Brasília completa quarenta anos como projeto interrompido.
Foi resultado de uma utopia política já no século 19, como sede de um
Estado Nacional emergente, em busca de sua configuração territorial,
política e militar definitiva. No século 20, a audácia de Juscelino
Kubitscheck e um momento histórico favorável, com apoio das elites econômicas
em expansão pelo território nacional, permitiu sua concretização.
Projetada como cidade-estado, centro político e
administrativo do Brasil, Brasília foi desenhada para comportar 500
mil habitantes. Muita coisa mudou, depois do projeto e de sua inauguração.
Um dos requerimentos para ‘‘Brasília dar certo’’
seria a existência de um planejamento central, de natureza estatal,
para a implantação de um desenvolvimento nacional regionalmente equilibrado.
São Paulo ultrapassou o Rio de Janeiro, como sede da grande economia
industrial, concentrou os outros ramos da produção, atraiu gente. O
nordeste começou sua última onda descendente de crescimento econômico,
expulsou população, foi politicamente desestruturado e não se modernizou.
Com o extremo sul ocorreu o mesmo, depois do ápice da economia agropecuária.
Foram gerados desequilíbrios regionais enormes, o Estado começou seu
refluxo mais recentemente. Tornou-se menor em tamanho, assumiu um caráter
crescentemente regulatório, deixou de atrair novos quadros (funcionários
e técnicos).
Brasília, como São Paulo, atraíram populações nordestinas,
em grandes proporções. Hoje, cerca de 58% de nossos imigrantes recentes
vêm do Piauí e da Bahia. O sonho de realização da cidadania (escola,
emprego, assistência à saúde) atrai, legitimamente, despossuídos de
modo geral. Brasília atrai, também, recursos humanos altamente capacitados,
que vêm a compor inicialmente a Universidade de Brasília, por exemplo.
Uma cidade nacional e brasileira, por excelência.
Brasília é uma cidade classificamente político-administrativa.
Nasceu para ser sede do Governo. Sua função primordial é burocrática.
Mas, a diminuição do aparelho de Estado e suas funções — no novo quadro
econômico da globalização — obriga à redefinição de sua vocação. Isto
cria um dualismo inevitável, entre a cidade da política e a cidade convencional.
Hoje, Brasília tem diante de si vários paradoxos
a enfrentar. O setor público deixa de ser o grande empregador, a cidade
vai obrigando empresas de alta concentração de capital e conhecimento
(informática, administração e gestão, biotecnologia), ao mesmo tempo
que convive com a mais alta taxa de desemprego urbano do Brasil (22%)
e com um amplo cinturão de miséria e desagregação social.
Com as patologias de seu crescimento desordenado,
sem nenhuma lógica econômica sustentável, banhada pelo populismo e clientelismo
que nos assaltam de forma brutal, Brasília começa a experimentar formas
agressivas de segregação urbana que já estão solidificadas nas grandes
capitais brasileiras. A tendência será inexorável, por meio da segregação
habitacional e social, que provocará crescentes ondas de violência e
repressão pública e privada. Os novos condomínios, especialmente os
de camadas abastadas; bem como a recente reação de habitantes do Sudoeste
diante da possibilidade de instalação de escolas públicas na área, são
indicadores dramáticos e reais dos mecanismos de defesa em operação.
Por isso, Brasília é um projeto ainda interrompido.
Rearticular redes sociais e produtivas, abrindo espaços economicamente
viáveis, a partir dos recursos que a cidade tem desenvolvido, é o único
caminho possível.
* Benício V. Schmidt é sociólogo, professor da Universidade
de Brasília.