FALTAM 11 DIAS PARA BRASÍLIA COMPLETAR 40 ANOS

SÉRIE HISTÓRIA

Este homem viu tudo

Autor de um best seller brasiliense, o pediatra Ernesto Silva foi o primeiro pioneiro a chegar a Brasília

 

Conceição Freitas
Da equipe do Correio

Ricardo Borba 9.4.00

Ernesto Silva pisou, pela primeira vez, o chão do DF em 1955: um pioneiro que conta a história

Um dos livros mais vendidos no mercado editorial brasiliense não trata de esoterismo, não dá lições de auto-ajuda nem fala de sexo. Tem 393 páginas, está na quarta edição e já vendeu mais de 6 mil exemplares. O autor desta obra bem-sucedida teve o privilégio de ser coadjuvante, vez ou outra protagonista, de boa parte do enredo. ‘‘É um best seller’’, carimba Victor Alegria, dono da maior editora candanga, a Thesaurus.

  O livro chama-se História de Brasília e foi escrito pelo pediatra Ernesto Silva, que carrega, entre os feitos pioneiros, o fato de ter participado da primeira expedição oficial deste século a pôr os pés na área onde hoje está o Plano Piloto. Lá se vão 45 anos. Naquela época, Ernesto Silva era secretário da Comissão de Localização da Nova Capital, designada pelo presidente Café Filho para vir aqui escolher o lugar onde a cidade seria construída.

  O ex-professor de Português do Colégio Dom Pedro II acompanhava o presidente da Comissão, marechal José Pessoa, no comboio de jipes que saiu de Planaltina na manhã de 5 de fevereiro de 1955 para, quase ao meio-dia, parar no ponto mais alto da Fazenda Bananal onde hoje espraia-se o Plano Piloto: o Cruzeiro, aquela cruz a 1 172 metros de altitude fincada no canteiro central do Eixo Monumental, ponto de encontro de quem quer desfrutar um belo pôr-do-sol.

  Antes mesmo de Juscelino Kubitschek tomar posse na Presidência da República, o Estado de Goiás fez a primeira desapropriação de terras, os quatro mil alqueires da Fazenda Bananal, comprados de Jorge Peles por 3,2 milhões de cruzeiros. Mas, no final das contas, só 40% das terras do Distrito Federal foram desapropriadas — eis o pecado original. “Se o governo tivesse desapropriado toda a área, não teríamos toda essa especulação imobiliária”. E disso Ernesto Silva pode falar de cadeira: ele faz parte da Conselho Técnico de Preservação de Brasília. “A pressão dos especuladores é indescritível.”

  Da janela do apartamento da 105 Sul, pode ver o melhor e o pior da capital. O melhor: a claridade que invade a sala, as velhas árvores que contornam um dos lados do bloco. O pior: a favelização das quadras comerciais. ‘‘É uma invasão do espaço público. Cheio de lixo, telhados de zinco”, diz, apontando o indicador da mão esquerda para o amontoado de construções improvisadas a 50 metros do bloco.

  Criticado por quem gostaria de ver na História de Brasília um relato mais ácido da construção, Ernesto Silva mantém-se empertigado: ‘‘Há muito de ficção no que dizem. Quer ver? Dizem que tijolos e cimentos foram carregados de avião. Isso nunca aconteceu. Um ou outro equipamento mais frágil veio de avião, o resto veio por terra. Quer mais? Dizem que Brasília foi construída para ter 500 mil habitantes no ano 2000. Isso não está escrito em lugar nenhum”. (A Lei 1803, de 5 de janeiro de 1953, se restringe a fixar no parágrafo 2º do artigo 1º: “os estudos serão feitos na base de uma cidade para 500 000 habitantes”.) Continua Silva: ‘‘E isso apenas para o Plano Piloto, que agora tem 350 mil habitantes”.

  O mais inflamado dos mitos da construção de Brasília diz respeito ao que aconteceu no acampamento da construtora Pacheco Fernandes no carnaval de 1959. Há quem já tenha escrito que caminhões de operários mortos pela polícia foram retirados do acampamento. A versão de Ernesto Silva é bem outra: ‘‘Uma pessoa morreu e algumas ficaram feridas’’. Quantas algumas? O médico Ernesto Silva prefere não dizer nenhum número. E o que se convencionou chamar de ‘‘ massacre da Pacheco Fernandes’’ continua a ser tratado no campo das versões.

  Esse homem que tem a história de Brasília na mão morou no Catetinho, no quarto ao lado das acomodações do presidente Juscelino Kubitschek no Catetinho, o palácio de madeira construído em dez dias. ‘‘Fui para lá no dia 10 de novembro de 1956’’, dia da inauguração da grande casa de madeira, sobre pilotis, com sala, sala de jantar, cozinha, quatro quartos, banheiros, luz elétrica, água encanada (fria e quente), geladeira, rádios e mobiliário básico.

  Aos 85 anos, Ernesto Silva dedica-se a escrever dois livros: o primeiro, uma encomenda do governo. Vai contar, em cem páginas, a história da saúde no Distrito Federal. O segundo, a autobiografia, da qual Brasília a personagem fundamental. Há algum tempo, Ernesto Silva foi convidado para um seminário mundial sobre pediatria, em Sevilha, Espanha. Pediram-lhe que mandasse quatro sugestões do assunto que ele gostaria de tratar. O médico apontou quatro opções de debates científicos sobre doenças e saúde infantis. Nenhum foi aceito. A organização do encontro determinou o tema: Brasília, uma cidade feita para crianças.


Nas asas do tempo
 
Reprodução

A primeira missa, onde hoje está a cruz, em 1957

18 de abril de 1956

Juscelino assina a Mensagem de Anápolis, projeto de lei da mudança da capital enviado ao Congresso. O projeto criava a Companhia Urbanizadora da Nova Capital (Novacap), delimitava o Distrito Federal, e solicitava crédito de 30 milhões de cruzeiros. Cinco meses depois, o projeto foi aprovado.

19 de setembro de 1956

É lançado o edital do concurso do Plano Piloto, elaborado por Israel Pinheiro, Oscar Niemeyer, Ernesto Silva, representantes do Instituto dos Arquitetos do Brasil. Do projeto deveriam constar o traçado básico da cidade (com a estrutura urbana, a localização e a interligação dos diversos setores, centros, instalações e serviços, distribuição dos espaços livres e vias de comunicações). Decidiu-se que do projeto não deveria constar o planejamento dos edifícios públicos. Era dado um prazo de 120 dias para a entrega dos projetos.

2 de outubro de 1956

JK vem pela primeira vez ao Distrito Federal, acompanhado de Oscar Niemeyer, Israel Pinheiro, do ministro da Guerra, general Teixeira Lott, do ministro da Viação, almirante Lúcio Meira, do chefe da Casa Militar, general Nelson de Melo, e do governador da Bahia, Antonio Balbino. O avião desce num campo de pouso que Bernardo Sayão mandara construir no lugar onde hoje está a Rodoferroviária. O que diz na ocasião passa a ser a sua frase mais conhecida sobre a construção de Brasília: ‘‘Deste Planalto Central, desta solidão que em breve se transformará em cérebro das mais altas decisões nacionais, lanço os olhos mais uma vez sobre o amanhã do meu país e antevejo esta alvorada, com uma fé inquebrantável e uma confiança sem limites no seu grande destino’’.

5 de novembro de 1956

‘‘Se meus amigos fizeram esse palácio de madeira em dez dias, por que outros construtores que têm máquinas e confortos, não vão fazer Brasília?’’, desafiou Juscelino Kubitschek na inauguração do Catetinho. Tudo era motivo para ele se convencer e convencer os outros de que daria conta de construir a capital em tão pouco tempo. O Catetinho, obra de Oscar Niemeyer, nasceu numa mesa de bar do Ambassador Hotel, no Rio de Janeiro, o Juca’s. Estavam lá o piloto Milton Prates, o violonista Dilermano Reis, os engenheiros Juca Chaves e Roberto Penna, todos preocupados com o fato de Juscelino não ter onde se acomodar no período da construção da nova capital. Procurado, Oscar Niemeyer topou desenhar o palácio de madeiras, mas faltava dinheiro para a construção. Um empréstimo de 500 mil cruzeiros feito no Banco de Minas Gerais, e duplicata assinada por Niemeyer e Juca Chaves, garantiu as despesas do projeto.

3 de maio de 1957

Quinze mil pessoas assistem à primeira missa, no Cruzeiro, a cruz fincada no canteiro central do Eixo Monumental. Quarenta aviões e centenas de carros e caminhões chegaram ao cerrado ainda bravio. Celebrada pelo arcebispo de São Paulo, dom Carlos Carmelo de Vasconcellos Mota, teve a participação de ministros, políticos, empresários, moradores das regiões mais próximas, estudantes uniformizados, índios carajás. Foi armado um altar sob imenso toldo de lona, num formato que lembra o Centro de Convenções.

 


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