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NOSSO FUTURO

Apostas para reduzir desemprego

Alta tecnologia, agricultura orgânica, turismo rural: empreendimentos promissores

 

Newton Araújo Jr.
Da equipe do Correio

Fotos: Jefferson Rudy

Newton: ‘‘O serviço de microcrédito do Sebrae tem favorecido pequenos artesãos da periferia de Brasília’’

Tereza Cristina decidiu apostar no turismo rural

Brasília hoje tem 20,6% da população desempregada. São mais de 180 mil pessoas sem emprego, segundo dados oficiais. Mantendo-se os atuais índices de crescimento da população, se nada for feito agora nos próximos dez anos a situação social será absurdamente grave. Hoje já existem empreendimentos que estão dando certo e que apontam para a possibilidade de criação de empregos nesse futuro próximo. Nada para soltar foguetes, pois a situação não está sob controle e há muito o que fazer, mas fazer agora.

  Há discordâncias entre estudiosos do tema sobre quais os melhores caminhos para se investir. Não há um único caminho, com certeza. Mas todas as possibilidades apontadas como vocações da cidade precisam ser experimentadas. Seja na área de alta tecnologia, na de agricultura orgânica ou de turismo rural, nos micros e pequenos empreendimentos ou mesmo nos empreendimentos tradicionais, como as grandes indústrias.

  A aposta em alta tecnologia é uma das mais fortes no DF. A Wise Informática foi criada em 1988, passou três anos e meio na incubadora de empresas do Centro de Apoio ao Desenvolvimento Tecnológico (CDT) da Universidade de Brasília (UnB), e hoje caminha com as próprias pernas, produzindo equipamentos para testar a eficácia de redes de comunicação de dados. É a única no Brasil na área e atende a todas as empresas resultantes da privatização do sistema Telebrás e grandes bancos. Suas únicas concorrentes no mundo são uma empresa alemã e uma sueca.

  ‘‘Temos um faturamento anual de R$ 1,5 a 2 milhões e estamos construindo a nossa sede este ano’’, conta Suely Maria Silva, 40 anos, uma das sócias da Wise. Ela reconhece que desenvolver hardware no Brasil é complicado, principalmente para quem trabalha num nicho de mercado tão específico. Mas nada que desestimule a empresa. Ao contrário, eles pensam em expansão. Hoje a Wise emprega 15 pessoas, além de outros contratos temporários, mas esse número deve crescer nos próximos anos.

  ‘‘Cada emprego criado na área de tecnologia produz mais seis ou sete indiretos’’, afirma o professor Afonso Bermudes, que dirige o CDT. De 1989 até o ano passado, 40 empresas passaram pela incubadora de empresas. Nos últimos dois anos, as empresas incubadas criaram 154 empregos. ‘‘As empresas de tecnologia geram emprego, renda e impostos’’, lembra Bermudes. ‘‘E isso sem incentivos ou facilidades tributárias.’’

MICROEMPRESAS

  Das 700 empresas de (todos os ramos da) informática do DF, quase 90% são microempresas. E apesar de tanta gente na área, somente 10% das necessidades são supridas por elas. Há, portanto, um longo campo a ser preenchido. Muitas novas empresas (e empregos) ainda serão criadas. ‘‘Em alguns países, as capitais se tornaram nichos de produção de alta tecnologia’’, reforça o administrador de empresas Carlos Augusto Guimarães Baião, ex-presidente nacional do Sebrae (Serviço de Apoio às Micros e Pequenas Empresas).

  Coerente com o setor para o qual presta consultoria, Baião aposta em pequenas e microempresas para a criação de empregos já hoje. Para fazer avançar o setor, ele está coordenando um estudo em parceria com a Federação das Indústrias de Brasília (Fibra) que visa identificar pontualmente as áreas onde o investimento é garantido. Inicialmente chamado Desenvolvimento Econômico Caso a Caso, o estudo deve ficar pronto no em maio e terá o nome Invista Certo.

  ‘‘Cerca de 85% do que se consome no DF vem de fora. Por que esses produtos não podem ser feitos aqui mesmo?’’, questiona. O Invista Certo vai mostrar o que pode ser feito aqui, aproveitando o imenso mercado consumidor de alto poder aquisitivo daqui.

  O estudo elencou várias oportunidades de criação de novas empresas. E vai desde a área de produtos alimentícios e toda a cadeia produtiva até as agroindústrias, passando por materiais de construção; materiais de limpeza para consumo institucional (que não exige marcas, mas qualidade); material elétrico (deixar o design italiano de lado e produzir coisas simples de fácil consumo); embalagens; materiais acessórios para informática como rabichos e conexões, nobreaks e estabilizadores, entre outros.

EXPORTAÇÃO   

Na prática, pequenos negócios têm crescido e dado empregos a muita gente no DF. ‘‘O serviço de microcrédito do Sebrae tem favorecido pequenos artesãos que trabalham na periferia’’, lembra Newton de Castro, superintendente regional do Sebrae. É o caso da artesã Helenice Santos, 50 anos, que mora na Ceilândia e produz arranjos florais desde 1985. Em 1996, com pequenos empréstimos, ela foi melhorando sua produção e hoje exporta para vários estados.

  ‘‘Se melhorar, estraga’’, brinca Helenice, se referindo à situação da empresa Flores Helenice. Ela trabalha com seis pessoas da própria família e outros 11 funcionários de fora. ‘‘Produzimos arranjos com flores secas, flores de massa de porcelana e também de tecido. Este ano vamos construir uma oficina em um galpão na Vicente Pires (Taguatinga) e pretendemos aumentar o número de funcionários.’’

  Também de base familiar e com características de micro e pequena empresa são as fazendas que produzem agricultura orgânica e investem em turismo rural. ‘‘Hoje, já somos 37 produtores rurais orgânicos e temos mais 20 outros produtores em processo de conversão à agricultura orgânica’’, contabiliza Joe Valle, que coordena essa área na Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater). Na área de turismo rural, hoje já existem 40 propriedades recebendo visitantes e há 15 fazendas em implantação.

  Cada propriedade que faz agricultura ecológica emprega em média oito pessoas e cria outros quatro empregos indiretos. É um setor em franca expansão, pois o produto orgânico tem cada vez maior procura e o preço do produto é extremamente favorável ao produtor, praticamente o dobro do mesmo produto feito de forma tradicional. Joe é, ele próprio, dono da Fazenda Malunga, que produz de forma orgânica e tem 30 funcionários.

  Em Brazlândia, o Sítio Alegria é exemplo de empreendimento que tem como base a agricultura orgânica e, há pouco mais de um ano, está investindo no turismo rural e de educação ambiental. ‘‘Empregamos dez pessoas, duas delas diaristas do período da colheita’’, informa Tereza Cristina Correa, 44 anos, que administra o Sítio Alegria com o marido Jorge Arthur, técnico do Ibama. Ela ainda encontra tempo para dar aulas numa escola rural próximo ao sítio, a 8km de Brazlândia.

  Nos 28 hectares do sítio, o casal produz hortaliças, frutas, leite e seus derivados e aves. Tudo feito de forma natural, sem agrotóxicos nem fertilizantes químicos. E ainda preservam áreas naturais que serve de atrativo para os turistas que amam a natureza. Por utilizar processos naturais, com amplo reaproveitamento de rejeitos orgânicos, as propriedades rurais dessa natureza empregam grande quantidade de mão-de-obra.

GASODUTO

  Mesmo não rejeitando as alternativas de criação de empresas que envolvem pequenos empreendimentos, há quem aposte que a solução para o desemprego nos próximos dez anos será a implantação de indústrias tradicionais. ‘‘Deve-se investir na industrialização do eixo Brasília-Goiânia, que, em dez anos, envolverá um mercado de quase 7 milhões de habitantes e um PIB de U$ 50 bilhões’’, aposta o economista Julio Miragaya, presidente do Sindicato dos Economistas do DF.

  Essa perspectiva, segundo ele, pode se concretizar com a chegada de um ramal do gasoduto da Bolívia em direção a São Paulo. ‘‘Isso garantirá energia abundante e barata’’, lembra ele. E também com a duplicação da rodovia que liga as duas cidades e que ainda tem em seu caminho uma cidade de médio porte como Anápolis. ‘‘É necessário ainda investir em infra-estrutura e numa política de cooperação mútua entre os governos dos dois estados.’’

  Nesse caminho entre as duas cidades, poderiam ser instaladas indústrias leves, beneficiamento de produtos primários, fiação e tecelagem, confecções, calçados e eletroeletrônicos. ‘‘Isso diminuiria o desemprego no DF e Entorno, assim como a pressão sobre os serviços de Brasília.’’ Para Miragaya, ‘‘pequenas iniciativas não resolvem o problema do desemprego’’.

 


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