Enquanto o Magro, meio sem querer, infernizava a vida
do Gordo, e Carlitos, o vagabundo, inventava artimanhas para matar a
fome, dona Sarah e as filhas Márcia e Maristela riam na sacada do palácio
da Liberdade. Juscelino, chefe da família e governador de Minas, preferia
assistir lá embaixo, no meio daquele povo que Márcio Quintino reunia
aos domingos na praça da Liberdade, em torno do caminhão que era um
cinema itinerante. Anos depois, dona Sarah, Márcia, Maristela, Márcio
Quintino e o caminhão do Cine Grátis trocariam Belo Horizonte pela cidade
que ia brotando aos poucos da terra vermelha do Planalto Central, regada
pelo sonho do homem sorridente que gostava de ver cinema no meio da
praça e do povo.
Brasília faz 40 anos no próximo dia 21. O Cine Grátis
comemorou 50 no ano passado, com justas homenagens rendidas pelo governo
e pelo povo da capital mineira. Corria o ano de 1949 quando Márcio Quintino
dos Santos resolveu criar um cinema sobre rodas que sobrevivesse exclusivamente
dos anunciantes, estacionado cada dia da semana numa praça do centro
de Belo Horizonte. E inventou o Cine Grátis, que por tantos anos encantou
a cidade e a família Kubitschek.
Em fevereiro de 1960, o criador resolveu levar a
criatura para Brasília. A capital estava ainda em construção quando
o caminhão Chevrolet Gigante 1950, depois de quase um dia de viagem,
estacionou na noite de poeira e estrela da Cidade Livre e projetou na
tela branca o círculo amarelo com as letras vermelhas que formavam a
frase mágica: ‘‘Cine Grátis apresenta’’. E naquela noite, o Cine Grátis
apresentou Carlitos e o Gordo e o Magro para 500 candangos encantados,
que aplaudiam como se Charlie Chaplin, Oliver Hardy e Stan Laurel estivessem
em carne e osso no meio deles, encurtando a solidão do cerrado.
Antes da sessão, a quase frustração do sonho: o
motor a gasolina não conseguiu fazer funcionar o projetor. Foi preciso
puxar energia de algumas das lojas de madeira da Cidade Livre. E fez-se,
então, a luz, ainda que às custas de um blecaute parcial na região,
provocado pela sobrecarga. Mas quem se importava com isso?, se poucas
vezes naquelas paragens a escuridão teve assim tanto brilho...
Márcio Quintino chegou a Brasília antes de seus
espectadores mais ilustres, os Kubitschek, e antes mesmo de seu cinema
ambulante. Contador e auditor por profissão, chegou em 1958, não para
fazer o que mais gostava na vida — exibir filmes de graça —, mas para
trabalhar na fiscalização das obras. O Cine Grátis ficou em Belo Horizonte,
nas mãos dos sócios.
Márcio Quintino veio nas asas de um DC-3 da Panair.
Era junho. Ele se lembra bem da secura do ar, os redemoinhos, os lenços
que os construtores amarravam no rosto para não sufocar com a poeira
vermelha e fina, o canto das siriemas entreouvido nos breves momentos
em que os tratores, os guindastes e os caminhões interrompiam a sinfonia
da cidade em construção. Ele se lembra bem do ‘‘encantamento do Planalto
Central’’ e, especialmente, das tardes tristes.
‘‘Era quando eu chorava. A tristeza daquelas tardes...
O sol ia se pondo muito, muito longe, parecia que a tarde caía em cima
da gente. A sensação era a de estar perdido num imenso espaço vazio’’,
tenta descrever hoje, aos 75 anos, há muito de volta à Belo Horizonte
natal.
Naqueles dias remotos restava o trabalho como antídoto
às tristezas vespertinas. Juscelino, lembra Márcio Quintino, visitava
as obras com freqüência, a qualquer hora do dia ou noite. Houve uma
noite em que o presidente da República dizia palavras de incentivo aos
operários que construíam a Rodoviária quando o motor parou de produzir
luz. Márcio Quintino iluminou o rosto do presidente com um isqueiro,
até as mãos começarem a queimar. JK percebeu e encurtou o discurso:
‘‘Ô Márcio, apaga aí esse fogo e toca sua gaita, sô’’. Ex-músico da
orquestra de gaitas Os Organistas Vocais, que animava bailes na Belo
Horizonte dos anos 40, ele sacou a gaita e tocou, como faria muitas
outras vezes nos canteiros das obras, com ou sem a companhia do presidente:
‘‘Encosta tua cabecinha no meu ombro e chora’’...
Márcio Quintino é a terceira geração de uma família
que, com maior ou menor intimidade, conviveu com JK. O avô, Antonio
Quintino dos Santos, era chefe dos Correios e Telégrafos, nos anos 30,
quando o jovem Juscelino trabalhava como telegrafista. O pai, o engenheiro
Benedito Quintino dos Santos, foi diretor do Departamento Geográfico
e Geológico de Minas quando JK governava o estado e ambos compartilhavam
o entusiasmo pela construção de Brasília.
Márcio Quintino e Juscelino estavam, assim, unidos
pela amizade ancestral, mas também pelo Cine Grátis, que participou
das campanhas de JK ao governo de Minas e à Presidência da República,
intercalando cinema com propaganda do candidato. E havia, também, o
fato de que Juscelino adorava assistir ao Cine Grátis nas sessões de
domingo na praça da Liberdade. Por isso, deu o aval quando Mário Quintino
resolveu botar na estrada, rumo ao Planalto Central, o caminhão com
o projetor na carroceria.
Quintino, no entanto, preferiu passar o empreendimento
para a frente, quando sentiu que era hora de voltar para casa. Ele havia
chegado sozinho, de avião. Depois, embarcou com a mulher, Irene, e os
então quatro filhos (hoje são cinco) na DKV-Vemag azul, para a viagem
de 26 horas de Belo Horizonte até Brasília. Mas a família nunca haveria
de se adaptar àquela mistura imprecisa de canteiro de obras e casulo
do qual, em breve, nasceria a cidade com asas.
Depois da sessão inaugural, Márcio Quintino ainda
promoveu mais três sessões do Cine Grátis na Cidade Livre, outra em
frente ao Brasília Palace, e uma última perto da Igrejinha, na 108 Sul,
antes de entregar o velho caminhão ao novo proprietário, o jornalista
Carlos Rodrigues, do Diário Católico, e voltar para Belo Horizonte.
E voltou sozinho, sem o Cine Grátis, sabendo que, com a chegada da televisão,
o cinema ambulante estava condenado a deixar as ruas para entrar em
definitivo na história e na memória dos cinéfilos que namoraram, noivaram
e casaram com as bênçãos daquele caminhão em cuja carroceria cabia todo
tipo de sonho.
Em Brasília, Márcio Quintino deixou o Cine Grátis,
que ainda animaria as noites da nova capital por mais um ano. De Brasília,
levou um pequeno tesouro todo feito de lembranças, que guarda da ferrugem
do tempo numa caixa de madeira onde antigamente havia um faqueiro de
aço inoxidável ganho no dia do casamento.
O tesouro do faqueiro faz parte do Arquivo Memória
Márcio Quintino dos Santos, instituição sem sede, sem estatuto, sem
diretoria, sem apoio de ninguém, mantida viva apenas pelo entusiasmo
do homem que renega o esquecimento. Há fotografias, como a que mostra
o jovem Márcio Quintino entre guindastes e esqueletos de prédios, ajoelhado
na avenida esburacada e lamacenta batizada com letra e número: W3.
Há a lista telefônica de 1960, com não mais que
três páginas e meia de assinantes (a letra A tem apenas 45 nomes, e
a Z, uma solitária Zubic, Ivana), e o programa das solenidade de inauguração
da cidade, que começa assim: ‘‘Dia 21 de Abril (quinta-feira). O,30
hs: Bênção de Brasília por Sua Eminência Reverendíssima o Cardeal Dom
Manuel Gonçalves Cerejeira, Legado Pontífico’’.
Há, também, a lista oficial de hóspedes do Brasília
Palace Hotel do dia 21 de abril de 1960, na qual figuram o então vice
e futuro presidente deposto, João Goulart, que estava no apartamento
101, e o cineasta Frank Capra, no 109.
História à parte é contada pela coleção de jornais,
como a edição especial dos Diários Associados de 21 de abril de 1960,
que estampa na primeira página: Brasília Amanhece. Dentro, uma exaltação
ao trânsito, que o futuro haveria de desmentir: ‘‘Simplesmente revolucionário,
o plano de Lúcio Costa prevê um grande centro urbano, sem congestionamento
de tráfego, onde o índice de acidentes será reduzido ao mínimo’’. Há,
também, exemplares d’A Tribuna de Brasília, que desde 1957 acompanhava
o dia-dia da construção. A edição de 8 de novembro de 1959, por exemplo,
tem na capa o anúncio: ‘‘Faltam exatamente 165 dias para a transferência
da capital’’. E a manchete: Operário Come o Pão que o Diabo Amassou,
denunciando a jornada de 12 horas de trabalho e a má alimentação. Como
‘‘prova do delito’’, a reportagem fala de uma ‘‘pequena e imunda marmita,
dentro da qual só existia pouco feijão e arroz, de aspecto repugnante,
sem sal, sem gordura e sem tempero’’.
O tesouro não tem preço, mas está à venda para quem
se disponha a cuidar dele com o carinho que merece. Márcio Quintino
acha que fez sua parte: guardou, por 40 anos e a mais de 700 km de distância,
um pedaço da história de Brasília. Márcio Quintino fez mais do que isso:
escreveu, com imagens em movimento que faziam rir os operários cansados
da cidade em construção, um pedaço da história de Brasília.