Em 1959, mulheres enfeitadas saíam em carroças, do
outro lado da linha do trem, para comprar mantimentos na área comercial
do grande canteiro de obras que era Brasília desde 1956. Para as crianças
curiosas que as observavam, as mulheres com vestidos e batons vermelhos
andavam de charrete (não de carroça) e eram ‘‘moças bonitas’’ e misteriosas,
como lembra a funcionária da administração do Núcleo Bandeirante, Auda
Lúcia Viana, 48 anos, menina de 8 anos na época. As moças vinham da
Zona Boêmia (ZB) ou Zona do Baixo Meretrício (ZBM), local de diversão
para os homens que vieram construir a Nova Capital.
Naquela área, a ZB era separada das residências
e do comércio apenas pela linha do trem. Onde antes era a Zona Boêmia
está começando a nascer um setor de comércio, indústria e armazenamento.
A linha férrea está intacta. Abaixo dela, muita coisa mudou.
A disposição das avenidas do Núcleo Bandeirante
continua a mesma (das cinco avenidas, apenas a quinta — que era uma
invasão até 1960 — desapareceu). Dos barracos que pertenceram à história
inicial do lugar, restam poucos. A mais recente perda foi o Hotel São
Judas Tadeu, demolido ano passado porque ‘‘ficava em cima de dois lotes
comerciais, e 70% dele estava em área pública’’, segundo o administrador
Marco Túlio Rios.
Resistem ao tempo a Igreja Nossa Senhora Aparecida,
conhecida como igrejinha da Metropolitana, ainda em funcionamento; o
HJKO, primeiro hospital de Brasília, agora Museu Histórico; o Centro
de Ensino da Metropolitana e o Toy Clube de Brasília, clube recreativo
onde os homens jogavam e bebiam, hoje desgastado, quase por cair. Todos
esses prédios estão cercados de asfalto, meio-fio e calçadas. Paisagem
diferente daquele chão que, em dias de chuva, transformava-se em lamaçal.
Todos eles deveriam ter desaparecido. Estavam dentro
da Cidade Livre, núcleo pioneiro de comércio, indústrias e serviços
que surgiu para dar suporte às obras de Brasília com prazo certo para
ser extinto.
O núcleo surgiu em 19 de dezembro de 1956, quando
chegavam os primeiros candangos, e deveria acabar quatro anos depois.
Enquanto existisse, deveria abrigar hotéis, bares, restaurantes, cinema,
feiras, mercados e até escolas. O governo de Juscelino Kubitschek incentivava
a quem quisesse trabalhar e montar negócio na área. Por isso não cobrava
taxa alguma por lotes aos interessados. Livre de quaisquer encargos
fiscais, o lugar recebeu o nome de Cidade Livre. Ficava em terras doadas
por fazendeiros goianos, entre o córrego Vicente Pires e o Riacho Fundo
e entre a Rodovia BR 060 e a Rede Ferroviária Federal. Em 20 de julho
de 1957, a população da área era de 2.212, segundo o primeiro recenseamento
de Brasília, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.
Quando a Cidade Livre estava prestes a desaparecer,
seus moradores realizaram o Movimento Pró-Fixação e Urbanização do local.
No dia 14 de dezembro de 1961, foi sancionada a lei 4.020 que fixou
o núcleo e deu a ele o nome de Núcleo Bandeirante (a data marca o aniversário
da cidade). Dois anos antes, muitos moradores e comerciantes haviam
se mudado para Asa Norte, Taguatinga e Gama. Outros ficaram.
Mais do que as estruturas ainda de pé, como o Toy
Clube, os antigos moradores fazem parte da memória viva da Cidade Livre.
Revivem o local quando contam as histórias da época. Suas experiências
particulares se confundem com a trajetória da cidade. Todos tinham em
comum o espírito desbravador e muita disposição para trabalhar.
Como enfatiza o médico e historiador Ernesto Silva,
85 anos, ‘‘toda pessoa que chegava e era meio malandro ia embora logo
porque aqui tinha muito trabalho a fazer’’. Silva vive na Asa Sul. Seu
primeiro abrigo em Brasília foi o Catetinho, onde se instalou em 1956.
Era um dos três diretores da Novacap. Para ele, a Cidade Livre ‘‘deveria
ter sido conservada, como a antiga capital dos Estados Unidos, que conserva
suas característica e se tornou atração turística’’. Em tom de revolta,
ele diz: ‘‘Nada restou do Núcleo Bandeirante antigo’’.
Há 41 anos no Núcleo Bandeirante, Philomena Leporoni,
96 anos, também é enfática: ‘‘Só restaram os ossos’’. A primeira creche
da cidade, foi criada por ela há 38 anos e recebe 45 crianças diariamente,
que pagam no máximo R$ 50,00 por mês. ‘‘É para não deixar de graça’’,
conta Philomena que acolhe meninos e meninas de até 6 anos e de diversas
condições sociais.
A creche mudou de lugar (da Avenida Central para
a 3ªAvenida), mas continua sendo a tradicional creche da dona Philó,
onde mora. A dona do lugar acorda às 6h para abrir janelas e portas
e fiscalizar o trabalho das seis funcionárias.
Essa é a rotina de dona Philomena, que completa
97 anos no próximo sábado, dia 15. Quatro décadas atrás, ela fazia partos.
Contou 1800. ‘‘De todo mundo, sabe o que eu recebia? Um ‘obrigado’.
Era gente pobre, sem nada’’. Montou também um armarinho. O marido e
um filho adotivo cuidavam da loja.
Dona Philó não podia ver menino na rua que adotava,
levava para dentro de casa. Criou 14. Por isso, decidiu montar a creche,
mantida com ajuda do marido no início e por Philomena depois da morte
do companheiro de 40 anos de vida. ‘‘Uma andorinha só não faz verão.
Mas até que eu fiz’’, conta ela, satisfeita por viver rodeada de crianças.
Quando dona Philó tinha o armarinho, na Avenida Central, morava nos
fundos da loja. ‘‘No fundo da minha casa moravam os donos da Casa São
Luiz. Eram uns japoneses que, às 5h, já estavam de pé’’, ela conta.
Eram os pais de Hélio Hydeo Hashimoto, 43 anos,
dono da Casa São Luiz, loja que ainda existe. O pai e a mãe de Hélio
deixaram São Paulo, em 1958, para trabalhar na loja que vendia secos
e molhados. O nome fantasia do estabelecimento e o local são os mesmos
de quando os produtos eram vendidos num barracão de madeira. As mercadorias
mudaram. Agora são louças, utilidades domésticas, descartáveis (o que
sustentou a loja durante a crise de cinco anos atrás) e fogos de artifício.
Hélio toma conta da Casa São Luiz sozinho desde
a semana passada, quando o pai faleceu. A loja está em reforma. A fachada,
de fundo branco e letras verdes, pode ser notada de longe. E deve se
manter como ponto da história do Núcleo Bandeirante. Hélio diz que não
abandonará o ponto e pretende passá-lo para outras gerações. ‘‘Aqui
foi onde tudo começou’’, lembra.
Por conhecer de perto a história da cidade e valorizar
cada centímetro da casa onde vive, a aposentada Ester Barbosa de Azevedo,
77 anos, também diz que não deixará ‘‘o Bandeirante’’. Ela teve uma
das primeiras casas de alvenaria do lugar. Conseguiu comprar outra para
a filha. As duas conquistas foram compradas depois de muito trabalho
e aventura.
‘‘Saí de Pernambuco com três cruzeiros no bolso.
Peguei um pau-de-arara. A viagem durou 12 dias e 12 noites. Quando cheguei
só tinha barraco, lama e incêndio em 58. As pessoas andavam de galocha
porque chovia muito’’, lembra-se Ester do ano em que desembarcou na
Cidade Livre, aos 37 anos, deixando três filhos para trás — que seriam
buscados no ano seguinte.
O primeiro emprego foi de cozinheira e servente
num bar. ‘‘Depois arrumei outro na Metropolitana, na casa de um engenheiro.
Aí fui para o restaurante Oásis do Leão e, depois, cozinhei no Grande
Hotel. Era movimentado aquele tempo. Era gente que não tinha onde botar’’,
conta.
Ao sair do hotel, Ester teve um ‘‘boteco’’ e, em
seguida, um restaurante. Ela trabalhava na Avenida Central e morava
na 3ªAvenida. ‘‘Aluguei um barraco lá embaixo. Não tinha água nem luz.
Só os hotéis tinham gerador. Um caminhão pipa trazia a água ou eu ia
buscar com lata na cabeça. Banho era de água fria e em barraco cheio
de brecha. E era um tal de barraco pegar fogo. A gente usava lampião
com querosene’’, lembra.
A moradora da Metropolitana Raimunda Valério Teobaldo,
86 anos, criou 16 filhos. Ela, o marido e as crianças chegaram no dia
2 de maio de 1959, ‘‘empurrados pela seca’’ que destruiu a plantação
de cana-de-açúcar da família. Instalaram-se na 4ªAvenida da Cidade Livre,
na casa de um cunhado de Raimunda. Dois meses depois, ocuparam o lote
onde dona Raimunda vive até hoje.
Desde então, é zeladora da Igreja Nossa Senhora
Aparecida. O marido morreu aos 74 anos, em 1983. Assim como ele, grande
parte da cidade não pode mais ser vista. Ficou apenas na memória de
quem os conheceu, como as lembranças de dona Raimunda: ‘‘Brasília continua
a mesma cidade maravilhosa de sempre’’.
O administrador do Núcleo Bandeirante tem planos
de reunir fotos e objetos da época em novo museu próximo à Casa do Pioneiro.
‘‘A intenção é reconstruir o Toy Clube e colocar retratos antigos dentro
dele. Estamos dependendo de uma resposta do Idhab, que vai dar um lote
para a família que vive no Toy Clube’’, afirma.