FALTAM 14 DIAS PARA BRASÍLIA COMPLETAR 40 ANOS

Mergulhar é preciso

Quer pescar, nadar, tomar um chopinho na areia, andar de barco? Corra para o Lago Paranoá. Pena que o acesso a ele ainda seja restrito

 

Lisandra Paraguassú
Da equipe do Correio

Fotos: Jefferson Rudy

Os mais afortunados têm melhores chances de aproveitar a limpidez do lago que outrora foi natural

Crianças brincam numa das prainhas dos 40 quilômetros quadrados do Lago Paranoá: a praia de Brasília está em boas condições para banho e pesca, mas convive com a ameaça do assoreamento

E dizem que Brasília não tem praia. O que fazem, então, o professor alemão e sua namorada brasileira tomando sol na areia? Ou o casal de cariocas que passa suas tardes pescando? Ou a família que todos os sábados põe o jet ski na água? E ainda, onde estão as 13 mil embarcações registradas na Capitania dos Portos? A praia candanga não é salgada nem sempre é acessível, mas junta nas suas margens alguns milhares de freqüentadores que não reclamam dos 1.200 quilômetros de distância do mar. Antes, trazem o que há de bom no litoral para o meio do cerrado, para a beira do Lago Paranoá.

  Há quem ainda não o tenha descoberto. Mas o lago projetado para abrigar nas suas margens a capital do país serve para muita gente fingir que não deixou para trás as areias de Copacabana e Itapoã. É só olhar com atenção, e um passeio às margens do Paranoá mostra pescadores entusiasmados, crianças brincando na água, banhos de sol e todos os tipos de esportes aquáticos encontráveis em qualquer parte do litoral brasileiro. Há até mesmo um chopinho na beira da ‘‘praia’’, no Projeto Orla, onde gente caminha do calçadão, ouvindo a MPB que toca nos bares.

  ‘‘Não tem Ipanema, mas tem essa prainha. E a gente vai tocando o barco’’, brinca José Lima Silva, 57 anos, militar transferido do Rio de Janeiro para Brasília em 1973. Todos os sábados, Silva e a mulher, Nely Rodrigues, 53, marcam presença em uma pequena faixa de areia ao lado da Ponte do Bragueto, no Lago Norte. Chegam com molinetes, iscas especiais, guarda-sol e cadeiras para passar a tarde pescando carás e esperando por uma carpa, que, às vezes, aparece. ‘‘Para quem gosta de pesca, é o melhor passatempo’’, afirma Nely.

  Pescadores não faltam na beira do lago, apesar da oferta pesqueira não ser das melhores — a grande maioria são carás que cabem na palma da mão, com a rara exceção de algumas carpas e tucunarés para os mais sortudos. José Veras, vigilante desempregado, 55 anos, nunca conseguiu pegar uma carpa em todas as vezes que saiu da Ceilândia para pescar no Bragueto. ‘‘Isso é só com molinete, mas só esses peixinhos já está bom. Melhor que ficar em casa’’, diz. Ao menos os carás servem de almoço, fritados em um fogãozinho na beira do lago. ‘‘Com uma cervejinha não tem coisa melhor’’.

  O Bragueto é um dos locais preferidos dos pescadores do Paranoá, mas não é único. Os lados da Ponte Costa e Silva é outra concentração, assim como na prainha da ML 5, no setor de Mansões do Lago Norte. Lá, onde os carros podem chegar quase até a beira da água, Anselmo Almeida Silveira, 38 anos, a mulher Vera e o filho Ronison, 9, estacionam a perua escolar que usam para trabalhar durante a semana e passam a tarde em busca dos carás. ‘‘É o nosso mar de água doce. Quando passa uma lancha faz até ondas’’, diz Anselmo, que trocou as praias de Aracaju por Brasília aos 7 anos. No domingo, Anselmo e a família não vão à prainha. ‘‘Nós gostamos de pescar, e aqui no domingo enche muito’’, conta.

  Enche mesmo. Dia de sol, dia de praia para quem mora no Paranoá, no Varjão, Sobradinho, Planaltina. Gente que chega para curtir o lago em meio ao mato crescido. No último domingo, pelo menos três dezenas de carros se amontoavam na praia, numa mistura de Golfs com Kombis antigas, música techno com pagode, Zé Ramalho com forró. ‘‘É o lazer que a gente tem, aqui ninguém é discriminado, é de graça’’, explica Carlos Augusto Costa, 32 anos, gerente de loja no Paranoá. ‘‘Quem tem dinheiro tem outras formas de se divertir, mas nós não. Podiam cuidar melhor dessa prainha.’’

  As reclamações são muitas: faltam segurança, lugar para estacionar os carros, latas de lixo, limpeza no mato crescido. Mas ninguém se nega a mergulhar nas águas do lago, que hoje, segundo o Instituto de Estudos do Meio Ambiente (Iema), é limpa o suficiente para banho em 92% da área — mais do que se pode dizer de muitas praias famosas, como o Rio de Janeiro.

  Há quem ainda lembre de 10 anos atrás, quando o lago andava tão sujo que uma enorme mortandade de peixes deixou a cidade cheirando mal por dias. De lá para cá, no entanto, as estações de tratamento da Caesb ganharam equipamentos de último tipo, e o lago voltou a ser o que os arquitetos da capital imaginaram: lugar de lazer e diversão.

  ‘‘Eu ficava meio desconfiado de pegar alguma micose, alguma coisa de pele’’, conta Renildo Lopes, 30 anos. Hoje, o morador do Núcleo Bandeirante não tem medo de entrar na água, e divide as areias (isso mesmo, areias) da prainha ao lado da Ponte Costa e Silva, com o professor Peter Zörnig, alemão de Dortmund. Nadador convicto, Peter usa as águas do Paranoá para treinar desde que veio dar aulas na Universidade de Brasília, há quatro anos. Na Alemanha, costumava usar piscinas públicas. ‘‘Aqui não temos essa opção, então a melhor alternativa é o lago’’, acredita.

  O Paranoá virou mesmo a praia de Brasília. Em dias de sol, lanchas, veleiros, jet skis dominam a paisagem. Viviane Bezerra, 12 anos, anda com o pai, Carlos Antônio, e o irmão Rodrigo, 14 anos. E faz manobras de gente grande. ‘‘Todo final de semana que a gente está com pai vem para cá. É a melhor coisa’’, diz.

  Grátis e disponível, mesmo que nem sempre acessível. A maior queixa dos freqüentadores não chega a ser o descuido com as margens, mas a falta de lugares para chegar até ao lago. A causa é uma só: boa parte das margens é dominada por clubes e casas de moradores. Não era para ser assim.

  O projeto da cidade previa que, mesmo nas pontas de quadras dos Lagos Norte e Sul, deveria haver corredores de passagem para moradores, assim como uma faixa livre na margem que, por causa da legislação ainda confusa, ainda não se sabe se é de 15 ou 30 metros. ‘‘O problema é que muitos moradores compraram dois terrenos vizinhos e fecharam essa faixa’’, explica o diretor do Iema, Fernando Fonseca.

  Um problema que nasceu com a cidade, e ainda não tem solução. A intenção do Iema é que as pessoas que usam hoje essa faixa de terra pública passem a pagar uma taxa por isso. ‘‘Atualmente, em muitos lugares não há mais como reverter a situação, mas podíamos ter essa contribuição para trabalhar em outras áreas do lago’’, diz Fonseca. Uma das idéias é limpar e organizar pontos do lago como a prainha da ML 5.

  A primeira coisa a ser feita, no entanto, é organizar o uso do lago. E isso será feito a partir de um livro que está sendo preparado pelo Iema que analisa todos os pontos que afetam a preservação do Paranoá. Ali estarão mapas com os pontos onde o lago está sendo afetado pelas construções, onde há áreas ocupadas irregularmente, onde podem ser feitos projetos para lazer, os parques ecológicos que estão sendo criados nas margens e sugestões de mudanças ou novas leis para a legislação de uso do Paranoá. ‘‘Uma equipe de técnicos está trabalhando nisso. Será uma espécie de guia para o uso ecológico e sustentável’’, afirma Fonseca.

  Um guia para evitar que o lago perca ainda mais espaço para as construções e o assoreamento, um problema que já tomou da praia candanga 2,3 milhões de metros quadrados de superfície, o equivalente a 213 campos oficiais de futebol. Um guia para que os brasilienses possam aprender a aproveitar sua praia. .


 
Paranoá, o índio apaixonado

‘‘Conta a lenda que tudo começou quando um curumim da tribo dos goiases, que viviam no Planalto muito antes dos primeiros bandeirantes, abandonado pelos pais, recebeu uma grande missão de Tupã. Teria esse índio, cujo nome era Paranoá, a missão de levar uma vida casta, à espera de uma bela mulher que, junto com ele, renovaria o sangue dos goiases que estavam em debandada para outras terras. O pobre índio recebeu essa difícil incumbência, solitário, porém resignado, pois sabia que Tupã jamais faltara com o prometido. E assim passou anos e anos à espera da prometida, sem conhecer o amor de outras mulheres. Até que um belo dia, já homem formado, Paranoá, enquanto se refrescava num caiabu, ouviu um grande trovão. A mata estremecia, o cerrado estremecia, como a golpes de machados. Era a anunciada por Tupã que chegava: Brasília, uma bela mulher alada, mas bela e diferente das demais. Jaci (a Lua) que durante todos esses anos amou em silêncio Paranoá, presenciava o encontro. Vendo a possibilidade de perder para sempre o seu amor, colocou-se entre os dois e pela última vez refletiu-se nos olhos de Paranoá e partiu lastimando o seu amor impossível. Ele, por ela fascinado, fixou seu olhar na Lua e se viu apaixonado. Tupã, irado, ante a indecisão de Paranoá, que não soube merecer a anunciada, transformou-o num lago de braços abertos, sem contudo poder jamais abraçar aquela que tanto esperara. Brasília permaneceu no Planalto alheia ao destino do guerreiro, enquanto a Lua, sua amada, jamais o esqueceu e o contempla lá de cima, nas noites de luar.’’

* Do livro A Lenda do Lago Paranoá, de Guido Modin

 


Severo e majestoso
 
 

‘‘Enfim, de jornada em jornada, estudando tudo, cheguei a um vastíssimo vale banhado pelos rios Torto, Gama, Vicente Pires, Riacho Fundo, Bananal e outros; impressionou-me muitíssimo a calma severa e majestosa desse vale. A todas essas riquezas oferecidas ao homem laborioso, nesse centro do Planalto, juntam-se mais os recursos e as vantagens que lhe proporcionarão ainda abundantes águas piscosas. Entre dois grandes chapadões conhecidos na localidade pelos nomes de Gama e Paranoá, existe grande planície sujeita em parte a ser coberta pelas águas da estação chuvosa; outrora era um lago devido à junção de diferentes cursos de água, formando o rio Paranoá; o excedente deste lago, atravessando uma depressão do chapadão, acabou, com o carrear dos saibros e mesmo das pedras grossas, por abrir nesse ponto uma brecha funda, de paredes quase verticais, pela qual se precipitam hoje todas as águas dessas alturas. É fácil compreender que, fechando essa brecha com uma obra de arte, forçosamente a água tornará ao seu lugar primitivo e formará um lago navegável em todos os sentidos. Além da utilidade de navegação, o cunho de aformoseamento que essas belas águas correntes haviam de dar à nova Capital despertariam certamente a admiração de todas as nações.’’

* Glaziou, botânico da Missão Cruls que, em 1893, fez a primeira visita ao cerrado para identificar um local para a nova capital


Calcula-se que existam hoje algo entre 1,5 mil e 2 mil toneladas de peixe no lago, a maioria tilápias.
A transparência da água já chega a seis metros, quando antes da limpeza era de 60 centímetros.
A lâmina d’água perdeu 2,3 milhões de metros quadrados de superfície, o equivalente a 213 campos oficiais de futebol.
O Paranoá tem 40 quilômetros quadrados de área e 560 milhões de metros cúbicos de água. A profundidade média é de 14,3 metros, chegando a 38 metros em alguns pontos.
A água é própria para banho em 92% do lago.
Existem 13 mil embarcações registradas na Capitania dos Portos

O lugar perfeito
 
 
A idéia do Lago Paranoá nasceu junto com a da capital. Em 1893, a expedição do astrônomo Luiz Cruls, encarregada de estudar o Planalto Centra e demarcar a região mais adequada para a construção da cidade, identificou o lugar perfeito para a formação de um lago (veja texto nesta página). Sessenta e dois anos mais tarde, uma comissão de planejamento urbanístico reuniu-se para traçar as regras que deveriam nortear o desenho da nova capital. O Memorial Preliminar, dos urbanistas Raul Pena Firme, Roberto Lacombe e José de Oliveira Reis, já previa: ‘‘Projetou-se uma barragem a jusante do rio, que o transforma num lago ornamental, destinado aos esportes náuticos, limitado pelas margens dos rio Bananal e Gama, transformadas em praias artificiais, cobertas de buritizal, numa extensão aproximadamente de dez quilômetros, obtendo-se este motivo paisagístico de encantadora apreciação...’’. E lá estava de novo o lago, obrigatório no projeto de qualquer candidato a desenhar a capital. O Lago Paranoá nasceu antes mesmo de Juscelino Kubitschek comprar a idéia de construir Brasília.
 


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