MUDANÇA DE ROTA

Tema do dia - O sonho ameaçado

Passados 40 anos, foram muitas as alterações no projeto original. O horizonte, que deveria ser completamente aberto, está sendo interrompido pelos prédios altos


Rovênia Amorim
Da equipe do Correio

Edson Gês
Na cidade planejada, a arquitetura foi pensada levando em conta o céu aberto. Os prédios seriam alinhados em tamanho controlado para não perturbar o horizonte

O céu do planalto encantou Lucio Costa. O urbanista traçou uma cidade de prédios baixos, cheia de vazios e de respeito, obra atenta à geografia. Passados 40 anos, as linhas do horizonte não são mais as mesmas. Não foi preservada a arquitetura sensível, modernista. A ignorância, a ambição de ocupar os espaços corrompem a idéia original de se construir uma capital civilizada.

  As invasões de terra pública ao redor do Plano Piloto preenchem os vazios onde planejava-se construir um novo lago e barram a vista antes ininterrupta. Do mirante da Torre de Tevê, não se enxerga mais o infinito do céu de Brasília. O horizonte ficou reduzido e mais perto com as coberturas e os telhados de casas enfileiradas ao longe. Nada disso foi planejado. Não era para ser assim.

  A ocupação na nova capital deveria partir das cidades, não das áreas contíguas ao núcleo original, o Plano Piloto. ‘‘Não temos mar nem montanhas. Mas tínhamos a beleza do horizonte encontrando o céu’’, lamenta o arquiteto Cláudio Queiroz, 51, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Brasília (UnB).

  A intenção de Lucio Costa era de respeito a escala do lugar, criando o exemplo de como uma cidade pode se relacionar com a natureza. ‘‘A primeira coisa que se perdeu em Brasília foi a compreensão do lugar. Hoje, em vez do céu e do horizonte, temos a desordem dos assentamentos, dos condomínios.’’ Rompeu-se com a relação de espaço e silêncio.

  Iniciou-se um conflito urbano que foi planejado para não existir. O barulho dos bares e das discotecas que não deveriam estar debaixo da janela do prédio. As vagas são roubadas dos estacionamentos. O comércio local vira point nas noites da capital. ‘‘Essa é a história da especulação. Sugam todo o espaço possível, jogam o bagaço fora e depois se mudam para Miami’’, critica o arquiteto Haroldo Pinheiro, 47, vice-presidente do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB).

  Na cidade planejada, onde o céu integra-se à arquitetura, nem mesmo a brisa do Lago Paranoá foi esquecida. Na cabeça do urbanista, a idéia romântica do abrir a janela do apartamento e avistar o Lago Paranoá. Por isso, prédios com menos andares nas quadras do Plano Piloto mais próximas ao Lago. Até essa bela vista tenta-se tirar dos moradores da cidade.

  É a força da especulação imobiliária que deixou na orla do Lago o esqueleto de um prédio de 17 andares que seria um hotel. A obra foi embargada por afrontar a lei de tombamento da cidade. ‘‘Se enchermos a borda do lago com prédios altos, a brisa planejada não chega às quadras 600, 400, 200 e 100’’, diz Cláudio Queiroz. ‘‘Seria uma parede na beira do Lago Paranoá.’’

  Mas nem sempre o bom senso vence. As quadras 700 são exemplo cruel da vitória da especulação imobiliária. As casas geminadas, de apenas um pavimento, são hoje exceção. Foram, ao longo desses 40 anos, substituídas por construções diferenciadas, de dois e até três pavimentos. ‘‘Acafonaram o lugar. Querem criar mansões num terreno pequeno’’, irrita-se o professor de Arquitetura.

  O arquiteto Haroldo Pinheiro também critica alterações feitas no desenho da capital nesses 40 anos. ‘‘A cidade está cheia de vazios, incompleta e a pressão é sempre para aumentar os gabaritos.’’ O exemplo mais recente é a cobertura em prédios do Plano Piloto. Na verdade, um sétimo andar, que desvirtua a obra de Lucio Costa e ameaça o tombamento da cidade como Patrimônio Cultural da Humanidade.

  A culpa de tudo isso? O arquiteto não tem dúvidas. ‘‘Das administrações sucessivas. Será que os administradores e os deputados dessa cidade conhecem de trás para frente o relatório do Plano Piloto de Brasília e o Brasília Revisitada, de Lucio Costa? Como vai-se administrar Brasília se nos depararmos com a ignorância?’’

  O arquiteto Carlos Magalhães, 65, incansável defensor da cidade, inventou até uma frase de súplica que usa sempre quando entra na briga para evitar mais um estrago no traçado urbano. ‘‘Por que não transformar Taguatinga em Nova York e deixar o Plano Piloto ser Washington?’’. E explica: ‘‘Não é possível manter Brasília como cidade tombada, longe da especulação imobiliária, sem que os gabaritos das satélites sejam corajosamente liberados.’’

CIDADES APRESSADAS

  Sem planejamento, as alterações trazem problemas. E Brasília é cheia de exemplos. Os engarrafamentos, o verde que perde espaço para novas construções. Tudo explicável quando se entende a história de uma cidade que foi planejada para ter 600 mil habitantes até 2000 e não para sustentar mais de um milhão e meio de pessoas — a população das demais cidades do Distrito Federal. Sem contabilizar o Entorno.

  As cidades foram criadas na pressa para abrigar candangos que construíram o Plano Piloto e precisavam sair dos acampamentos que seriam inundados pelo Lago Paranoá e as milhares de famílias que chegavam de toda parte do Brasil, atraídas pela chance de emprego. Invasões proliferavam pela W3 Sul, Cidade Livre (hoje Núcleo Bandeirante) e ao longo da estrada Brasília-Anápolis (Vila Sarah Kubitschek).

  Em 1958, o traçado da cidade de Taguatinga estava apenas em estudo, quando a ocupação da área teve de ser feita por força dos barracões de madeira velha, de lata e folhas de zinco que se espalhavam entre as obras da nova capital. Quarenta anos depois, as cidades criadas sem planejamento ainda estão à deriva, equilibrando-se nos empregos e serviços (de saúde e educação) do Plano Piloto.

  A idéia original não era essa. As cidades deveriam ser autônomas, com trabalho e escolas e hospitais de qualidade para seus moradores. ‘‘De nada adiantou a recomendação de Lucio Costa para que se iniciasse o planejamento regional do Distrito Federal, simultaneamente à construção de Brasília’’, diz o arquiteto Gladson da Rocha, que trabalhou oito anos no antigo Departamento de Urbanismo e Arquitetura (DUA) da Novacap, dirigido por Oscar Niemeyer.   ‘‘Taguatinga, Gama e Sobradinho foram traçadas por equipes alheias ao DUA, sem nenhum critério relacionado com o Plano Piloto. O resultado é vergonhoso. Durante muitos anos, as satélites vão continuar como cidades dormitórios’’, conta. O grupo de arquitetos que trabalhava com Oscar Niemeyer queria as cidades próximas à divisa com o Entorno.

  O morador teria, como primeira opção de trabalho, a sua própria cidade e depois a cidade vizinha ou a periferia goiana do Distrito Federal. ‘‘Dessa maneira, se diminuiria o número de viagens diárias para Brasília e se desafogariam o transporte e os equipamentos urbanos locais’’, diz Gladson da Rocha.

  Na visão do arquiteto, pior do que a criação das cidades, sem o planejamento e sem condições de sustentar a população que abriga, foi o inchaço da chamada área metropolitana de Brasília. O adensamento populacional ao redor do Plano Piloto estava previsto para ocorrer fora da Bacia do Paranoá, para além da Estrada Parque Ceilândia-Taguatinga (EPCT), que delimita a região administrativa de Brasília. A estratégia era criar um cinturão verde de proteção à cidade e de preservação das nascentes.

  O ideal, no entanto, começou a se perder com a fixação da Cidade Livre. Em seguida, viria a criação do Guará I, projetada para atender a trabalhadores do Setor de Indústria e Abastecimento. Um aglomerado que teria, no máximo, 500 casas, segundo despacho de Lucio Costa. Mas já nasceu com 10.500 residências. Depois tomaram forma Cruzeiro, Octogonal, Candangolândia e os parcelamentos irregulares de chácaras das colônias agrícolas na região administrativa de Taguatinga. Terras que deveriam estar produzindo hortifrutigranjeiros para abastecer o Plano Piloto.


Cidade de espaço e silêncio

A ânsia por ocupar os espaços vazios próximos do Plano Piloto fez explodir, na década de 80, os condomínios irregulares, soterrando a concepção original de se construir um segundo lago, com o represamento do Rio São Bartolomeu. Sem o lago, deu-se também adeus ao surgimento de dois novos bairros para a classe média — os Entrelagos.

  ‘‘Brasília foi construída sob a concepção de espaço e silêncio. Sem eles, há o conflito urbano e a perda da qualidade de vida’’, diz o arquiteto Cláudio Queiroz, da Universidade de Brasília. Exemplo disso, é o completo esquecimento do conceito de unidade de vizinhança. No traçado urbanístico de Lucio Costa, cada conjunto de quatro superquadras constituiria uma unidade de vizinhança.

  Uma área reservada para a complementação dos serviços do comércio local das superquadras, como escola-parque, supermercado, igreja, cinema, praças, posto médico e policial, Correios e clube social. ‘‘É um espaço reservado à comunidade e que esteve adormecido esse tempo todo. Mas não é um despropósito acordar agora, 40 anos depois. É a hora de repensarmos as coisas boas que ficaram para trás’’, entusiasma-se o presidente do Conselho Comunitário da Asa Sul, Inácio de Loiola, 56.

  ‘‘Por serem espaços caros, os governos sempre empurram com a barriga a decisão de completar Brasília. E a especulação imobiliária vence. No lugar de um clube de vizinhança, surgem os McDonald’s da vida’’, critica Gilson Paranhos, 44, presidente do Instituto de Arquitetos do Brasil, seção do Distrito Federal (IAB/DF).

  Quarenta anos depois de inaugurada, Brasília tem apenas uma unidade de vizinhança (das quadras 308, 307, 108 e 107) completa, quando o planejado era ter cerca de 30. Outras idéias da cidade verde e humanista foram corrompidas: o conceito de calçada. Elas não estariam à beira das pistas, como nas demais cidades, mas sob os prédios de pilotis. O recreio coberto para as crianças das superquadras.

  Hoje é cada vez mais difícil pisar nessas calçadas. Os blocos de festas se fixaram como novo traço na arquitetura de Oscar Niemeyer. E brotaram as cercas vivas. ‘‘Cercear um piloti é cercear o que Brasília tem na sua essência, a idéia de liberdade’’, diz o arquiteto Cláudio Queiroz, 51, da Universidade de Brasília. ‘‘É preciso recuperar a consciência de Brasília. De não ser só a cidade, mas a civilização moderna do planeta. A cultura plurirracial do homem brasileiro.’’ (RA)


O que deu certo

O Setor de Embaixadas foi planejado para ser museu da arquitetura contemporânea do mundo. Os lotes seriam doados aos países com a condição de que construíssem em Brasília um exemplar da sua melhor arquitetura atual. ‘‘Não deu certo, o que se vê é um desastre total. Um atraso mental terrível’’, critica o arquiteto Gladson da Rocha. A Embaixada do México é uma exceção. Ela não tem grade nem muro. O embaixador do México, Jorge Eduardo Navarrete, acredita que a cidade é um corpo vivo que deve crescer de forma organizada. Mas ‘‘o crescimento não pode ser uma ameaça ao que já existe’’.


MUDANÇA DE ROTA

Há, pelo menos, 18 agressões ao traçado de Brasília. Algumas produzidas pela especulação imobiliária. A idéia de uma unidade de vizinhança ficou restrita a apenas uma quadra

Leia mais: Onde está Brasília (arquivo em formato PDF - 135 Kb)

Desde a alteração no gabarito dos prédios,que bloqueia o horizonte aberto, à ocupação urbana do cinturão verde,são muitas as mudanças no projeto de Lucio Costa


Personagem do dia: O querido do Beirute
 
Juliana Monteiro
Especial para o Correio
 
Jorge Cardoso
 

A placa não deixa dúvidas: ‘‘restaurante desde 1966’’. É o mais tradicional da cidade. Cícero, o garçom, é quase tão famoso quanto a casa. Em 24 de março de 1977, Cícero Rodrigues dos Santos deixou a Paraíba, onde nasceu, para trabalhar em Brasília. No dia 25, já era garçom do Beirute. Camelô, filho de agricultores, Cícero rumou para a capital à procura de melhores oportunidades. Os pais, João Rodrigues dos Santos e Sebastiana Maria da Conceição, choraram muito, mas apoiaram a decisão do mais velho de três filhos. ‘‘Meu pai já morreu e minha mãe sente a minha falta até hoje’’, conta Cícero, 50 anos. Se fosse feita uma pesquisa entre os freqüentadores mais fiéis, com certeza Cícero seria escolhido o garçom mais querido do Beirute. O que pode ser comprovado pela sua recente mudança de horário, da noite para o dia. ‘‘Trabalhei 22 anos à noite. Há dois meses, durante uma reunião, sugeri que fizéssemos um revezamento para que os funcionários da noite pudessem descansar e os do dia, ganhar um pouco melhor. Mas não deu certo’’. Os clientes da noite ameaçaram fazer até um abaixo-assinado reivindicando sua volta. Chegaram a colocar o apelido de ‘‘Cícero Júnior’’ em Damião, o substituto da noite. Depois de instalado em Brasília, Cícero trouxe a mulher, Gilsa, e o filho Fábio (20) hoje, estudante de Química na UnB. Aqui, teve mais três filhos. ‘‘Adoro Brasília. Visito, de vez em quando, a Paraíba mas fico louco para voltar.’’ Por que você veio para Brasília? ‘‘Eu trabalhava como camelô na Paraíba, mas as coisas não estavam boas por lá. Foi então que um amigo, que morava em Brasília, me falou da vaga no Beirute. Arrumei minhas coisas e aqui estou.’’ O que mais gosta aqui? ‘‘Meus amigos. Principalmente os que fiz no Beirute. São meus amigos o que mais me prende em Brasília.’’ O que mais detesta? A marginalidade e a insegurança que se vive aqui. Quando cheguei à cidade não era assim.’’ O que mais falta à cidade? ‘‘Falta mais respeito das pessoas com os outros.’’ Qual o primeiro lugar onde você levaria um turista? ‘‘Na Catedral. Sou religioso e acho que todos deveriam conhecer a bela catedral de Brasília.’’ O dia ou a noite de Brasília? ‘‘Noite. É mais animado e eu adoro um agito!‘‘ De onde a vista de Brasília é mais bonita? ‘‘Da Esplanada dos Ministérios.’’ O que você responde quando alguém fala mal de Brasília? ‘‘Exijo mais respeito. É a capital do Brasil. Falar mal de Brasília é cuspir no prato que come.’’


Da pré-história ao desejo de mudança

Lá do alto, dá para ver que o vale termina num riacho. Paisagem paradisíaca num lugar a 30 quilômetros do Plano Piloto. Não se dirá o endereço exato, para que o sítio arqueológico mais importante do Distrito Federal não seja destruído. É um lugar desprotegido, numa propriedade particular, onde o arqueólogo Eurico Theofilo Miller encontrou, em 1993, indícios de acampamento pré-cerâmico. Passados sete anos, a datação do material recolhido ainda não foi feita, mas supõe-se que sejam provas da presença humana na região há 7 mil anos.

  As pesquisas arqueológicas no Centro-Oeste brasileiro já conseguiram evidências da presença do homem na região desde 12 mil anos atrás. Não há pesquisa sistemática sobre a pré-história do Distrito Federal. A maior parte do que se conseguiu saber foi em estudos para a expansão urbana. O Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) fez um rastreamento arqueológico da área. Foi assim que Eurico Miller chegou ao sítio onde foram encontradas pedras transformadas em ferramentas e, o mais importante dos achados, uma ponta de flecha lascada em cristal de quartzo.

  Foi grande, porém efêmero, o entusiasmo que se seguiu a essa descoberta. Uma equipe de arqueólogos do Museu de História Natural da Universidade Federal de Minas Gerais fez uma sondagem no local, escavou duas pequenas áreas, recolheu material e não mais voltou. O arqueólogo André Prous, do museu mineiro, explica que a equipe ficou esperando a promessa de financiamento para a pesquisa. Passados três anos da sondagem, nada aconteceu. O Iphan esclarece que não houve como arranjar recursos. E tudo ficou como dantes.

  Tudo indica, diante das circunstâncias, que o sítio arqueológico a céu aberto esteja condenado a se desfazer por conta do abandono e da curiosidade dos que sabem onde ele fica. A proprietária da chácara, Terezinha Vieira Lins, 59 anos, até hoje sonha em encontrar ali algo mais que pedras. ‘‘Bem que podia ter ouro, né?’’, diz ela, abaixando-se aqui e ali para recolher cacos que só um arqueólogo saberá dizer se têm valor.

  O arqueólogo Eurico Miller identificou, no tempo em que trabalhou para o Iphan, 26 sítios arqueológicos pré-históricos no DF. O Iphan não tem, no momento, nenhum projeto ou estudo sistemático sobre a pré-história da capital do país. ‘‘Faltam recursos’’, resume Fernando Madeira, superintendente-substituto do Iphan.

Bem antes de Juscelino

Estudar a presença do homem no lugar onde milhares de anos depois seria construída uma grande cidade desfaz a falsa imagem de que nada havia nesses confins do cerrado antes da chegada de Juscelino Kubitschek. Nem mesmo o sonho de construção da capital nasceu com JK, como podem acreditar os apressados. O historiador Paulo Bertran, autor da História da Terra e do Homem no Planalto Central, lembra que o sonho de uma capital no interior do país vem desde os inconfidentes. ‘‘Essa idéia varou séculos, talvez nunca uma outra idéia neste país tenha resistido tanto tempo.’’

  Bem o disse o general Djalma Polli Coelho, chefe da Comissão de Estudos para a Localização da Nova Capital do Brasil: ‘‘A notável continuidade de propósito (o de interiorizar a capital)...chama a atenção num país onde a versatilidade é a regra’’. Coelho referia-se à permanência da idéia nas Constituições brasileiras.

  O Marquês de Pombal foi um dos primeiros a sonhar com a capital do lado de dentro do país. Para ele, o Rio de Janeiro seria apenas uma capital temporária, até que fosse erguida uma cidade nova no interior do Brasil cujo destino era ser não apenas a sede da colônia, mas sim a do Reino de Portugal. Assim, os portugueses teriam um império a meio caminho da África e das Índias.

  Se os interesses do Marquês eram de manter a hegemonia portuguesa na corrida para dominar o mundo, um cartógrafo de nome Francisco Tosi Colombina queria apenas facilitar o transporte de mercadorias de São Paulo a Cuiabá. O Conselho Ultramarino, em 1750, aprovou o pedido de Tosi, mas a estrada não foi aberta.

  Quatro décadas mais tarde, um grupo de revolucionários sonhava com um país independente e escolheu, para a capital deste Brasil republicano, São João del Rei (MG). Para o mais eminente desses revoltosos, Tiradentes, a cidade era ideal ‘‘por ser mais bem situada e farta em mantimentos’’.

  Até mesmo um chanceler inglês, William Pitt, sugeriu à família real portuguesa, em 1809, a construção de uma Nova Lisboa no centro do Brasil, de onde se abririam estradas para o Pará, Rio de Janeiro, Olinda, Salvador.

  Mas foi o jornalista Hipólito José da Costa, fundador do Correio Braziliense, quem arrematou o sonho a esta altura quase secular e lhe deu amplitude até então inédita. Nas páginas do jornal que era editado em Londres e chegava clandestinamente ao Brasil, Hipólito desbancava o Rio de Janeiro (por não ter ‘‘nenhuma das qualidades que se requerem na cidade que se destina a ser a capital do Império do Brasil’’) e propunha uma nova capital no interior.

ESTRADAS PARA O MAR

  A cidade nova teria estradas para todos os portos do mar e, para isso, seriam removidos ‘‘os obstáculos naturais que têm os diferentes rios navegáveis’’. Estariam lançados, assim, ‘‘os fundamentos do mais extenso, ligado, bem defendido e poderoso império, que é possível que exista na superfície do globo no estado atual das nações que o povoam’’.

  Foi o dedo de José Bonifácio de Andrada e Silva que assegurou, em 1822, a construção da nova capital nas reivindicações dos deputados brasileiros à Constituição Portuguesa. ‘‘O Congresso brasiliense ajuntar-se-á na capital, onde ora reside o Regente do Reino do Brasil, em quanto se não funda no centro d’aquele uma nova capital.’’

  Éramos independentes de Portugal havia oito meses, quando José Bonifácio propõe, em texto lido na sessão da Assembléia Geral Constituinte e Legislativa do Império, a criação da nova capital em Paracatu (MG).

  Mas foi o historiador Francisco Adolfo Varnhagen, Visconde de Porto Seguro, quem fez da futura Brasília uma causa nacional. Temia a invasão do país ‘‘por qualquer inimigo superior no mar, que se proponha a arrancar do Governo, pela ameaça, concessões em que não poderia pensar se o Governo aí não se achasse’’.

  Um século antes da chegada dos primeiros candangos para esse mar de terra vermelha, Varnhagen escreveu: ‘‘...a própria Providência concedeu ao Brasil uma paragem mais central, mais segura, mais sã e própria a ligar entre si os três grandes vales do Amazonas, do Prata e do São Francisco, nos elevados chapadões, de ares puros, de águas boas e até de abundantes mármores, vizinho do triângulo formado pelas três lagoas, Formosa, Feia e Mestre d’Armas’’.

  Setenta anos antes de o primeiro facão abrir caminho para os candangos, Brasília estava prescrita em sessão da Primeira Assembléia Nacional Constituinte da República, em 1890. A Constituição delimita uma área quase três vezes maior que a hoje ocupada pelo Distrito Federal, 14.400 quilômetros quadrados no Planalto Central.

  Um ano e três meses depois, era constituída a Comissão Cruls, liderada pelo diretor do Observatório Astronômico do Rio de Janeiro, Luis Cruls, que produziu um levantamento de topografia, clima, botânica, povoação, astronomia e geologia o mais completo já feito de uma só tacada nos 14.400 quilômetros quadrados, dentro dos quais estão hoje os 5.782 quilômetros quadrados do Distrito Federal. Mas isso é história para a semana que vem.

  Série História: Uma idéia que varou séculos
   
1750 O cartógrafo Francisco Tosi Colombina pede ao Conselho Ultramarino a abertura de uma estrada que ligasse Cuiabá a Santos (SP). A idéia é aprovada, mas a via não foi construída
1761 O Marquês de Pombal sugere que a capital do Reino de Portugal seja construída no sertão do Brasil
1789 Os inconfidentes defendem a mudança da capital do país para São João Del Rei (MG).
1809 O embaixador inglês junto às cortes portuguesas, William Pitt, sugere a mudança da capital para o interior do país
1813 O Correio Braziliense publica os primeiros artigos de Hipólito José da Costa em defesa da transferência da capital para o interior do país. Novos artigos são publicados em 1818 e 1822.
1821 José Bonifácio de Andrada e Silva sugere a criação de uma ‘‘cidade central no interior do Brasil, para assento da Corte de Regência, que poderá ser na latitude, pouco mais ou menos de 15 graus...’’
1822 Deputado propõe a criação da capital do Reino ‘‘no centro do Brasil’’, com denominação ‘‘Brasília ou qualquer outra’’.
1823 Em sessão de 9 de junho da Assembléia Geral Constituinte e Legislativa do Império do Brasil, José Bonifácio apresenta a ‘‘Memória sobre a necessidade e meios de edificar no interior do Brasil uma nova capital’’.
1839 O historiador Francisco Adolfo Varnhagen manifesta-se a favor da mudança da sede do governo, primeiro para São João Del Rei (MG) e depois para o planalto de Formosa, Goiás.
1883 Em 30 de agosto, São João Bosco tem um sonho que passa a ser o símbolo dos desejos de construção de Brasília.
1890 A Constituição Provisória determina a mudança da capital.
1891 A Primeira Constituição da República estabelece, em seu artigo terceiro: ‘‘Fica pertencente à União, no Planalto Central da República, uma zona de 14.400 quilômetros quadrados, que será oportunamente demarcada, para nela estabelecer-se a futura capital federal’’.
1892

Floriano Peixoto constitui a Comissão Exploradora do Planalto Central do Brasil, sob a chefia do cientista Luiz Cruls, diretor do Observatório Astronômico do Rio de Janeiro, para estudar e demarcar a área do Distrito Federal. No dia 9 de junho, a Missão Cruls parte em direção ao Planalto Central.

1893 Editado um mapa do Brasil tendo, no planalto de Goiás, um retângulo com a inscrição: ‘‘Futuro Distrito Federal’’
1894 A Missão Cruls apresenta o relatório final indicando uma área retangular de 14.400 quilômetros quadrados para a nova capital do país.
1895 Elaborado o primeiro mapa do Distrito Federal pela Comissão de Estudos da Nova Capital da União.
1920 O presidente Epitácio Pessoa assina decreto legislativo que prevê o início da construção da nova capital.
1922 Em 7 de setembro, é lançada a Pedra Fundamental da Nova Capital, a nove quilômetros da cidade de Planaltina, Goiás.
1934 A Constituição prevê a mudança da capital.
1946 A mudança da capital para o Planalto Central é incluída nas Disposições Transitórias da Constituição. O presidente Eurico Gaspar Dutra nomeia a Comissão Polli Coelho para localizar a nova capital.
1953 Decreto 32.976, de 8 de julho, constitui a Comissão de Localização da Nova Capital, chefiada pelo general Aguinaldo Caiado de Castro que, em 1954, foi substituído pelo marechal José Pessoa.
1955 Em 4 de abril, num comício na cidade de Jataí, Goiás, o candidato à Presidência da República Juscelino Kubitschek respondendo a uma pergunta, faz a promessa de que, se eleito, fará a transferência da capital para o Planalto.
1956

Em 18 de abril, o presidente Juscelino Kubitschek manda ao Congresso a Mensagem de Anápolis na qual propõe a criação da Companhia Urbanizadora da Nova Capital do Brasil (Novacap) e o nome Brasília para a cidade. Câmara e Senado aprovam o projeto, por unanimidade. É sancionada a Lei 2.874, de 19 de setembro. No mesmo dia, é lançado o Concurso do Plano Piloto.

1957 A Lei 3.273, de 1º de outubro, fixa a data de transferência do Distrito Federal para 21 de abril de 1960. Projeto do urbanista Lucio Costa vence o Concurso do Plano Piloto.
1960 Em 21 de abril, Brasília é inaugurada.
  Obras consultadas:
 

Brasília, História de uma Idéia e Antecedentes Históricos, Coleção Brasília, Serviço de Documentação da Presidência da República, Rio de Janeiro, 1960; História da Terra e do Homem no Planalto Central, Paulo Bertran, Editora Verano, Brasília, 1999; História de Brasília, Ernesto Silva, Câmara de Dirigentes Lojistas-DF, 1997.

 

Leia na Série História

Na próxima segunda-feira 19 de março: A Missão Cruls era composta de 22 homens a cavalo e 206 caixas e fardos. Vinha conhecer palmo a palmo a área onde seria construída a capital do Brasil

* Pesquisa e texto: Conceição Freitas

 


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