seus encantos com a cidade.
‘‘Gosto de ficar olhando Brasília da Rodoviária. Coisa linda, aquilo
pra mim é Brasília, o que a gente antes via na televisão e nas revistas.
Também gosto das quadras arborizadas. Gostei de Taguatinga. Achei uma
cidade normal. Me senti como se estivesse na avenida Assis Brasil, em
Porto Alegre. Acho o comércio em Brasília muito estranho... onde tem
farmácia tem um monte, onde tem oficina tem um monte. Estou acostumada
com variedade. Mas os gaúchos estão amando Brasília. Tem gente que me
diz que teria vindo antes, se soubesse que a cidade era tão boa. Eu
sou exceção. Não gosto muito, mesmo’’, admite.
A filha, Bianca, também não está apaixonada por
Brasília. É até indiferente. Não foi assim quando chegou. Estudiosa,
mas acostumada ao ritmo tranqüilo das escolas de São Gabriel — cidade
pequena no centro-oeste gaúcho — quase teve um chilique quando enfrentou
o currículo da Escola Militar. Chorou vários dias, pensou que perderia
o ano, o último do segundo grau. Agora, está cursando pré-vestibular
no Objetivo. ‘‘As aulas tinham coisas que eu nunca tinha visto. Depois,
vi que não era preciso ficar apavorada. O ensino aqui é forte, é bom
para fazer as provas de vestibular. E as pessoas foram muito receptivas
comigo. Só não gosto da seca, dá uma preguiçona.’’
O pai, tenente Zolin, leva a vida numa boa. Aprecia
o traçado bem planejado das ruas, o verde, a população agradável. E
a civilidade dos motoristas. Na cidade das curvas arquitetônicas, ele
achou muito estranho dar preferência para quem faz o contorno nos balões.
‘‘Não encontrei isso em nenhuma das outras cidades onde andamos.’’
João Paulo Zolin gosta da culinária local. ‘‘A cidade
oferece variedade. Desde restaurantes self-service, lanchonetes com
preços acessíveis a restaurantes internacionais. Do sofisticado ao baratinho,
tudo fácil, pertinho.’’ Para quem passou por Porto Alegre, Goiânia,
Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte e outras cidades, Brasília
parece não ter semáforos. ‘‘Não tem sinaleira, não tem esquina, o trânsito
flui.’’
Ele só tem uma reclamação. ‘‘Tudo é longe.’’ Sente
falta das fronteiras do Brasil. ‘‘De São Gabriel a Riveira, no Uruguai,
eram 170 quilômetros. Até Montevidéu, 600 quilômetros, cinco horas de
carro. Para praia, 400 quilômetros até Tramandaí, no litoral do Rio
Grande do Sul, 320 até uma grande capital, Porto Alegre. Aqui, a menor
distância é 1 mil quilômetros — 1100 até o Rio de Janeiro, 1500 até
Salvador. Tudo longe. A cidade é muito isolada.’’
Apesar de longe, Brasília atrai pessoas de todos
as regiões. E os prédios arquitetônicos conhecidos em todo o mundo emocionam
sempre. A primeira visão de Brasília não foi agradável para Cyntia Arnas
Assunção, 24 anos. Ela e a mãe chegaram de ônibus e se assustaram com
a Rodoferroviária. Muito feia. A jovem fazia o terceiro ano de Arquitetura
e morava em Santo André, São Paulo.
O temor passou logo, quando viu ainda de longe o
Memorial JK. Reconheceu imediatamente a cidade que conhecia dos livros.
Ficou ainda mais emocionada quando soube que trabalharia em um outro
monumento, na Câmara dos Deputados, na liderança do PT. Assumiu uma
vaga de web-designer, que descobriu trocando e-mails com amigos.
Cyntia mora aqui há sete meses. ‘‘Me apaixonei por
Brasília. Quando fui visitar o Memorial, cheguei a chorar. Eu nunca
tinha chorado por causa de uma cidade. Eu estudei tanto aquilo e nunca
imaginei que um dia iria morar aqui’’.
Ela também admira o respeito no trânsito. Mas ainda
não se acostumou a parar nas faixas de pedestres. Às vezes ainda passa
direto, esquecendo-se da obrigação de ceder a preferência. ‘‘Mas aos
poucos estou me acostumando’’. Também ainda estranha o clima. O nariz
é que mais sofre, com freqüentes sangramentos nos meses em que não chove.
E uma surpresa para a paulista do interior — agora pode andar com os
vidros do carro abertos, sem medo de ser assaltada em cada esquina.
‘‘É uma sensação de liberdade.’’
Não existe pesquisas sobre a movimentação da classe
média em Brasília. Mas o professor Aldo Paviani, doutor em Mobilidade
Intraurbana e Organização Espacial em Brasília, não tem dúvidas de que
a cidade continua atraindo muita gente. ‘‘Ninguém se dá conta da discreta
explosão migratória que chega por avião. Não há pesquisa, mas basta
observar como as construtoras estão investindo em edifícios inteligentes
e apartamentos’’, diz ele.
A cidade parece mesmo continuar seu ritmo rotativo.
Apesar da falta de pesquisas, o gerente-geral da Granero, empresa de
mudanças com 32 filiais no Brasil, dá uma amostra do chega e sai da
população. ‘‘Em janeiro deste ano, fizemos 60 mudanças de executivos
que chegaram para trabalhar em Brasília e 29 de pessoas que vieram por
outros motivos. Em fevereiro, foram 38 executivos e 26 pessoas comuns,
que chegam por aposentadoria, em busca de trabalho ou vem por causa
de filhos, por exemplo. Em março, 30 executivos chegaram para morar
aqui e trouxemos mais 17 mudanças de outros tipos de pessoas.’’
Haroldo impressionou-se com seu próprio levantamento.
‘‘Ao mesmo tempo em que chegaram 60 executivos, outros 65 foram transferidos
em janeiro para outros estados. Em fevereiro, chegaram 38 e saíram 87.’’
Segundo ele, em relação a 1998, os números em todos os casos tiveram
queda de aproximadamente 15%. Haroldo comenta que nos dois primeiros
meses do ano o movimento de mudanças é maior, provavelmente por causa
das férias escolares, quando as famílias preferem mudar.