Como um filme, Brasília foi concebida no papel antes
de se tornar realidade. No lugar dos roteiristas estavam Lucio Costa
e Oscar Niemeyer. A direção de Juscelino Kubitschek gerou longa-metragem
único no currículo do presidente. O trio também foi protagonista da
saga de uma construção feita por centenas de atores figurantes de todos
os cantos do Brasil.
Na estréia em 21 de abril de 1960, com príncipes,
rainhas, reis e presidentes como convidados, Brasília parecia mesmo
ter a vocação para clássico. Como toda produção, contou com making of
(filme feito para registrar o processo de produção de outro). Na verdade,
foram vários making of, representados pelas reportagens de televisão,
feitas em película. Eram os embriões do cinema brasiliense.
Parte dos negativos desse período foi aproveitado
pelo cineasta Vladimir Carvalho em Brasília Segundo Feldman e Conterrâneos
Velhos de Guerra e, mais recentemente, por Yanko Del Pino no curta Retratos
e Borboleta. Os monumentos, os grandes espaços, tudo impressionava.
Cinegrafistas como Jean Manzon, José Silva, Sálvio Silva e Sinézio Silva,
registraram. No entanto, muita coisa não pôde ser vista.
Se houve censura, não foi do Ministério da Justiça.
Foi, como explica Vladimir Carvalho, a luminosidade da cidade. ‘‘Brasília
é uma usina de luz. A luz não tem filtros. Pode observar que quase não
vemos nuvens no céu da cidade. Quando vemos, são as brancas, que refletem
e criam muita luminosidade. No início da construção, câmeras sem prática
de cinema ignoravam o fotômetro (equipamento que mede a intensidade
de luz no ambiente) e, quando revelavam, percebiam que a luz de Brasília
era fuzilante’’, conta.
Dependendo do projeto, a luz de Brasília pode colaborar,
mas nunca atrapalhar a produção. Em cinema, luz, sombras, chuvas, são
feitas rapidamente por técnicos. Mas a luminosidade é fundamental para
o azul brilhante do céu da cidade, coadjuvante em dezenas de produções.
‘‘O céu é muito bacana’’, elogia Betse de Paula. O mesmo céu que Lucio
Costa disse ser o o mar de Brasília e apareceu no filme Céu Aberto,
de João Batista de Andrade.
Em Céu Aberto, o cineasta entrevista o general Newton
Cruz e capta imagens do cortejo fúnebre de Tancredo Neves. A facilidade
de produção em Brasília fez Batista voltar à cidade para rodar O Cego
Que Gritava Luz. A história, avalia Batista, se confunde com a de Brasília
(sobretudo numa época quem os grileiros agem sem controle): fala de
dois empresários que brigam por terras. ‘‘Iria falar dos desprovidos
no centro do poder’’, justifica.
O decisivo para o filme ser rodado em Brasília foi
a agilidade que a cidade, pela localização e expressão para o restante
do país, dava ao projeto. ‘‘Por estar no centro, há uma facilidade de
produção. Tudo conflui para lá. Deslocar o elenco é muito fácil. A infra-estrutura
de hospedagem de Brasília também é das melhores. É uma cidade preparada
à produção. Se não produz tanto, é porque falta política agressiva de
estímulo ao cinema’’, afirma Batista.
Para o diretor de O Homem Que Virou Suco, Brasília
poderia deixar de ser somente cenário, de céu e luz boa, se o governo
do Distrito Federal conciliasse política de atração de projetos de fora
e incentivo à produção local, aproveitando os realizadores formados
pelo curso de cinema da UnB e fizesse o Pólo de Cinema Grande Otelo
verdadeiro incentivador da produção.
A seca, destacam Batista e Vladimir, poderia dar
a Brasília o título de Califórnia brasileira. Em Brasília, como na Califórnia
(onde estão Hollywood e Los Angeles), o sol brilha o ano inteiro. Durante
seis meses, praticamente não chove. ‘‘Isso permitiu, por exemplo, que
eu montasse estúdio a céu aberto como fiz em O Cego Que Gritava Luz
e repeti em O Tronco, em Pirenópolis (GO). Seria loucura fazer isso
em outra cidade’’, afirma Batista.
A diretora Betse de Paula concorda com Batista,
mas faz ressalvas. Para ela, a cidade não é 100% cenário, como Nova
York ou o Rio. ‘‘Há lugares lindíssimos, mas há outros que não têm vida,
onde não dá para filmar. Bota a câmera no Eixão, por exemplo. No Rio
ou Nova York, tudo que é canto tem cara de cidade’’, diz.
‘‘Por outro lado, é muito fácil você conseguir que
se feche uma W3 Sul ou um trecho do Aeroporto para uma filmagem. Nas
filmagens de O Casamento de Louise, faltou uma luva numa tomada. Perguntamos
às pessoas que assistiam se alguém teria uma. Em pouco tempo, apareceu
uma luva. Isso só acontece em Brasília’’, elogia Betse de Paula.
O veterano Nelson Pereira dos Santos, que morou
em Brasília na década de 60 e 90, quando rodou A Terceira Margem do
Rio, lembra que a cidade ‘‘foi muito importante’’ para renascimento
do cinema brasileiro depois da extinção da Embrafilme. ‘‘A criação do
Pólo de Cinema foi muito importante para retomada da produção. Foi incentivo
do governo do Distrito Federal numa época difícil’’, avalia o diretor
de Vidas Secas.
Na década de 90, Nelson Pereira dos Santos voltou
a Brasília ao ser reintegrado ao corpo docente da Universidade de Brasília,
da qual havia saído em 1965, devido à repressão da ditadura militar.
É da primeira fase em Brasília que Nelson guarda as melhores memórias.
‘‘Recém-inaugurada, Brasília era cheia de esperança e o cinema encampava
a idéia’’, recorda.
Junto com Jean-Claude Bernadet e Paulo Emílio Salles
Gomes, Nelson Pereira dos Santos fundou o curso de cinema da UnB. ‘‘Foi
o primeiro em nível superior’’, orgulha-se. Ao deixar a UnB em 1965,
as viagens à capital federal oscilaram entre alegria e tristeza. ‘‘Ou
vinha no Festival de Cinema de Brasília (fundado por Paulo Emílio Salles
Gomes em 1965) ou atrás da censura para liberar meus filmes’’, recorda.
Nelson Pereira mantém o vínculo com a cidade. É
conselheiro do Pólo de Cinema Grande Otelo. Todo ano participa do Festival
de Brasília do Cinema Brasileiro. O caso de Vladimir Carvalho com Brasília
foi mais forte. Concorreu em 1969 com As Bolandeiras no Festival de
Brasília. Em 1970, voltou de mala e cuia. E mudou os rumos da própria
filmografia. O nordeste, tema freqüente dos filmes de Vladimir, foi
substituído por Brasília. Da antiga filmografia, restou o interesse
pela ‘‘dramaticidade’’ da vida.
‘‘Descobri que Brasília era um manancial de temas.
Da própria cidade à vida da população havia muito a abordar na década
de 70. Naquela época, vi Brasília como um laboratório. Como tudo que
é novo, Brasília era efervescente. Aos 40 anos, com quase 2 milhões
de habitantes, está mais interessante ainda’’, avalia o diretor de Brasília
Segundo Feldman.
Contando com Barra 68, longa-metragem em finalização,
Vladimir Carvalho fez 13 filmes em Brasília. O mais conhecido é Conterrâneos
Velho de Guerra. Para o cineasta, Brasília não é somente cenário. É
capítulo da estética brasileira, rodeado pela bela geografia do cerrado,
registrada pelo paraibano em Paisagem Natural, curta que integra o longa-metragem
Brasília — Última Utopia.
Em 2001, a pesquisadora Berê Bahia (autora do 30
Anos de Cinema e Festival — A História do Festival de Brasília do Cinema
Brasileiro) lançará o livro Brasília no Cinema. A obra contará a história
do cinema em Brasília de 21 de abril de 1960 até 2000. Até agora, Berê
contabilizou 504 obras audiovisuais, entre longas e curtas em 35mm,
16mm e Super 8. Só foram incluídos vídeos de diretores que já rodaram
em película. Do total, 84 são longas, o que dá uma média de dois filmes
por ano desde o lançamento da superprodução de Juscelino Kubitschek,
Oscar Niemeyer e Lucio Costa.’’