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Era preciso chegar bem cedinho à Feirinha de Antigüidades
da Rua do Passeio, no Rio de Janeiro. Cedo mesmo, antes das 7h, para
tentar conseguir um cartão-postal que valesse a pena (colecionadores
são um gênero humano que se eriça com a dificuldade). O professor Antonio
Miranda (foto) até que madrugou, mas antes dele havia chegado um colecionador
mineiro, interessadíssimo em postais de Brasília. Mas faltaram atenção
e sorte ao mineiro madrugador. Ele não viu, em meio aos tantos postais
empilhados numa caixa de papelão, uma preciosidade, o único exemplar
que o mundo da cartofilia brasileira tem notícia: a foto das bandeirinhas
de Volpi, ao lado de Nossa Senhora de Fátima, na Igrejinha.‘‘Deve ser
o mais caro de Brasília’’, supõe Miranda, o orgulhoso proprietário do
raro cartão-postal. Não está exagerando: aquelas bandeirinhas compunham
afrescos que Alfredo Volpi pintou nas paredes do altar e nas laterais
da Igrejinha, a pedido de Oscar Niemeyer. A obra de arte foi coberta
por mais de dez demãos de tinta, por sucessivos padres responsáveis
pela paróquia. Só restaram a lenda das bandeirinhas de Volpi e o cartão-postal
da coleção de Miranda.No início, os cartões-postais da construção da
capital eram toscamente produzidos pela Companhia Urbanizadora da Nova
Capital, a Novacap. Logo em seguida, chegaram os primeiros fotógrafos
mambembes, de pouquíssimos recursos, mas de muita disposição para gravar
a imagem da história no papel e vendê-la como souvenirs empoeirados.
O Foto Agenor era um deles — o mais antigo, dos cartões mais procurado
pelos colecionadores. A identificação da foto era manuscrita em fotolito
e, em seguida, sobreposta ao negativo original, e copiados como se fossem
um só fotograma. O resultado eram legendas cravadas nas fotos. O dono
da história de Brasília em cartão-postal carrega um lamento: o de já
ter participado de álbuns sobre Belém do Pará, São Luiz do Maranhão,
Rio de Janeiro, os 100 anos de Belo Horizonte e de a capital do país
não ter até hoje nenhuma edição semelhante. Entre os colecionadores,
diz Miranda, ‘‘há um interesse especial pelos cartões de Brasília’’.
Afinal, não é qualquer cidade que tem a história de sua construção gravada
em postais (os primeiros cartões com fotos de cidades são de 1880). E,
como os primeiros fotógrafos reproduziam postais de Brasília em quantidades
mínimas, os cartões sobreviventes estão sempre em alta na bolsa de valores
da cartofilia. Mais ainda porque os postais da capital foram feitos
por amadores e, nessa condição, são considerados ‘‘a memória fotográfica
social produzida pela gente da cidade’’. Hoje, um único cartão-postal
pode custar até R$ 100.
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