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A Brasília que me acolheu, no início dos anos 70, era uma cidade
provinciana, viva e solidária. Já não se caçava onça no tiro, como no
tempo dos pioneiros. Mas também não se institucionalizava a violência,
caçando trabalhador a escopeta, como em tempos presentes.
Problemas havia, como de sempre. Medos também, e muitos, principalmente
das malhas da ditadura. Sobretudo porque se sabia que, vez por outra,
algum filho de autoridade poderia passar das contas e cometer, impunemente,
um crime bárbaro como o estupro e morte da menina Ana Lídia, não obstante
a comoção pública.
Mas esses eram fatos isolados. Quase sempre, a violência era pouca
e a paz era muita na vida da maioria dos jovens que, como eu, transitavam
sem medo pelas escolas, bares e quadras da capital.
Estudante pobre, passei a maior parte dos anos 70 andando de carona.
Nos finais de semana, era sempre fácil voltar para casa em Formosa:
bastava subir da 403 Norte para o Eixão e levantar a mão. Em menos de
cinco minutos, um motorista solidário parava o carro, ainda que fosse
para adiantar a viagem apenas até algumas quadras à frente. Por precisão
e por paz de espírito, eu sempre entrava nos carros sem medo do motorista.
Outro dia, mesmo com a apreensão expressa de Clarissa e Eduardo,
meus filhos de 21 e 15 anos, resolvi voltar para casa de carona. Queria
viver de novo a prazerosa experiência do transporte gratuito e do papo
variado com o motorista solidário dos meus tempos de estudante. Isto
não foi possível porque, por duas horas, os carros não paravam. Resolvi
capitular quando um amigo parou e, em pânico, começou a expressar sua
angústia dizendo: ‘‘Você está louca. Isto é risco puro. Brasília já
não é mais uma roça. Saia já deste Eixo!’’
Brasília já não é mais uma roça... Da conversa curta e ríspida com
o amigo apavorado e cuidadoso, esta frase ficou, desde então, martelando
na minha cabeça. Meus filhos, jovens amantes desta nossa Brasília que
até pouco tempo atrás orgulhava-se de ser moderna, saudável, segura,
educada e limpa, me dizem que já não podem voltar andando da escola
porque nossas quadras estão impunemente cercadas de gangues dispostas
a sacrificar quem quer que seja em troca de uns possíveis míseros trocados
talvez a serem encontrados na carteira do caminhante incauto.
É pena ver que justo agora, quando tantas esperanças se concentram
na chegada do novo milênio, Brasília esteja desistindo da sua qualidade
de vida provinciana e feliz, arduamente conquistada e mantida em tempos
de construção solidária e coletiva, para optar pela banda podre do desgoverno,
da corrupção e da violência adotadas como política de governo por nossos
gerentes de turno.
Não há motivo, entretanto, para a desesperança. Haverá de chegar
o momento em que a comunidade brasiliense, saudosa da sua vida simples
e boa, clamará por sua Paz no Trânsito, por sua Saúde em Casa, por seu
Pólo Ecológico, por suas crianças com Bolsa-Escola. Nesse dia, veremos
restaurada a cidadania plena que insiste em nos ser roubada.
A crença nessa minha utopia se reforça porque descobri que a banda
saudável da nossa gente insiste em prosperar. Na outra noite, dona Zuma,
minha vizinha de porta, que ainda faz belos bordados à mão, me parou
depois de um dia pesado de trabalho para trocar dois dedos de prosa.
Em uma cidade onde as mulheres ainda param para falar de filhos e de
bordados, a próxima década tem tudo para trazer consigo muita paz e
muita esperança.
* Zezé Weiss é diretora executiva da organização não-governamental
Missão Criança
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