Brasília hoje tem 20,6% da população desempregada.
São mais de 180 mil pessoas sem emprego, segundo dados oficiais. Mantendo-se
os atuais índices de crescimento da população, se nada for feito agora
nos próximos dez anos a situação social será absurdamente grave. Hoje
já existem empreendimentos que estão dando certo e que apontam para
a possibilidade de criação de empregos nesse futuro próximo. Nada para
soltar foguetes, pois a situação não está sob controle e há muito o
que fazer, mas fazer agora.
Há discordâncias entre estudiosos do tema sobre
quais os melhores caminhos para se investir. Não há um único caminho,
com certeza. Mas todas as possibilidades apontadas como vocações da
cidade precisam ser experimentadas. Seja na área de alta tecnologia,
na de agricultura orgânica ou de turismo rural, nos micros e pequenos
empreendimentos ou mesmo nos empreendimentos tradicionais, como as grandes
indústrias.
A aposta em alta tecnologia é uma das mais fortes
no DF. A Wise Informática foi criada em 1988, passou três anos e meio
na incubadora de empresas do Centro de Apoio ao Desenvolvimento Tecnológico
(CDT) da Universidade de Brasília (UnB), e hoje caminha com as próprias
pernas, produzindo equipamentos para testar a eficácia de redes de comunicação
de dados. É a única no Brasil na área e atende a todas as empresas resultantes
da privatização do sistema Telebrás e grandes bancos. Suas únicas concorrentes
no mundo são uma empresa alemã e uma sueca.
‘‘Temos um faturamento anual de R$ 1,5 a 2 milhões
e estamos construindo a nossa sede este ano’’, conta Suely Maria Silva,
40 anos, uma das sócias da Wise. Ela reconhece que desenvolver hardware
no Brasil é complicado, principalmente para quem trabalha num nicho
de mercado tão específico. Mas nada que desestimule a empresa. Ao contrário,
eles pensam em expansão. Hoje a Wise emprega 15 pessoas, além de outros
contratos temporários, mas esse número deve crescer nos próximos anos.
‘‘Cada emprego criado na área de tecnologia produz
mais seis ou sete indiretos’’, afirma o professor Afonso Bermudes, que
dirige o CDT. De 1989 até o ano passado, 40 empresas passaram pela incubadora
de empresas. Nos últimos dois anos, as empresas incubadas criaram 154
empregos. ‘‘As empresas de tecnologia geram emprego, renda e impostos’’,
lembra Bermudes. ‘‘E isso sem incentivos ou facilidades tributárias.’’
MICROEMPRESAS
Das 700 empresas de (todos os ramos da) informática
do DF, quase 90% são microempresas. E apesar de tanta gente na área,
somente 10% das necessidades são supridas por elas. Há, portanto, um
longo campo a ser preenchido. Muitas novas empresas (e empregos) ainda
serão criadas. ‘‘Em alguns países, as capitais se tornaram nichos de
produção de alta tecnologia’’, reforça o administrador de empresas Carlos
Augusto Guimarães Baião, ex-presidente nacional do Sebrae (Serviço de
Apoio às Micros e Pequenas Empresas).
Coerente com o setor para o qual presta consultoria,
Baião aposta em pequenas e microempresas para a criação de empregos
já hoje. Para fazer avançar o setor, ele está coordenando um estudo
em parceria com a Federação das Indústrias de Brasília (Fibra) que visa
identificar pontualmente as áreas onde o investimento é garantido. Inicialmente
chamado Desenvolvimento Econômico Caso a Caso, o estudo deve ficar pronto
no em maio e terá o nome Invista Certo.
‘‘Cerca de 85% do que se consome no DF vem de fora.
Por que esses produtos não podem ser feitos aqui mesmo?’’, questiona.
O Invista Certo vai mostrar o que pode ser feito aqui, aproveitando
o imenso mercado consumidor de alto poder aquisitivo daqui.
O estudo elencou várias oportunidades de criação
de novas empresas. E vai desde a área de produtos alimentícios e toda
a cadeia produtiva até as agroindústrias, passando por materiais de
construção; materiais de limpeza para consumo institucional (que não
exige marcas, mas qualidade); material elétrico (deixar o design italiano
de lado e produzir coisas simples de fácil consumo); embalagens; materiais
acessórios para informática como rabichos e conexões, nobreaks e estabilizadores,
entre outros.
EXPORTAÇÃO
Na prática, pequenos negócios têm crescido e dado empregos
a muita gente no DF. ‘‘O serviço de microcrédito do Sebrae tem favorecido
pequenos artesãos que trabalham na periferia’’, lembra Newton de Castro,
superintendente regional do Sebrae. É o caso da artesã Helenice Santos,
50 anos, que mora na Ceilândia e produz arranjos florais desde 1985.
Em 1996, com pequenos empréstimos, ela foi melhorando sua produção e
hoje exporta para vários estados.
‘‘Se melhorar, estraga’’, brinca Helenice, se referindo
à situação da empresa Flores Helenice. Ela trabalha com seis pessoas
da própria família e outros 11 funcionários de fora. ‘‘Produzimos arranjos
com flores secas, flores de massa de porcelana e também de tecido. Este
ano vamos construir uma oficina em um galpão na Vicente Pires (Taguatinga)
e pretendemos aumentar o número de funcionários.’’
Também de base familiar e com características de
micro e pequena empresa são as fazendas que produzem agricultura orgânica
e investem em turismo rural. ‘‘Hoje, já somos 37 produtores rurais orgânicos
e temos mais 20 outros produtores em processo de conversão à agricultura
orgânica’’, contabiliza Joe Valle, que coordena essa área na Empresa
de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater). Na área de turismo
rural, hoje já existem 40 propriedades recebendo visitantes e há 15
fazendas em implantação.
Cada propriedade que faz agricultura ecológica emprega
em média oito pessoas e cria outros quatro empregos indiretos. É um
setor em franca expansão, pois o produto orgânico tem cada vez maior
procura e o preço do produto é extremamente favorável ao produtor, praticamente
o dobro do mesmo produto feito de forma tradicional. Joe é, ele próprio,
dono da Fazenda Malunga, que produz de forma orgânica e tem 30 funcionários.
Em Brazlândia, o Sítio Alegria é exemplo de empreendimento
que tem como base a agricultura orgânica e, há pouco mais de um ano,
está investindo no turismo rural e de educação ambiental. ‘‘Empregamos
dez pessoas, duas delas diaristas do período da colheita’’, informa
Tereza Cristina Correa, 44 anos, que administra o Sítio Alegria com
o marido Jorge Arthur, técnico do Ibama. Ela ainda encontra tempo para
dar aulas numa escola rural próximo ao sítio, a 8km de Brazlândia.
Nos 28 hectares do sítio, o casal produz hortaliças,
frutas, leite e seus derivados e aves. Tudo feito de forma natural,
sem agrotóxicos nem fertilizantes químicos. E ainda preservam áreas
naturais que serve de atrativo para os turistas que amam a natureza.
Por utilizar processos naturais, com amplo reaproveitamento de rejeitos
orgânicos, as propriedades rurais dessa natureza empregam grande quantidade
de mão-de-obra.
GASODUTO
Mesmo não rejeitando as alternativas de criação
de empresas que envolvem pequenos empreendimentos, há quem aposte que
a solução para o desemprego nos próximos dez anos será a implantação
de indústrias tradicionais. ‘‘Deve-se investir na industrialização do
eixo Brasília-Goiânia, que, em dez anos, envolverá um mercado de quase
7 milhões de habitantes e um PIB de U$ 50 bilhões’’, aposta o economista
Julio Miragaya, presidente do Sindicato dos Economistas do DF.
Essa perspectiva, segundo ele, pode se concretizar
com a chegada de um ramal do gasoduto da Bolívia em direção a São Paulo.
‘‘Isso garantirá energia abundante e barata’’, lembra ele. E também
com a duplicação da rodovia que liga as duas cidades e que ainda tem
em seu caminho uma cidade de médio porte como Anápolis. ‘‘É necessário
ainda investir em infra-estrutura e numa política de cooperação mútua
entre os governos dos dois estados.’’
Nesse caminho entre as duas cidades, poderiam ser
instaladas indústrias leves, beneficiamento de produtos primários, fiação
e tecelagem, confecções, calçados e eletroeletrônicos. ‘‘Isso diminuiria
o desemprego no DF e Entorno, assim como a pressão sobre os serviços
de Brasília.’’ Para Miragaya, ‘‘pequenas iniciativas não resolvem o
problema do desemprego’’.