‘‘Celiiinhaaaaa’’, gritavam as meninas embaixo do
bloco F, na 108 Sul. Ela descia correndo. Lá saíam todas, vestidos rodados,
bombril escondido no cabelo para armar o coque, iam para o baile aos
sábados. Aos domingos, tinha missa, as adolescentes rezavam, mas estavam
mesmo era de olho na paquera. Depois, corriam para gastar a mesada na
Pizzaria Dom Bosco, que servia no balcão, como um bom boteco de esquina.
Brasília começou como uma pequena comunidade. Na
Asa Sul. Onde Juscelino Kubitschek passava acenando para as crianças.
‘‘Eu vi o presidente passar aqui perto de casa umas três vezes. Ele
sempre dava um tchauzinho’’, conta a funcionária pública Célia Quintella.
Era 1960, tinha 14 anos. Foi quando chegou à capital. Vivia na Unidade
Vizinhança — o conjunto residencial idealizado pelo urbanista Lucio
Costa. Ele projetou um para cada quatro superquadras, nas duas asas
de Brasília. Cada conjunto teria todos os equipamentos necessários para
a vida em comunidade.
O único que chegou a ser totalmente construído foi
o conjunto das superquadras 107, 108, 307 e 308 Sul. A unidade vizinhança
tem até hoje o clube, as escolas classe, a Escola Parque, igrejinha
Nossa Senhora de Fátima, o posto de saúde, o Cine Brasília, o teatro
da Escola Parque, área de comércio, jardim de infância.
A vida girava em torno da unidade vizinhança. Foi
no clube da 108 Sul que foi formado o primeiro time de vôlei juvenil
feminino de Brasília. Célia era atleta do time. A equipe às vezes viajava
— Belo Horizonte, Goiânia. Celinha não ia. Mamãe não deixava. As meninas
também fizeram o primeiro desfile de duas-peças da capital, o moderníssimo
biquíni. Passavam os dias na escola, e à tarde iam à piscina.
‘‘Celiiinhaaaaa’’, gritava a mãe dela da porta dos
fundos do apartamento. Naquela época as árvores não tinham ainda crescido,
os galhos não impediam a visão do quinto andar, onde ela morava. A mãe
conseguia controlar o movimento da filha no clube. ‘‘Tá na hora de vir
praaa caasa’’, avisava à garota, sem sair do apartamento.
‘‘Na 108, onde hoje é a academia de balé da Norma
Lilia, era a Americana, uma lanchonete dançante, que a gente ia depois
da missa’’, conta Célia Quintella. ‘‘A gente comprava fazendas nas Casas
Pernambucanas, que ficavam onde é hoje a Galeteria Gaúcha. Nós aprendíamos
corte e costura na escola, e a gente mesmo costurava as roupas para
as festas.’’
A vida resumia-se à unidade vizinhança. Ali nas
quadras acontecia tudo. Quando o dinheiro não dava para pagar uma mesa
na lanchonete Americana, a farra era na Pizzaria Dom Bosco, na SQS 107.
Desde os anos 60, o Baixinho — dono da casa — serve a mesma pizza de
massa de pão crocante com tomate e queijo. Nunca teve mesa. Sempre foi
como é ainda, come-se em pé, no balcão ou na calçada. Uma forma não
demora muito mais do que dez minutos para esvaziar. Toda hora alguém
pede um pedaço. Ou um duplo: uma fatia em cima da outra. Igual antigamente.
‘‘É uma delícia!’’, garante a editora de livros
Caroline Soudant, 43 anos. Ela chegou a Brasília em 1960 e passou quase
toda a vida morando na SQS 706 — não morava na unidade vizinhança, mas
era lá que se divertia quando criança. ‘‘Eu conhecia todo mundo. A gente
ia ao teatro da Escola Parque, na entrequadra 307/308, e ao cinema da
107. Até o fim dos anos 60, tudo acontecia aqui’’, diz, enquanto come
um pedaço da pizza do Baixinho. Ela mora atualmente no condomínio Alvorada,
Lago Sul, mas não deixou nunca de voltar à pizzaria. ‘‘A gente adorava
isso aqui. Tive essa sorte...’’
A escola era ponto de encontro das famílias. ‘‘O
círculo de pais e mestres era uma festa’’, lembra a primeira diretora
da Escola Classe 108 Sul, Alita Vieira, hoje com 73 anos, moradora da
107. ‘‘A Escola Parque era o centro de atividades da comunidade, festas
do Dia das Crianças, Dia das Mães, festas juninas. A APM (Associação
de Pais e Mestres) tinha dinheiro, porque os pais tinham dinheiro. Os
funcionários ganhavam bem. Nas festas cada um contribuía com uma coisa.
Para passeios, sempre tinha alguém que arrumava um ônibus.’’
Naquele tempo, a escola não precisava de cercas
e grades. Era um ponto de referência forte na comunidade. Todos os que
tinham filhos pequenos — até a quarta série — participavam das atividades
das Escolas Classe da unidade vizinhança. ‘‘A integração era tanta que
os pais uma vez resolveram fazer um boteco na Escola Parque. Mas, aí,
nós diretores e professoras não concordamos. Não deixamos, ora...’’,
recorda Alita. ‘‘Mas tinham as noites de serenata na escola. Como as
noites maravilhosas com o pianista Nelson Freire...’’
As crianças passavam um turno nas Escolas Classe
e outro na Escola Parque. Passavam o dia todo estudando e com aulas
de teatro, natação, pintura, música.
Hoje, quase todas as crianças que estudam na Escola
Classe 108 são moradoras do Entorno. ‘‘Muito poucas moram aqui nas quadras.
Mas continuamos sendo referência de ensino no Distrito Federal’’, faz
questão de dizer a atual diretora, Ana Lúcia de Oliveira Nobrega, 39
anos. ‘‘Os professores que vêm para cá não querem mais sair. Todos amam
a escola. E todos têm filhos que estudam ou estudaram aqui.’’
O amor pela escola continua, mas Ana Lúcia diz que
a comunidade não tem, nem de longe, a mesma integração. ‘‘Cada um faz
a sua própria comunidade. Eu conheço o meu vizinho de porta e o zelador
do meu prédio. Só. Minha comunidade é na igrejinha.’’
Hoje, a igreja é um ponto de referência mais forte
do que a escola na unidade de vizinhança. As amizades se mantêm e se
renovam na igreja Nossa Senhora de Fátima, que fica bem no centro das
quatro quadras, entre a Escola Parque o comércio da 107/108. Mas, mesmo
com o crescimento da cidade, que ofereceu outras opções, diferentes
daquelas que existiam quando Brasília ainda era um canteiro de obras,
ali continua sendo um lugar agradável de moradia.
Especialmente por causa do Clube Unidade Vizinhança
— privilegiado local de lazer e esportes da cidade. De onde surgiram
atletas como o Oscar, do basquete. O técnico da garotada dava duro.
Uma vez por mês exigia o boletim escolar com notas boas. E dava bronca
nos garotos, quando algum pai reclamava do comportamento dos filhos
em casa. Os adolescentes da época continuam freqüentando o clube, o
cantinho de jogo de cartas e o restaurante da casa.
Hoje, porém, as quadras não têm o que era essencial:
a tranqüilidade. ‘‘Brasília era outra. Meu filho, Vinícius, de oito
anos, brinca embaixo do bloco, mas já foi assaltado por um menino com
um caco de vidro, por causa do relógio. Meu cunhado sofreu um seqüestro
relâmpago. A cidade está cheia de desempregados, que vieram para cá
por causa de um lote. Meu filho não pode mais ter o que eu tive’’, lamenta
a socióloga Rosemary Nascimento Silva, 40 anos, moradora da 108 até
a adolescência, e hoje moradora da 308.
Os freqüentadores da igrejinha Nossa Senhora de
Fátima também reclamam da falta de segurança. ‘‘As mulheres saem da
missa das 7 da noite correndo para as quadras, com medo. Em volta da
igreja está cheio de desocupados. Os bêbados chegam a entrar na hora
da missa para pedir dinheiro. É um absurdo’’, queixa-se a funcionária
pública aposentada Iara Silveira, 55 anos.
Mas nem tudo está perdido. O projeto de Lucio Costa
ainda não é uma página virada na história. O professor Cláudio Queiróz,
da Faculdade de Arquitetura da Universidade de Brasília, ressalta que
Brasília é uma cidade que ainda está sendo construída. ‘‘Nos anos de
ditadura, o governo evitou o projeto de unidades de vizinhança nas quadras
porque considerava uma força de voz política com uma competência que
não interessava ao sistema.’’
Cláudio lembra que, nos anos 60 e 70, qualquer grupo
com mais de duas pessoas em uma esquina poderia ser considerado uma
ameaça à segurança nacional, na visão repressora dos militares. Clubes,
escolas, cinema — todos os equipamentos comunitários das unidades de
vizinhança estimulariam a convivência em grupos. Em sua opinião, o projeto
de Lucio Costa não foi enterrado com a ditadura. ‘‘O Plano Piloto ainda
tem 35% dos terrenos disponíveis. As organizações da comunidade, como
as prefeituras das quadras, estão começando a cobrar os benefícios do
projeto original de Brasília. E esse projeto ainda vai ser construído.
Vamos resistir e construir a Brasília que queremos.’’