Desde que foi inaugurada, Brasília ganha elogios, ouve
dizer que é linda. Mas onde estão os turistas? No Rio, no Nordeste,
na Amazônia, em Santa Catarina. Mesmo o brasiliense costuma passar impassível
pela obra deixada por Oscar Niemeyer e companhia.
Não bastasse o céu psicodélico nos tempos de seca,
as cachoeiras que a rodeiam, o horizonte sempre limpo, Brasília é, acima
de tudo, uma cidade monumental. Monumentos recheados de histórias e
obras de arte. É difícil para o brasiliense, seja de nascimento ou de
coração, não ter carinho ou predileção por algum deles.
Claudio Bull, 31 anos, é vocalista do Divine, banda
roqueira com influência da Legião Urbana (para quem esteve muito longe
nos últimos 20 anos, a Legião equivale aos Beatles de Brasília). Na
música Brasília, de sua autoria, Claudio canta ‘‘I wanna be Oscar Niemeyer
(Eu quero ser Oscar Niemeyer)’’. O cartão-postal preferido do cantor
é o Congresso Nacional. ‘‘O prédio sintetiza a pureza das linhas de
Niemeyer. São apenas quatro linhas, uma côncava, uma convexa e duas
retas’’, explica ele, com autoridade de quem dá aulas de artes num dos
maiores colégios de Brasília.
Apesar de, na opinião de boa parte da população,
os freqüentadores do Congresso não serem assim um modelo de austeridade,
o prédio é um hit entre os turistas. Os políticos chegam a curtir uma
de astros de Hollywood. ‘‘A criançada adora tirar foto com eles’’, revela
Monica Taveira, guia da cidade há 27 anos. Quem achar que uma polaroid
com senador não é algo assim tão bacana, pode conferir, além das sessões
no plenário e comissões, algumas obras de arte, como o belo painel em
mármore branco e granito negro. Fica no Salão Negro da Câmara, e a autoria
é de Athos Bulcão.
Claudio não foi o único roqueiro a cantar a cidade.
André Mueller, baixista da Plebe Rude, também tem uma música chamada
Brasília (‘‘Capital da esperança, asas e eixos do Brasil’’). Seu monumento
de estimação é o minhocão da UnB. ‘‘É uma cidade por si só, fechada,
e a atmosfera é de um certo bucolismo. Essa junção das partes intelectual,
artística e científica me atrai’’, comenta ele, que morou na Colina,
e terminou o curso de economia na Universidade.
Muitos monumentos de Brasília guardam histórias
interessantes. A Igreja Nossa Senhora de Fátima (a Igrejinha da 308
Sul) é o primeiro templo de alvenaria do Distrito Federal. O maior pecado
cometido na Igrejinha foi a destruição de três afrescos do artista Alfredo
Volpi, considerados obras-primas, em fins do anos 60 durante uma reforma.
Outro fato curioso foi presenciado pelo fotógrafo Gabriel Gondim, o
maior retratista da capital, que já morreu. Às vésperas do tombamento
da obra, ele viu um rapaz que chorava em silêncio por ali. Perguntou
o porquê do choro. ‘‘É que meu pai ajudou a construir a igreja e agora
vão tombá-la’’, lamentou o filho do pedreiro.
Dentre os monumentos de Niemeyer, existe um de importância
mais sentimental do que propriamente arquitetônica. É o Catetinho, primeira
residência do presidente JK, que no ano passado recebeu 57.600 visitantes.
É pouco se comparado ao Templo da Boa Vontade, onde estiveram mais de
um milhão pessoas, claro indicador da vocação mística da capital da
República.
No Catetinho, o turista pode conferir o estilo de
vida simples do presidente mineiro de Diamantina. Mesmo depois de construído
o Palácio da Alvorada, Juscelino costumava voltar ao lugar, disfarçado.
Nos tempo áureos, a antiga residência do presidente sediava animadas
serestas, uma tradição que até hoje é mantida na cidade natal de JK.
Situado numa área bucólica, cercada de mata ciliar e bichos do cerrado,
o palácio de tábuas recebe estudantes do Brasil inteiro em busca do
resgate histórico da construção da cidade.
Monica Taveira, que trabalha há 27 anos como guia
na cidade (hoje é assessora do ex-secretário de Turismo e deputado distrital
Rodrigo Rollemberg) comenta que a causa de maior frisson nos turistas
são os palácios, em especial o da Alvorada e do Planalto. ‘‘Apesar de
não ser uma figura popular, eles querem ver onde trabalha o presidente,
onde mora o presidente. E ficam indignados por que não podem entrar
nos palácios’’.
O único palácio que permite visitas é o Itamaraty,
que contém uma verdadeira coleção de tesouros em seu luxuoso interior,
misturando obras modernas a antigüidades do século XVIII. A começar
pelo Meteoro, que fica no espelho d’água, autoria de Bruno Giorgi. No
interior, esculturas de Maria Martins, Mary Vieira, Franz Weissman e
o afresco de Alfredo Volpi, O Sonho de Dom Bosco, o único em toda a
cidade.
O monumento preferido do jornalista-pioneiro Adirson
Vasconcelos não tem nada de grandioso ou artístico. É um rústico cruzeiro
de madeira, perto do Memorial JK, onde foi rezada a primeira missa da
futura capital, em 1957. O original está na Catedral. A cópia fica no
ponto mais alto da cidade, a 1.172 metros de altitude. Vasconcelos chegou
ao lugar que viria ser Brasília naquele ano como correspondente do Correio
do Povo, jornal recifense, e presenciou a primeira missa, onde esteve
Kubitschek, celebrada pelo arcebispo de São Paulo, Dom Carlos Carmelo
de Vasconcellos Motta.
‘‘Ali foi reunida a primeira multidão de Brasília,
umas duas mil pessoas’’, recorda. ‘‘Foi o batismo espiritual da construção
da capital. Havia um ideal no ar, uma esperança. Deveriam dar um tratamento
turístico àquela área, assim como para a pedra fundamental, que fica
em Planaltina. Hoje em dia são monumentos esquecidos até mesmo pelo
brasiliense’’, completa o jornalista, de 63 anos, que mora por aqui
desde 1959, trabalhando na Agência Meridional de notícias, no Correio
Braziliense, e na Fundação Assis Chateubriand.
Já o cineasta Affonso Brazza, que registrou Brasília
e as outras cidades do Distrito Federal em filmes como Inferno no Gama
e No Eixo da Morte, elegeu o Catetinho como a imagem de Brasília. ‘‘É
um lugar especial para a história da cidade’’, observa. O xodó do cineasta
é mesmo o Lago Paranoá, lugar onde Brazza costumava brincar quando criança.
‘‘Em meu último filme (Tortura Selvagem: A Grade, que estréia nos cinemas
em outubro), fiz o lago se transformar no mar’’, garante ele, nascido
em São João do Piauí, mas morador de Brasília desde os 3 anos.
Para quem deseja conhecer um pouco mais da história
do homem que viabilizou a construção da capital da República, além do
Catetinho, é imprescindível uma visita ao Memorial JK, inaugurado em
1980. Ali, onde o fundador da cidade desfruta o sono eterno, debaixo
de um belíssimo vitral da francesa Marianne Perreti, o turista toma
contato com um pouco da intimidade de JK.
Destaque para sua biblioteca, que foi trazida intacta
do Rio de Janeiro (inclusive com portas que não dão para lugar nenhum),
documentos e fotos de várias fases da vida do presidente. Uma obra especial
é o retrato dele feito por Cândido Portinari, além de fotografias de
seu governo ‘‘50 anos em cinco’’, onde são mostrados fatos como o início
da indústria automobilística no Brasil, a construção da Hidrelétrica
de Três Marias, além, é claro, da construção de Brasília.