FALTAM 13 DIAS PARA BRASÍLIA COMPLETAR 40 ANOS

Ai que saudade me dá

Eles agora são famosos e estão longe daqui. Mas não se esquecem da Brasília onde viveram antes da fama

 

Irlam Rocha Lima
Da equipe do Correio

Carlos Vieira 12.2.00

A 109 Sul e o Clube de Vizinhança estão na memória da infância e da adolescência de Zélia Duncan

Ney Matogrosso se lembra dos passeios pela W3 Sul. Zélia Duncan guarda na memória a turma do Colégio Marista. Oswaldo Montenegro não esquece do Concerto Cabeças. Dinho Ouro Preto diz que a melhor coisa era o agito no Gilbertinho. Françoise Fourton sonha com o pôr-do-sol. Oscar do basquete se emociona ao falar do Unidade de Vizinhança. Fred, dos Raimundos, não trocava a coxinha de milho do Pamonhão Kalu por nada. Ricarda, da Seleção Brasileira de Vôlei, sempre se recorda dos passeios no Parque da Cidade.

  Mas, nas reminiscências de antigos moradores de Brasília, que fazem sucesso lá fora, uma quase unanimidade é o bate-papo no Beirute, o tradicional bar e restaurante da 109 Sul, tido como ‘‘a cara da cidade’’, ponto de encontro das mais diversas tribos.

  Saudosista assumido, Ney Matogrosso não esconde sua preferência pela cidade que conheceu e viveu entre 1961 e 1966 e, depois, de 1968 a 1970. ‘‘Brasília era muito interessante e avançada para a época. Na UnB aconteciam coisas que não eram vistas em São Paulo ou no Rio de Janeiro. O concerto da Orquestra de Nuremberg, por exemplo, foi gratuito.’’

  Ney, que se descobriu artista em Brasília, fala com certa dose de nostalgia dos passeios pela W3 Sul, na década de 60, ‘‘onde todo mundo se encontrava’’. Ele conta que costumava ir, com os amigos, assistir a filmes no Cine Cultura (onde hoje funciona o Instituto Candango de Solidariedade) e depois comer pizza no Caravelle, que ficava ao lado, na 507 Sul.

  Durante a estada aqui, o cantor morou na 103 e 108 Sul, e trabalhou na unidade de Pediatria do Hospital Distrital (atual Hospital de Base). ‘‘Não me agrada a Brasília de hoje. A cidade, cercada de favelas por todos os lados, tem todos os problemas das grandes metrópoles e perdeu a qualidade de vida que era uma das suas características.’’

VIZINHANÇA

  Outra que guarda ‘‘ótimas lembranças’’ da capital é a cantora e compositora Zélia Duncan. ‘‘Está tudo bem nítido na memória. Como é que vou esquecer da 109 Sul, a quadra em que morei, no bloco C, por mais de 20 anos? Do Unidade de Vizinhança, clube onde jogava basquete e nadava; da Academia Lúcia Toller, onde fiz balé? São lugares e coisas que marcaram minhas infância e adolescência.’’

  Das recordações de Zélia fazem parte também a passagem pelo Colégio Marista, onde fez primeiro e segundo grau, tocou na banda e integrou a equipe de basquetebol. ‘‘Foram contemporâneos meus no Marista o Dado Villa-Lobos (guitarrista da Legião Urbana); o Dinho Ouro Preto (vocalista do Capital Inicial); e o Marcelo Saback (ator e diretor de teatro). Com o Marcelo fiz o primeiro show da minha vida, na Sala Funarte’’. Zélia lembra até o dia: 19 de maio de 1981.

  Ela lembra que foi dirigida no musical Veja Você Brasília, por Oswaldo Montenegro. O Menestrel, que começou a carreira artística na década de 70, em Brasília, recebeu no ano passado o título de cidadão honorário. A razão: é o compositor que fez mais músicas falando da cidade.

  Isso desde o tempo do Concertos Cabeças, para Montenegro uma das melhores lembranças que guarda daqui. ‘‘Foi no Cabeças, no gramado da 311 Sul, que cantei em público pela primeira vez Léo e Bia. E com os personagens da música na platéia. Léo Roberto (hoje microempresário), e os irmãos Paulo André e Ciça (músicos) eram companheiros inseparáveis do autor de Pra Longe do Paranoá, nas idas ao Beirute, e à UnB, ‘‘onde assistíamos a concertos.’’

  Montenegro, ex-morador da 104 Sul, quando volta à capital fica na casa dos pais no Lago Sul, e costuma ir à Academia de Tênis, ‘‘ver filmes, jantar e bater papo com Ulisses Machado e Raíke Macau, também compositores, e Léo. Engraçado, nunca mais voltei ao Beirute, que gostava tanto.’’

NA BARRAGEM

  Beiruteana assídua, a atriz Françoise Fourton lembra bem da segunda vez em que morou em Brasília, de 1979 a 1984. ‘‘Era onde encontrava os amigos depois das peças, dos shows. Adorava ver o Liga Tripa tocando. Costumava ir à Barragem do Paranoá, onde tinha um restaurante de comida caseira ótimo.’’

  Mas, inesquecível mesmo, para Françoise, é o pôr-do-sol de Brasília, ‘‘o mais lindo do mundo’’. Carioca, ela era criança quando chegou à nova capital, antes mesmo da inauguração, em 1959. ‘‘Sou candanga legítima, morei em acampamento e testemunhei o crescimento da cidade até 1973. Em 1979, quando voltei, casada, fui morar na 407 Sul e estudar teatro na Faculdade da Dulcina de Moraes’’, conta.

  O vocalista do Capital Inicial Dinho Ouro Preto é outro que viveu na cidade em períodos intercalados: 1965 a 1966, 1973 a 1977 e 1979 a 1984. Filho de pai diplomata, morou em várias quadras do Plano Piloto, mas sente saudade mesmo é da última fase, quando participou ativamente do movimento BSB Rock, na primeira metade da década de 80.

  ‘‘Eu ia com freqüência ao Gilbertinho, ponto de encontro dos roqueiros, mas marcava presença, igualmente, na 104 Sul, mais especificamente na quadrinha de futebol de salão, para ouvir rock e andar de skate. Estive lá no ano passado, na gravação de imagens para o programa dos Paralamas (do Sucesso) na HBO. A gente tomava porre de vinho na Adega (no Cine Centro São Francisco).’’

  Atleta desde o começo da adolescência, Ricarda, líbero da Seleção Brasileira de Voleibol, nunca foi de tomar bebida alcoólica. No máximo um refrigerante, nos passeios ao Parque da Cidade ou ao Centro Comercial Gilberto Salomão. ‘‘Achava legal a Feira da Torre, gostava de comprar artesanato lá’’, conta a ex-moradora do Guará e de Taguatinga.

  Ex-jogadora da AABB, onde foi descoberta, Ricarda já passou por Blumenau (SC), Rio de Janeiro (RJ), São Paulo (SP), e agora está em Sorocaba, São Paulo. ‘‘Agora só volto a Brasília no final do ano e sempre vou à Esplanada dos Ministérios apreciar a decoração de Natal.’’ A propósito, ela diz que não gostou da decoração natalina do ano passado.

  Quem também pouco visita os pais na cidade é Oscar Schmidt, o maior nome do basquetebol brasileiro em todos os tempos. Ele morou aqui, na 710 Sul, entre 1971 e 1973, período em que começou a carreira, jogando na equipe infanto-juvenil do Unidade de Vizinhança, na entrequadra 108/109 Sul, sob o comando dos treinadores Miúra e Zezão — já falecido.

  E é disso que ele — atualmente jogando no Flamengo —, se lembra com carinho. ‘‘Naquele tempo, quando não estava treinando no Vizinhança, costumava ir pescar no Lago Paranoá. Quando volto à cidade, como bom potiguar, acabo indo comer carne-de-sol naquele restaurante da 111 Sul.’’

  Fred, o baterista dos Raimundos, esquecia-se das origens nordestinas para se esbaldar com as coxinhas de milho do Pamonhão Kalu. ‘‘Comia aquela coxinha desde a época em que o Pamonhão era na 110 Sul, em frente ao Beirute. Até hoje, não deixo de passar no Pamonhão (na 105 Norte). Na última vez que estive lá, cheguei a dar autógrafo.’’

  Fred, ‘‘brasiliense legítimo’’, morou na cidade entre 1972 e 1994, primeiro na 305 e depois na 112 Norte. ‘‘Houve um período em que ir ao Gilbertinho era de lei. De lá saía para festas em embaixadas, em mansões do ParkWay. Ah, não dá para esquecer do Gates, que sempre deu espaço para as novas bandas e para muitos músicos que hoje brilham nacionalmente.’’


Personagem do dia
Palavra de craque

Juliana Monteiro
Especial para o Correio
Paulo de Araújo 25.8.98

O lugarejo não existe mais. Chamava-se Flexeras, ficava na Ilha do Governador, Rio de Janeiro, e sobrevive apenas na memória dos seus filhos. Um filho ilustre do lugar nasceu em 16 de maio de 1925 e é considerado o melhor lateral esquerdo de todos os tempos. ‘‘Me causa tristeza. Por sorte, não presenciei a destruição do meu lugarejo. Era pobre, mas muito bonito. Tenho saudade, mas sempre defendo o lugar onde eu vivo e respiro. E eu vivo em Brasília’’, emociona-se Nilton Santos (foto).

Aos 74 anos, Nilton Santos não se sente deslumbrado com o sucesso. Começou a jogar futebol quando servia à Aeronáutica. Era um ‘‘soldado que jogava no time dos oficiais’’.

O incentivo era oportuno: ‘‘Tinha um major-centro avante que me oferecia um dia de folga para cada passe meu que resultasse em gol dele. Eu acabava passando três dias em casa.’’

O sucesso no time dos oficiais resultou no convite para jogar no Botafogo. ‘‘Tinham muitos jogadores iguais a mim que tentaram mas não conseguiram. Eu tive sorte, estava no lugar certo na hora certa. Aconteceu comigo mas podia ter acontecido com outros’’, conta.

O Botafogo foi o único time de Nilton Santos. ‘‘E olha que nunca fiz essa babaquice de beijar camisa depois do gol’’, conta. Em 17 anos jogando pelo Botafogo, Nilton Santos foi campeão 26 vezes. Casado pela segunda vez, com dois filhos e uma netinha, Nilton Santos dedica-se a sua escolinha de futebol.

O craque chegou a Brasília há 12 anos e só sai da cidade no fim da vida, para curtir a velhice perto do mar. Mas avisa: ‘‘Tenho um medo danado de morrer. Se soubesse que ia ter que morrer um dia, não tinha nem nascido. Mas acho que não vou morrer.’’

Por que veio pra Brasília?
Para abrir minha escolinha de futebol.

O que mais gosta aqui?
Gosto do clima e do espaço. Brasília é terra de todo mundo. Você já viu o sol nascer por aqui? Não preciso dizer mais nada!

O que mais detesta?
Essa gente (os políticos) que vem, faz essa zona e vai embora pra terra dele.

O que mais falta à cidade?
Falta mais apoio a iniciativas como a minha, de levar oportunidades para essa garotada.

Qual o primeiro lugar onde você levaria um turista?
Levaria na Torre, pra olhar a cidade toda do alto.

O dia ou a noite de Brasília?
Noite, para mim, é para dormir. Prefiro o dia.

De onde a vista de Brasília é mais bonita?
Da Torre.

O que você responde quando alguém fala mal de Brasília?
Tenho duas respostas: se a pessoa não conhece a cidade, está falando besteira e se conhece tem mau gosto.

 

 


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