FALTAM 7 DIAS PARA BRASÍLIA COMPLETAR 40 ANOS

Luz, câmera, Brasília

A luminosidade na capital do país seduz cineastas e é cenário para mais de 500 filmes desde a construção. Algumas obras de primeira qualidade foram filmadas aqui

 

Klecius Henrique
Da equipe do Correio

No filme Pátria Amada, a atriz Débora Bloch faz o papel de uma jornalista que cobre a votação da emenda Dante de Oliveira, no Congresso

Como um filme, Brasília foi concebida no papel antes de se tornar realidade. No lugar dos roteiristas estavam Lucio Costa e Oscar Niemeyer. A direção de Juscelino Kubitschek gerou longa-metragem único no currículo do presidente. O trio também foi protagonista da saga de uma construção feita por centenas de atores figurantes de todos os cantos do Brasil.

  Na estréia em 21 de abril de 1960, com príncipes, rainhas, reis e presidentes como convidados, Brasília parecia mesmo ter a vocação para clássico. Como toda produção, contou com making of (filme feito para registrar o processo de produção de outro). Na verdade, foram vários making of, representados pelas reportagens de televisão, feitas em película. Eram os embriões do cinema brasiliense.

  Parte dos negativos desse período foi aproveitado pelo cineasta Vladimir Carvalho em Brasília Segundo Feldman e Conterrâneos Velhos de Guerra e, mais recentemente, por Yanko Del Pino no curta Retratos e Borboleta. Os monumentos, os grandes espaços, tudo impressionava. Cinegrafistas como Jean Manzon, José Silva, Sálvio Silva e Sinézio Silva, registraram. No entanto, muita coisa não pôde ser vista.

  Se houve censura, não foi do Ministério da Justiça. Foi, como explica Vladimir Carvalho, a luminosidade da cidade. ‘‘Brasília é uma usina de luz. A luz não tem filtros. Pode observar que quase não vemos nuvens no céu da cidade. Quando vemos, são as brancas, que refletem e criam muita luminosidade. No início da construção, câmeras sem prática de cinema ignoravam o fotômetro (equipamento que mede a intensidade de luz no ambiente) e, quando revelavam, percebiam que a luz de Brasília era fuzilante’’, conta.

  Dependendo do projeto, a luz de Brasília pode colaborar, mas nunca atrapalhar a produção. Em cinema, luz, sombras, chuvas, são feitas rapidamente por técnicos. Mas a luminosidade é fundamental para o azul brilhante do céu da cidade, coadjuvante em dezenas de produções. ‘‘O céu é muito bacana’’, elogia Betse de Paula. O mesmo céu que Lucio Costa disse ser o o mar de Brasília e apareceu no filme Céu Aberto, de João Batista de Andrade.

  Em Céu Aberto, o cineasta entrevista o general Newton Cruz e capta imagens do cortejo fúnebre de Tancredo Neves. A facilidade de produção em Brasília fez Batista voltar à cidade para rodar O Cego Que Gritava Luz. A história, avalia Batista, se confunde com a de Brasília (sobretudo numa época quem os grileiros agem sem controle): fala de dois empresários que brigam por terras. ‘‘Iria falar dos desprovidos no centro do poder’’, justifica.

  O decisivo para o filme ser rodado em Brasília foi a agilidade que a cidade, pela localização e expressão para o restante do país, dava ao projeto. ‘‘Por estar no centro, há uma facilidade de produção. Tudo conflui para lá. Deslocar o elenco é muito fácil. A infra-estrutura de hospedagem de Brasília também é das melhores. É uma cidade preparada à produção. Se não produz tanto, é porque falta política agressiva de estímulo ao cinema’’, afirma Batista.

  Para o diretor de O Homem Que Virou Suco, Brasília poderia deixar de ser somente cenário, de céu e luz boa, se o governo do Distrito Federal conciliasse política de atração de projetos de fora e incentivo à produção local, aproveitando os realizadores formados pelo curso de cinema da UnB e fizesse o Pólo de Cinema Grande Otelo verdadeiro incentivador da produção.

  A seca, destacam Batista e Vladimir, poderia dar a Brasília o título de Califórnia brasileira. Em Brasília, como na Califórnia (onde estão Hollywood e Los Angeles), o sol brilha o ano inteiro. Durante seis meses, praticamente não chove. ‘‘Isso permitiu, por exemplo, que eu montasse estúdio a céu aberto como fiz em O Cego Que Gritava Luz e repeti em O Tronco, em Pirenópolis (GO). Seria loucura fazer isso em outra cidade’’, afirma Batista.

  A diretora Betse de Paula concorda com Batista, mas faz ressalvas. Para ela, a cidade não é 100% cenário, como Nova York ou o Rio. ‘‘Há lugares lindíssimos, mas há outros que não têm vida, onde não dá para filmar. Bota a câmera no Eixão, por exemplo. No Rio ou Nova York, tudo que é canto tem cara de cidade’’, diz.

  ‘‘Por outro lado, é muito fácil você conseguir que se feche uma W3 Sul ou um trecho do Aeroporto para uma filmagem. Nas filmagens de O Casamento de Louise, faltou uma luva numa tomada. Perguntamos às pessoas que assistiam se alguém teria uma. Em pouco tempo, apareceu uma luva. Isso só acontece em Brasília’’, elogia Betse de Paula.

  O veterano Nelson Pereira dos Santos, que morou em Brasília na década de 60 e 90, quando rodou A Terceira Margem do Rio, lembra que a cidade ‘‘foi muito importante’’ para renascimento do cinema brasileiro depois da extinção da Embrafilme. ‘‘A criação do Pólo de Cinema foi muito importante para retomada da produção. Foi incentivo do governo do Distrito Federal numa época difícil’’, avalia o diretor de Vidas Secas.

  Na década de 90, Nelson Pereira dos Santos voltou a Brasília ao ser reintegrado ao corpo docente da Universidade de Brasília, da qual havia saído em 1965, devido à repressão da ditadura militar. É da primeira fase em Brasília que Nelson guarda as melhores memórias. ‘‘Recém-inaugurada, Brasília era cheia de esperança e o cinema encampava a idéia’’, recorda.

  Junto com Jean-Claude Bernadet e Paulo Emílio Salles Gomes, Nelson Pereira dos Santos fundou o curso de cinema da UnB. ‘‘Foi o primeiro em nível superior’’, orgulha-se. Ao deixar a UnB em 1965, as viagens à capital federal oscilaram entre alegria e tristeza. ‘‘Ou vinha no Festival de Cinema de Brasília (fundado por Paulo Emílio Salles Gomes em 1965) ou atrás da censura para liberar meus filmes’’, recorda.

  Nelson Pereira mantém o vínculo com a cidade. É conselheiro do Pólo de Cinema Grande Otelo. Todo ano participa do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. O caso de Vladimir Carvalho com Brasília foi mais forte. Concorreu em 1969 com As Bolandeiras no Festival de Brasília. Em 1970, voltou de mala e cuia. E mudou os rumos da própria filmografia. O nordeste, tema freqüente dos filmes de Vladimir, foi substituído por Brasília. Da antiga filmografia, restou o interesse pela ‘‘dramaticidade’’ da vida.

  ‘‘Descobri que Brasília era um manancial de temas. Da própria cidade à vida da população havia muito a abordar na década de 70. Naquela época, vi Brasília como um laboratório. Como tudo que é novo, Brasília era efervescente. Aos 40 anos, com quase 2 milhões de habitantes, está mais interessante ainda’’, avalia o diretor de Brasília Segundo Feldman.

  Contando com Barra 68, longa-metragem em finalização, Vladimir Carvalho fez 13 filmes em Brasília. O mais conhecido é Conterrâneos Velho de Guerra. Para o cineasta, Brasília não é somente cenário. É capítulo da estética brasileira, rodeado pela bela geografia do cerrado, registrada pelo paraibano em Paisagem Natural, curta que integra o longa-metragem Brasília — Última Utopia.

  Em 2001, a pesquisadora Berê Bahia (autora do 30 Anos de Cinema e Festival — A História do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro) lançará o livro Brasília no Cinema. A obra contará a história do cinema em Brasília de 21 de abril de 1960 até 2000. Até agora, Berê contabilizou 504 obras audiovisuais, entre longas e curtas em 35mm, 16mm e Super 8. Só foram incluídos vídeos de diretores que já rodaram em película. Do total, 84 são longas, o que dá uma média de dois filmes por ano desde o lançamento da superprodução de Juscelino Kubitschek, Oscar Niemeyer e Lucio Costa.’’


A cidade na telona

Como cenário
Os Bandeirantes, de Marcel Camus Anne,
A Virgem de Saint Troupez, de Zygmund Sulietrowski
A Idade da Terra, de Glauber Rocha
Memórias do Medo, de Alberto Graça
Bye Bye Brasil, de Carlos Diegues
Os Homens do Presidente, de Paulo Rufino
Aos Ventos do Futuro, de Hermano Penna
Que Revolução é Esta?, de Angela Fagundes e Fernando Silva
Abertura, de Angela Fagundes e Fernando Silva

Como tema
O Sonho Não Acabou, de Sergio Rezende
Pátria Amada, de Tizuka Yamasaki
Céu Aberto, de João Batista de Andrade
Jânio a 24 Quadros, de Luiz Alberto Pereira
Os Anos JK, de Silvio Tendler
Brasiliários, de Sergio Bazi e Zuleica Porto
Retratos e Borboleta, de Yanko Del Pino
Mínima Cidade, de João Lanari
Conterrâneos Velhos de Guerra, de Vladimir Carvalho
Brasília — Contradições de uma Cidade Nova, de Joaquim Pedro de Andrade

No título
Brasília Capital do Século, de Gerson Tavares
Brasília, de Carlos Diegues
Brasília, de Saul Lachtemacher
Brasília — Um Roteiro de Alberto Cavalcanti, de Antônio Carlos Fontoura
Brasília — Capital do Cerrado, de Celso Luccas
Brasília — A Última Utopia, de Vladimir Carvalho, Pedro Jorge de Castro, Geraldo Moraes, Roberto Pires e Pedro Anísio.


Personagem do dia
O cineasta do Gama
 
Juliana Monteiro
Especial para o Correio
 
Paulo de Araújo

Afonso Brazza: ‘‘Quer me ver feliz? Me solta no Conjunto’’

O cinema trash tem em José Afonso Filho um de seus maiores dignos representantes. Se o nome não lhe diz nada, experimente Afonso Brazza. Mesmo quem nunca viu um dos filmes do cineasta, já deve ter ouvido seu nome.

Afonso Brazza nasceu no Piauí, mas foi Brasília que lhe deu a chance de exercer sua verdadeira vocação. Ainda tentou a sorte em São Paulo, onde adquiriu o sobrenome Brazza. ‘‘Como vinha de Brasília, as pessoas me chamavam de Afonso Brasília. Com o tempo, virou Brazza e eu registrei como nome artístico’’.

O pai de Afonso casou-se com uma fazendeira rica ‘‘por interesse’’. Fez a mulher vender tudo e vieram para Brasília, em 1964, tentar a vida. ‘‘Chegando na capital, o homem se mandou para São Paulo largando eu, minha mãe e meus irmãos na miséria’’. A família de Afonso ainda foi, em vão, para São Paulo atrás do pai fujão. Afonso voltou a Brasília em 1980, ‘‘na época da decadência do cinema brasileiro’’.

Dois anos depois, entrou para o Corpo de Bombeiros. Logo, passou a dedicar-se ao cinema. ‘‘Falam que eu faço filmes de ‘fundo de quintal’. Mas vai fazer o que eu faço? Tem gente que não faz nada sem apoio. Eu tiro do meu bolso’’.cineasta. Hoje, ele acomoda equipamento próprio em um caminhão e está filmando no Plano Piloto.

Por que veio para Brasília?

‘‘Vim com a família, aos três anos de idade, tentar a vida na cidade.‘‘

O que mais gosta aqui?

‘‘Do coração de Brasília: Conjunto Nacional e Rodoviária. Quer me ver feliz? Me solta no Conjunto.’’

O que mais detesta?

‘‘Estou em Brasília há 35 anos e não tenho nada para reclamar.’’

O que mais falta à cidade?

‘‘Mais produções de cinema. Cinema é educação, cultura e lazer. Falta incentivo para esse pessoal que gosta de dar alegria para a cidade.’’

Qual o primeiro lugar onde você levaria um turista?

‘‘Para o Lago Paranoá. O lago está lindo.’’

O dia ou a noite de Brasília?

‘‘Prefiro Brasília de dia e de madrugada, na hora do silêncio.‘‘

De onde a vista de Brasília é mais bonita?

‘‘Da Torre de Televisão.’’

O que você responde quando alguém fala mal de Brasília?

‘‘O ser humano reclama de tudo. Nunca está satisfeito. Não está contente? Vai embora. Ninguém te chamou aqui.’’

 


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