FALTAM 9 DIAS PARA BRASÍLIA COMPLETAR 40 ANOS

Era pra ser tudo assim

Unidade Vizinhança não é apenas o nome de clube — é o nome do conjunto de quadras e recursos urbanos que compunham o projeto residencial de Lucio Costa

 

Cristina Ávila
Da equipe do Correio

Raimundo Paccó 20.11.97

O que tem lá
* Clube
* Escolas Classe
* Escola Parque
* Igrejinha Nossa Senhora de Fátima
* Posto de saúde
* Cine Brasília
* Teatro da Escola Parque
* Jardim de Infância
* Comércio

Ricardo Borba 7.4.00

Alita Vieira, a primeira diretora da Escola Classe 108 Sul, e Ana Lúcia, diretora atual: colégio sem grades

‘‘Celiiinhaaaaa’’, gritavam as meninas embaixo do bloco F, na 108 Sul. Ela descia correndo. Lá saíam todas, vestidos rodados, bombril escondido no cabelo para armar o coque, iam para o baile aos sábados. Aos domingos, tinha missa, as adolescentes rezavam, mas estavam mesmo era de olho na paquera. Depois, corriam para gastar a mesada na Pizzaria Dom Bosco, que servia no balcão, como um bom boteco de esquina.

  Brasília começou como uma pequena comunidade. Na Asa Sul. Onde Juscelino Kubitschek passava acenando para as crianças. ‘‘Eu vi o presidente passar aqui perto de casa umas três vezes. Ele sempre dava um tchauzinho’’, conta a funcionária pública Célia Quintella. Era 1960, tinha 14 anos. Foi quando chegou à capital. Vivia na Unidade Vizinhança — o conjunto residencial idealizado pelo urbanista Lucio Costa. Ele projetou um para cada quatro superquadras, nas duas asas de Brasília. Cada conjunto teria todos os equipamentos necessários para a vida em comunidade.

  O único que chegou a ser totalmente construído foi o conjunto das superquadras 107, 108, 307 e 308 Sul. A unidade vizinhança tem até hoje o clube, as escolas classe, a Escola Parque, igrejinha Nossa Senhora de Fátima, o posto de saúde, o Cine Brasília, o teatro da Escola Parque, área de comércio, jardim de infância.

  A vida girava em torno da unidade vizinhança. Foi no clube da 108 Sul que foi formado o primeiro time de vôlei juvenil feminino de Brasília. Célia era atleta do time. A equipe às vezes viajava — Belo Horizonte, Goiânia. Celinha não ia. Mamãe não deixava. As meninas também fizeram o primeiro desfile de duas-peças da capital, o moderníssimo biquíni. Passavam os dias na escola, e à tarde iam à piscina.

  ‘‘Celiiinhaaaaa’’, gritava a mãe dela da porta dos fundos do apartamento. Naquela época as árvores não tinham ainda crescido, os galhos não impediam a visão do quinto andar, onde ela morava. A mãe conseguia controlar o movimento da filha no clube. ‘‘Tá na hora de vir praaa caasa’’, avisava à garota, sem sair do apartamento.

  ‘‘Na 108, onde hoje é a academia de balé da Norma Lilia, era a Americana, uma lanchonete dançante, que a gente ia depois da missa’’, conta Célia Quintella. ‘‘A gente comprava fazendas nas Casas Pernambucanas, que ficavam onde é hoje a Galeteria Gaúcha. Nós aprendíamos corte e costura na escola, e a gente mesmo costurava as roupas para as festas.’’

  A vida resumia-se à unidade vizinhança. Ali nas quadras acontecia tudo. Quando o dinheiro não dava para pagar uma mesa na lanchonete Americana, a farra era na Pizzaria Dom Bosco, na SQS 107. Desde os anos 60, o Baixinho — dono da casa — serve a mesma pizza de massa de pão crocante com tomate e queijo. Nunca teve mesa. Sempre foi como é ainda, come-se em pé, no balcão ou na calçada. Uma forma não demora muito mais do que dez minutos para esvaziar. Toda hora alguém pede um pedaço. Ou um duplo: uma fatia em cima da outra. Igual antigamente.

  ‘‘É uma delícia!’’, garante a editora de livros Caroline Soudant, 43 anos. Ela chegou a Brasília em 1960 e passou quase toda a vida morando na SQS 706 — não morava na unidade vizinhança, mas era lá que se divertia quando criança. ‘‘Eu conhecia todo mundo. A gente ia ao teatro da Escola Parque, na entrequadra 307/308, e ao cinema da 107. Até o fim dos anos 60, tudo acontecia aqui’’, diz, enquanto come um pedaço da pizza do Baixinho. Ela mora atualmente no condomínio Alvorada, Lago Sul, mas não deixou nunca de voltar à pizzaria. ‘‘A gente adorava isso aqui. Tive essa sorte...’’

  A escola era ponto de encontro das famílias. ‘‘O círculo de pais e mestres era uma festa’’, lembra a primeira diretora da Escola Classe 108 Sul, Alita Vieira, hoje com 73 anos, moradora da 107. ‘‘A Escola Parque era o centro de atividades da comunidade, festas do Dia das Crianças, Dia das Mães, festas juninas. A APM (Associação de Pais e Mestres) tinha dinheiro, porque os pais tinham dinheiro. Os funcionários ganhavam bem. Nas festas cada um contribuía com uma coisa. Para passeios, sempre tinha alguém que arrumava um ônibus.’’

  Naquele tempo, a escola não precisava de cercas e grades. Era um ponto de referência forte na comunidade. Todos os que tinham filhos pequenos — até a quarta série — participavam das atividades das Escolas Classe da unidade vizinhança. ‘‘A integração era tanta que os pais uma vez resolveram fazer um boteco na Escola Parque. Mas, aí, nós diretores e professoras não concordamos. Não deixamos, ora...’’, recorda Alita. ‘‘Mas tinham as noites de serenata na escola. Como as noites maravilhosas com o pianista Nelson Freire...’’

  As crianças passavam um turno nas Escolas Classe e outro na Escola Parque. Passavam o dia todo estudando e com aulas de teatro, natação, pintura, música.

  Hoje, quase todas as crianças que estudam na Escola Classe 108 são moradoras do Entorno. ‘‘Muito poucas moram aqui nas quadras. Mas continuamos sendo referência de ensino no Distrito Federal’’, faz questão de dizer a atual diretora, Ana Lúcia de Oliveira Nobrega, 39 anos. ‘‘Os professores que vêm para cá não querem mais sair. Todos amam a escola. E todos têm filhos que estudam ou estudaram aqui.’’

  O amor pela escola continua, mas Ana Lúcia diz que a comunidade não tem, nem de longe, a mesma integração. ‘‘Cada um faz a sua própria comunidade. Eu conheço o meu vizinho de porta e o zelador do meu prédio. Só. Minha comunidade é na igrejinha.’’

  Hoje, a igreja é um ponto de referência mais forte do que a escola na unidade de vizinhança. As amizades se mantêm e se renovam na igreja Nossa Senhora de Fátima, que fica bem no centro das quatro quadras, entre a Escola Parque o comércio da 107/108. Mas, mesmo com o crescimento da cidade, que ofereceu outras opções, diferentes daquelas que existiam quando Brasília ainda era um canteiro de obras, ali continua sendo um lugar agradável de moradia.

  Especialmente por causa do Clube Unidade Vizinhança — privilegiado local de lazer e esportes da cidade. De onde surgiram atletas como o Oscar, do basquete. O técnico da garotada dava duro. Uma vez por mês exigia o boletim escolar com notas boas. E dava bronca nos garotos, quando algum pai reclamava do comportamento dos filhos em casa. Os adolescentes da época continuam freqüentando o clube, o cantinho de jogo de cartas e o restaurante da casa.

  Hoje, porém, as quadras não têm o que era essencial: a tranqüilidade. ‘‘Brasília era outra. Meu filho, Vinícius, de oito anos, brinca embaixo do bloco, mas já foi assaltado por um menino com um caco de vidro, por causa do relógio. Meu cunhado sofreu um seqüestro relâmpago. A cidade está cheia de desempregados, que vieram para cá por causa de um lote. Meu filho não pode mais ter o que eu tive’’, lamenta a socióloga Rosemary Nascimento Silva, 40 anos, moradora da 108 até a adolescência, e hoje moradora da 308.

  Os freqüentadores da igrejinha Nossa Senhora de Fátima também reclamam da falta de segurança. ‘‘As mulheres saem da missa das 7 da noite correndo para as quadras, com medo. Em volta da igreja está cheio de desocupados. Os bêbados chegam a entrar na hora da missa para pedir dinheiro. É um absurdo’’, queixa-se a funcionária pública aposentada Iara Silveira, 55 anos.

  Mas nem tudo está perdido. O projeto de Lucio Costa ainda não é uma página virada na história. O professor Cláudio Queiróz, da Faculdade de Arquitetura da Universidade de Brasília, ressalta que Brasília é uma cidade que ainda está sendo construída. ‘‘Nos anos de ditadura, o governo evitou o projeto de unidades de vizinhança nas quadras porque considerava uma força de voz política com uma competência que não interessava ao sistema.’’

  Cláudio lembra que, nos anos 60 e 70, qualquer grupo com mais de duas pessoas em uma esquina poderia ser considerado uma ameaça à segurança nacional, na visão repressora dos militares. Clubes, escolas, cinema — todos os equipamentos comunitários das unidades de vizinhança estimulariam a convivência em grupos. Em sua opinião, o projeto de Lucio Costa não foi enterrado com a ditadura. ‘‘O Plano Piloto ainda tem 35% dos terrenos disponíveis. As organizações da comunidade, como as prefeituras das quadras, estão começando a cobrar os benefícios do projeto original de Brasília. E esse projeto ainda vai ser construído. Vamos resistir e construir a Brasília que queremos.’’


Vida de pioneiro
Lembranças das tertúlias
 
Andrea Catta Preta
Especial para o Correio
 
Wanderlei Pozzembom 7.4.00

Lília Magnavita: do tempo das seriemas assustadas

Vinda de Salvador, na Bahia, com o ideal de construir algo novo, a poeta Lília Portugal Magnavita chegou à capital em 16 de abril de 1960. ‘‘Saí de Salvador até com banda de música. E, quando cheguei, Brasília estava vazia. Foi um domingo muito nostálgico.’’ Mas a nostalgia trouxe inspiração. Convocada pela Comissão de Administração de Sistema Educacional de Brasília (Caseb) para ser professora na cidade que nascia, Lilia deixou os mares de Salvador para encontrar o mais belo entardecer jamais visto. ‘‘Brasília reacendeu o meu lado poético. As construções pareciam módulos celestiais pousados no Planalto com um traçado bonito e majestoso. E um crepúsculo que me encanta até hoje.’’

Ela veio no vôo inaugural da companhia aérea Cruzeiro do Sul, e encontrou saraus literários e serenatas na vida intelectual que crescia junto à capital.‘‘Foram tempos maravilhosos. Faziamos tertúlias na casa de Israel Pinheiro, Oscar Niemeyer e Bernardo Sayão.’’ A Brasília da época era feita de surpresas e fazia que as pessoas reinventassem os seus parâmetros. ‘‘Tínhamos a chance de encontrar seriemas assustadas com o movimento, e o meu mar passou a ser o verde que começava a brotar na capital’’.

Autora do poema Aqueles Candangos, o primeiro que fez na cidade e que lhe trouxe o seu primeiro prêmio como poeta, Lilia dava aulas de teatro, desenho e biblioteca na Escola Parque. A tarefa a levou a criar a primeira peça de teatro realizada oficialmente em Brasília. ‘‘Não havia nenhuma condição de trabalho, então fizemos um quadro de Natal muito simples, mas as crianças e os pais adoraram.’’

E, para isso, a também acadêmica do Instituto Histórico e Geográfico do Distrito Federal e da Academia de Letras de Brasília, deixava que os costumes regionais a guiassem na tarefa de lecionar. Aplicava jogos dramáticos que permitiam maior acervo às culturas.‘‘Cada criança era uma riqueza para a cidade que estava nascendo.’’

Hoje, acadêmica de instituições nacionais e internacionais, e autora de livros de poesia como A Porta do Século e Poesia ... Enquanto é Tempo, Lilia orgulha-se de ter vindo para a cidade dos entardeceres e da amplidão. ‘‘Tenho hoje o privilégio de ver o crepúsculo com traços de fogo que nos trazem um laivo de nostalgia. Brasília é a melhor cidade para se viver.’’

 


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