Ney Matogrosso se lembra dos passeios pela W3 Sul.
Zélia Duncan guarda na memória a turma do Colégio Marista. Oswaldo Montenegro
não esquece do Concerto Cabeças. Dinho Ouro Preto diz que a melhor coisa
era o agito no Gilbertinho. Françoise Fourton sonha com o pôr-do-sol.
Oscar do basquete se emociona ao falar do Unidade de Vizinhança. Fred,
dos Raimundos, não trocava a coxinha de milho do Pamonhão Kalu por nada.
Ricarda, da Seleção Brasileira de Vôlei, sempre se recorda dos passeios
no Parque da Cidade.
Mas, nas reminiscências de antigos moradores de
Brasília, que fazem sucesso lá fora, uma quase unanimidade é o bate-papo
no Beirute, o tradicional bar e restaurante da 109 Sul, tido como ‘‘a
cara da cidade’’, ponto de encontro das mais diversas tribos.
Saudosista assumido, Ney Matogrosso não esconde
sua preferência pela cidade que conheceu e viveu entre 1961 e 1966 e,
depois, de 1968 a 1970. ‘‘Brasília era muito interessante e avançada
para a época. Na UnB aconteciam coisas que não eram vistas em São Paulo
ou no Rio de Janeiro. O concerto da Orquestra de Nuremberg, por exemplo,
foi gratuito.’’
Ney, que se descobriu artista em Brasília, fala
com certa dose de nostalgia dos passeios pela W3 Sul, na década de 60,
‘‘onde todo mundo se encontrava’’. Ele conta que costumava ir, com os
amigos, assistir a filmes no Cine Cultura (onde hoje funciona o Instituto
Candango de Solidariedade) e depois comer pizza no Caravelle, que ficava
ao lado, na 507 Sul.
Durante a estada aqui, o cantor morou na 103 e 108
Sul, e trabalhou na unidade de Pediatria do Hospital Distrital (atual
Hospital de Base). ‘‘Não me agrada a Brasília de hoje. A cidade, cercada
de favelas por todos os lados, tem todos os problemas das grandes metrópoles
e perdeu a qualidade de vida que era uma das suas características.’’
VIZINHANÇA
Outra que guarda ‘‘ótimas lembranças’’ da capital
é a cantora e compositora Zélia Duncan. ‘‘Está tudo bem nítido na memória.
Como é que vou esquecer da 109 Sul, a quadra em que morei, no bloco
C, por mais de 20 anos? Do Unidade de Vizinhança, clube onde jogava
basquete e nadava; da Academia Lúcia Toller, onde fiz balé? São lugares
e coisas que marcaram minhas infância e adolescência.’’
Das recordações de Zélia fazem parte também a passagem
pelo Colégio Marista, onde fez primeiro e segundo grau, tocou na banda
e integrou a equipe de basquetebol. ‘‘Foram contemporâneos meus no Marista
o Dado Villa-Lobos (guitarrista da Legião Urbana); o Dinho Ouro Preto
(vocalista do Capital Inicial); e o Marcelo Saback (ator e diretor de
teatro). Com o Marcelo fiz o primeiro show da minha vida, na Sala Funarte’’.
Zélia lembra até o dia: 19 de maio de 1981.
Ela lembra que foi dirigida no musical Veja Você
Brasília, por Oswaldo Montenegro. O Menestrel, que começou a carreira
artística na década de 70, em Brasília, recebeu no ano passado o título
de cidadão honorário. A razão: é o compositor que fez mais músicas falando
da cidade.
Isso desde o tempo do Concertos Cabeças, para Montenegro
uma das melhores lembranças que guarda daqui. ‘‘Foi no Cabeças, no gramado
da 311 Sul, que cantei em público pela primeira vez Léo e Bia. E com
os personagens da música na platéia. Léo Roberto (hoje microempresário),
e os irmãos Paulo André e Ciça (músicos) eram companheiros inseparáveis
do autor de Pra Longe do Paranoá, nas idas ao Beirute, e à UnB, ‘‘onde
assistíamos a concertos.’’
Montenegro, ex-morador da 104 Sul, quando volta
à capital fica na casa dos pais no Lago Sul, e costuma ir à Academia
de Tênis, ‘‘ver filmes, jantar e bater papo com Ulisses Machado e Raíke
Macau, também compositores, e Léo. Engraçado, nunca mais voltei ao Beirute,
que gostava tanto.’’
NA BARRAGEM
Beiruteana assídua, a atriz Françoise Fourton lembra
bem da segunda vez em que morou em Brasília, de 1979 a 1984. ‘‘Era onde
encontrava os amigos depois das peças, dos shows. Adorava ver o Liga
Tripa tocando. Costumava ir à Barragem do Paranoá, onde tinha um restaurante
de comida caseira ótimo.’’
Mas, inesquecível mesmo, para Françoise, é o pôr-do-sol
de Brasília, ‘‘o mais lindo do mundo’’. Carioca, ela era criança quando
chegou à nova capital, antes mesmo da inauguração, em 1959. ‘‘Sou candanga
legítima, morei em acampamento e testemunhei o crescimento da cidade
até 1973. Em 1979, quando voltei, casada, fui morar na 407 Sul e estudar
teatro na Faculdade da Dulcina de Moraes’’, conta.
O vocalista do Capital Inicial Dinho Ouro Preto
é outro que viveu na cidade em períodos intercalados: 1965 a 1966, 1973
a 1977 e 1979 a 1984. Filho de pai diplomata, morou em várias quadras
do Plano Piloto, mas sente saudade mesmo é da última fase, quando participou
ativamente do movimento BSB Rock, na primeira metade da década de 80.
‘‘Eu ia com freqüência ao Gilbertinho, ponto de
encontro dos roqueiros, mas marcava presença, igualmente, na 104 Sul,
mais especificamente na quadrinha de futebol de salão, para ouvir rock
e andar de skate. Estive lá no ano passado, na gravação de imagens para
o programa dos Paralamas (do Sucesso) na HBO. A gente tomava porre de
vinho na Adega (no Cine Centro São Francisco).’’
Atleta desde o começo da adolescência, Ricarda,
líbero da Seleção Brasileira de Voleibol, nunca foi de tomar bebida
alcoólica. No máximo um refrigerante, nos passeios ao Parque da Cidade
ou ao Centro Comercial Gilberto Salomão. ‘‘Achava legal a Feira da Torre,
gostava de comprar artesanato lá’’, conta a ex-moradora do Guará e de
Taguatinga.
Ex-jogadora da AABB, onde foi descoberta, Ricarda
já passou por Blumenau (SC), Rio de Janeiro (RJ), São Paulo (SP), e
agora está em Sorocaba, São Paulo. ‘‘Agora só volto a Brasília no final
do ano e sempre vou à Esplanada dos Ministérios apreciar a decoração
de Natal.’’ A propósito, ela diz que não gostou da decoração natalina
do ano passado.
Quem também pouco visita os pais na cidade é Oscar
Schmidt, o maior nome do basquetebol brasileiro em todos os tempos.
Ele morou aqui, na 710 Sul, entre 1971 e 1973, período em que começou
a carreira, jogando na equipe infanto-juvenil do Unidade de Vizinhança,
na entrequadra 108/109 Sul, sob o comando dos treinadores Miúra e Zezão
— já falecido.
E é disso que ele — atualmente jogando no Flamengo
—, se lembra com carinho. ‘‘Naquele tempo, quando não estava treinando
no Vizinhança, costumava ir pescar no Lago Paranoá. Quando volto à cidade,
como bom potiguar, acabo indo comer carne-de-sol naquele restaurante
da 111 Sul.’’
Fred, o baterista dos Raimundos, esquecia-se das
origens nordestinas para se esbaldar com as coxinhas de milho do Pamonhão
Kalu. ‘‘Comia aquela coxinha desde a época em que o Pamonhão era na
110 Sul, em frente ao Beirute. Até hoje, não deixo de passar no Pamonhão
(na 105 Norte). Na última vez que estive lá, cheguei a dar autógrafo.’’
Fred, ‘‘brasiliense legítimo’’, morou na cidade
entre 1972 e 1994, primeiro na 305 e depois na 112 Norte. ‘‘Houve um
período em que ir ao Gilbertinho era de lei. De lá saía para festas
em embaixadas, em mansões do ParkWay. Ah, não dá para esquecer do Gates,
que sempre deu espaço para as novas bandas e para muitos músicos que
hoje brilham nacionalmente.’’