Um dos livros mais vendidos no mercado editorial brasiliense
não trata de esoterismo, não dá lições de auto-ajuda nem fala de sexo.
Tem 393 páginas, está na quarta edição e já vendeu mais de 6 mil exemplares.
O autor desta obra bem-sucedida teve o privilégio de ser coadjuvante,
vez ou outra protagonista, de boa parte do enredo. ‘‘É um best seller’’,
carimba Victor Alegria, dono da maior editora candanga, a Thesaurus.
O livro chama-se História de Brasília e foi escrito
pelo pediatra Ernesto Silva, que carrega, entre os feitos pioneiros,
o fato de ter participado da primeira expedição oficial deste século
a pôr os pés na área onde hoje está o Plano Piloto. Lá se vão 45 anos.
Naquela época, Ernesto Silva era secretário da Comissão de Localização
da Nova Capital, designada pelo presidente Café Filho para vir aqui
escolher o lugar onde a cidade seria construída.
O ex-professor de Português do Colégio Dom Pedro
II acompanhava o presidente da Comissão, marechal José Pessoa, no comboio
de jipes que saiu de Planaltina na manhã de 5 de fevereiro de 1955 para,
quase ao meio-dia, parar no ponto mais alto da Fazenda Bananal onde
hoje espraia-se o Plano Piloto: o Cruzeiro, aquela cruz a 1 172 metros
de altitude fincada no canteiro central do Eixo Monumental, ponto de
encontro de quem quer desfrutar um belo pôr-do-sol.
Antes mesmo de Juscelino Kubitschek tomar posse
na Presidência da República, o Estado de Goiás fez a primeira desapropriação
de terras, os quatro mil alqueires da Fazenda Bananal, comprados de
Jorge Peles por 3,2 milhões de cruzeiros. Mas, no final das contas,
só 40% das terras do Distrito Federal foram desapropriadas — eis o pecado
original. “Se o governo tivesse desapropriado toda a área, não teríamos
toda essa especulação imobiliária”. E disso Ernesto Silva pode falar
de cadeira: ele faz parte da Conselho Técnico de Preservação de Brasília.
“A pressão dos especuladores é indescritível.”
Da janela do apartamento da 105 Sul, pode ver o
melhor e o pior da capital. O melhor: a claridade que invade a sala,
as velhas árvores que contornam um dos lados do bloco. O pior: a favelização
das quadras comerciais. ‘‘É uma invasão do espaço público. Cheio de
lixo, telhados de zinco”, diz, apontando o indicador da mão esquerda
para o amontoado de construções improvisadas a 50 metros do bloco.
Criticado por quem gostaria de ver na História de
Brasília um relato mais ácido da construção, Ernesto Silva mantém-se
empertigado: ‘‘Há muito de ficção no que dizem. Quer ver? Dizem que
tijolos e cimentos foram carregados de avião. Isso nunca aconteceu.
Um ou outro equipamento mais frágil veio de avião, o resto veio por
terra. Quer mais? Dizem que Brasília foi construída para ter 500 mil
habitantes no ano 2000. Isso não está escrito em lugar nenhum”. (A Lei
1803, de 5 de janeiro de 1953, se restringe a fixar no parágrafo 2º
do artigo 1º: “os estudos serão feitos na base de uma cidade para 500
000 habitantes”.) Continua Silva: ‘‘E isso apenas para o Plano Piloto,
que agora tem 350 mil habitantes”.
O mais inflamado dos mitos da construção de Brasília
diz respeito ao que aconteceu no acampamento da construtora Pacheco
Fernandes no carnaval de 1959. Há quem já tenha escrito que caminhões
de operários mortos pela polícia foram retirados do acampamento. A versão
de Ernesto Silva é bem outra: ‘‘Uma pessoa morreu e algumas ficaram
feridas’’. Quantas algumas? O médico Ernesto Silva prefere não dizer
nenhum número. E o que se convencionou chamar de ‘‘ massacre da Pacheco
Fernandes’’ continua a ser tratado no campo das versões.
Esse homem que tem a história de Brasília na mão
morou no Catetinho, no quarto ao lado das acomodações do presidente
Juscelino Kubitschek no Catetinho, o palácio de madeira construído em
dez dias. ‘‘Fui para lá no dia 10 de novembro de 1956’’, dia da inauguração
da grande casa de madeira, sobre pilotis, com sala, sala de jantar,
cozinha, quatro quartos, banheiros, luz elétrica, água encanada (fria
e quente), geladeira, rádios e mobiliário básico.
Aos 85 anos, Ernesto Silva dedica-se a escrever
dois livros: o primeiro, uma encomenda do governo. Vai contar, em cem
páginas, a história da saúde no Distrito Federal. O segundo, a autobiografia,
da qual Brasília a personagem fundamental. Há algum tempo, Ernesto Silva
foi convidado para um seminário mundial sobre pediatria, em Sevilha,
Espanha. Pediram-lhe que mandasse quatro sugestões do assunto que ele
gostaria de tratar. O médico apontou quatro opções de debates científicos
sobre doenças e saúde infantis. Nenhum foi aceito. A organização do
encontro determinou o tema: Brasília, uma cidade feita para crianças.