FALTAM 15 DIAS PARA BRASÍLIA COMPLETAR 40 ANOS

Beleza mais que concreta

Monumentos a céu aberto transformam Brasília numa imensa galeria de arte

 

João Luiz Marcondes
Da equipe do Correio

Jorge Cardoso

Vocalista do Divine, Claudio Bull tem uma música chamada Brasília, onde canta que quer ser Niemeyer: pureza de linhas

Desde que foi inaugurada, Brasília ganha elogios, ouve dizer que é linda. Mas onde estão os turistas? No Rio, no Nordeste, na Amazônia, em Santa Catarina. Mesmo o brasiliense costuma passar impassível pela obra deixada por Oscar Niemeyer e companhia.

  Não bastasse o céu psicodélico nos tempos de seca, as cachoeiras que a rodeiam, o horizonte sempre limpo, Brasília é, acima de tudo, uma cidade monumental. Monumentos recheados de histórias e obras de arte. É difícil para o brasiliense, seja de nascimento ou de coração, não ter carinho ou predileção por algum deles.

  Claudio Bull, 31 anos, é vocalista do Divine, banda roqueira com influência da Legião Urbana (para quem esteve muito longe nos últimos 20 anos, a Legião equivale aos Beatles de Brasília). Na música Brasília, de sua autoria, Claudio canta ‘‘I wanna be Oscar Niemeyer (Eu quero ser Oscar Niemeyer)’’. O cartão-postal preferido do cantor é o Congresso Nacional. ‘‘O prédio sintetiza a pureza das linhas de Niemeyer. São apenas quatro linhas, uma côncava, uma convexa e duas retas’’, explica ele, com autoridade de quem dá aulas de artes num dos maiores colégios de Brasília.

  Apesar de, na opinião de boa parte da população, os freqüentadores do Congresso não serem assim um modelo de austeridade, o prédio é um hit entre os turistas. Os políticos chegam a curtir uma de astros de Hollywood. ‘‘A criançada adora tirar foto com eles’’, revela Monica Taveira, guia da cidade há 27 anos. Quem achar que uma polaroid com senador não é algo assim tão bacana, pode conferir, além das sessões no plenário e comissões, algumas obras de arte, como o belo painel em mármore branco e granito negro. Fica no Salão Negro da Câmara, e a autoria é de Athos Bulcão.

  Claudio não foi o único roqueiro a cantar a cidade. André Mueller, baixista da Plebe Rude, também tem uma música chamada Brasília (‘‘Capital da esperança, asas e eixos do Brasil’’). Seu monumento de estimação é o minhocão da UnB. ‘‘É uma cidade por si só, fechada, e a atmosfera é de um certo bucolismo. Essa junção das partes intelectual, artística e científica me atrai’’, comenta ele, que morou na Colina, e terminou o curso de economia na Universidade.

  Muitos monumentos de Brasília guardam histórias interessantes. A Igreja Nossa Senhora de Fátima (a Igrejinha da 308 Sul) é o primeiro templo de alvenaria do Distrito Federal. O maior pecado cometido na Igrejinha foi a destruição de três afrescos do artista Alfredo Volpi, considerados obras-primas, em fins do anos 60 durante uma reforma. Outro fato curioso foi presenciado pelo fotógrafo Gabriel Gondim, o maior retratista da capital, que já morreu. Às vésperas do tombamento da obra, ele viu um rapaz que chorava em silêncio por ali. Perguntou o porquê do choro. ‘‘É que meu pai ajudou a construir a igreja e agora vão tombá-la’’, lamentou o filho do pedreiro.

  Dentre os monumentos de Niemeyer, existe um de importância mais sentimental do que propriamente arquitetônica. É o Catetinho, primeira residência do presidente JK, que no ano passado recebeu 57.600 visitantes. É pouco se comparado ao Templo da Boa Vontade, onde estiveram mais de um milhão pessoas, claro indicador da vocação mística da capital da República.

  No Catetinho, o turista pode conferir o estilo de vida simples do presidente mineiro de Diamantina. Mesmo depois de construído o Palácio da Alvorada, Juscelino costumava voltar ao lugar, disfarçado. Nos tempo áureos, a antiga residência do presidente sediava animadas serestas, uma tradição que até hoje é mantida na cidade natal de JK. Situado numa área bucólica, cercada de mata ciliar e bichos do cerrado, o palácio de tábuas recebe estudantes do Brasil inteiro em busca do resgate histórico da construção da cidade.

  Monica Taveira, que trabalha há 27 anos como guia na cidade (hoje é assessora do ex-secretário de Turismo e deputado distrital Rodrigo Rollemberg) comenta que a causa de maior frisson nos turistas são os palácios, em especial o da Alvorada e do Planalto. ‘‘Apesar de não ser uma figura popular, eles querem ver onde trabalha o presidente, onde mora o presidente. E ficam indignados por que não podem entrar nos palácios’’.

  O único palácio que permite visitas é o Itamaraty, que contém uma verdadeira coleção de tesouros em seu luxuoso interior, misturando obras modernas a antigüidades do século XVIII. A começar pelo Meteoro, que fica no espelho d’água, autoria de Bruno Giorgi. No interior, esculturas de Maria Martins, Mary Vieira, Franz Weissman e o afresco de Alfredo Volpi, O Sonho de Dom Bosco, o único em toda a cidade.

  O monumento preferido do jornalista-pioneiro Adirson Vasconcelos não tem nada de grandioso ou artístico. É um rústico cruzeiro de madeira, perto do Memorial JK, onde foi rezada a primeira missa da futura capital, em 1957. O original está na Catedral. A cópia fica no ponto mais alto da cidade, a 1.172 metros de altitude. Vasconcelos chegou ao lugar que viria ser Brasília naquele ano como correspondente do Correio do Povo, jornal recifense, e presenciou a primeira missa, onde esteve Kubitschek, celebrada pelo arcebispo de São Paulo, Dom Carlos Carmelo de Vasconcellos Motta.

  ‘‘Ali foi reunida a primeira multidão de Brasília, umas duas mil pessoas’’, recorda. ‘‘Foi o batismo espiritual da construção da capital. Havia um ideal no ar, uma esperança. Deveriam dar um tratamento turístico àquela área, assim como para a pedra fundamental, que fica em Planaltina. Hoje em dia são monumentos esquecidos até mesmo pelo brasiliense’’, completa o jornalista, de 63 anos, que mora por aqui desde 1959, trabalhando na Agência Meridional de notícias, no Correio Braziliense, e na Fundação Assis Chateubriand.

  Já o cineasta Affonso Brazza, que registrou Brasília e as outras cidades do Distrito Federal em filmes como Inferno no Gama e No Eixo da Morte, elegeu o Catetinho como a imagem de Brasília. ‘‘É um lugar especial para a história da cidade’’, observa. O xodó do cineasta é mesmo o Lago Paranoá, lugar onde Brazza costumava brincar quando criança. ‘‘Em meu último filme (Tortura Selvagem: A Grade, que estréia nos cinemas em outubro), fiz o lago se transformar no mar’’, garante ele, nascido em São João do Piauí, mas morador de Brasília desde os 3 anos.

  Para quem deseja conhecer um pouco mais da história do homem que viabilizou a construção da capital da República, além do Catetinho, é imprescindível uma visita ao Memorial JK, inaugurado em 1980. Ali, onde o fundador da cidade desfruta o sono eterno, debaixo de um belíssimo vitral da francesa Marianne Perreti, o turista toma contato com um pouco da intimidade de JK.

  Destaque para sua biblioteca, que foi trazida intacta do Rio de Janeiro (inclusive com portas que não dão para lugar nenhum), documentos e fotos de várias fases da vida do presidente. Uma obra especial é o retrato dele feito por Cândido Portinari, além de fotografias de seu governo ‘‘50 anos em cinco’’, onde são mostrados fatos como o início da indústria automobilística no Brasil, a construção da Hidrelétrica de Três Marias, além, é claro, da construção de Brasília.


 
Que coisa linda

Palácio do Planalto
autor: Oscar Niemeyer
data em que ficou pronto: 1958
endereço: Praça dos Três Poderes
número de visitantes em 1999: não há visitação
obra de arte: painel de azulejos de Athos Bulcão

Congresso Nacional
autor: Oscar Niemeyer
data: 1959
endereço: Praça dos Três Poderes
número de visitantes em 1999: 62.993 (Câmara e Senado)
obra de arte: painel em cristal de Marianne Peretti

Palácio do Itamaratyautor: Oscar Niemeyer
data: 1962
endereço: Praça dos Três Poderes
número de visitantes em 1999: 11.197
obra de arte: afresco O Sonho de Dom Bosco, de Alfredo Volpi

Catedral
autor: Oscar Niemeyer
data: 1959
endereço: Esplanada dos Ministérios
número de visitantes em 1999: não há contagem
obra de arte: 15 óleos sobre tela, descrevendo os passos da paixão, de Di Cavalcanti

Teatro Nacional Cláudio Santoro
autor: Oscar Niemeyer
data: 1958
endereço: Setor Cultural Norte
número de visitantes em 1999: não há contagem
obra de arte: Escultura em bronze, de Alfredo Ceschiatti

Memorial JK
autor: Oscar Niemeyer
data: 1980
endereço: Eixo Monumental Oeste
número de visitantes em 1999: 57.600
obra de arte: Relevos em mármore branco, de Athos Bulcão

Igreja Nossa Senhora de Fátima
autor: Oscar Niemeyer
data: 1958
endereço: EQS 307/308
número de visitantes em 1999: não há contagem
obra de arte: revestimento externo em azulejos brancos e azuis, de Athos Bulcão

Palácio da Alvorada
autor: Oscar Niemeyer
data: 1957
endereço: SSP
número de visitantes em 1999: proibida visitação
obra de arte: escultura em bronze representando duas figuras femininas, de Alfredo Ceschiatti

Ermida Dom Bosco
autor: Oscar Niemeyer
data: 1957
endereço: Estrada Parque Dom Bosco
número de visitantes em 1999: não há contagem

Catetinho
autor: Oscar Niemeyer
data: 1956
endereço: Rodovia BR-040 Saída Sul KM 0
número de visitantes em 1999: 51.634

 

 


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