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Oxente, Brasília Os nordestinos são um terço da população do Distrito Federal e ninguém mais que eles influencia a identidade cultural brasiliense |
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| Leonardo Cavalcanti |
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| Da equipe do Correio | |||
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Adelmir Santana nasceu em New York, mas não fala inglês. A dificuldade em aprender a língua estrangeira o levou, em 1986, a perder o emprego numa multinacional, 22 anos depois de ter desembarcado no Distrito Federal, vindo do Nordeste. Explica-se: ele não sabe inglês porque a sua New York não fica nos Estados Unidos, mas no interior do Maranhão, a 550 quilômetros da capital, São Luís. Santana é apenas um exemplo no meio de milhares de nordestinos que vieram e não param de chegar na capital em busca de uma vida melhor. E que ajudam a montar o quebra-cabeça da geografia humana no Distrito Federal. Aqui, eles representam 29% da população, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). São mais de 500 mil pessoas espalhadas pelas 19 regiões administrativas. Quando Santana chegou à capital, o fenômeno da migração de nordestinos para Brasília ainda estava no início. Na época, existiam pouco mais do 40 mil nordestinos como ele. Era 1964, Santana tinha 19 anos e Brasília, apenas 4. Ele veio para trabalhar como funcionário no antigo Departamento de Correios e Telégrafos. No início, Brasília deu aos nordestinos as mesmas oportunidades dos migrantes de outras regiões do país, segundo explica o professor de Antropologia da Universidade de Brasília (UnB) José Jorge de Carvalho. ‘‘No início de Brasília, os nordestinos estavam em igualdade de condições com as pessoas das demais regiões. Assim, conseguiram se estabelecer’’, afirma Carvalho. É diferente do que ocorreu em São Paulo e no Rio de Janeiro, por exemplo. ‘‘Quando o nordestino chegou nesses lugares, a identidade cultural estava estabelecida. Rio e São Paulo estavam colonizados por outros povos, sobretudo com culturas diferentes. E, assim, eles (os nordestinos) foram e são vítimas de preconceito’’, diz o professor. ‘‘Em Brasília, é diferente. Eles mesmos são os próprios fundadores dessa identidade cultural da cidade.’’ Filho de uma família de pequenos agricultores, Santana diz que não sentiu o preconceito em Brasília. E aproveitou as oportunidades. Em 1971, saiu do serviço público e foi trabalhar em laboratórios multinacionais com filiais em Brasília. Foi empregado até 1986, quando, demitido, decidiu trabalhar por conta própria e comprou a sua primeira drogaria com a indenização. Hoje, mora numa casa confortável no Lago Sul e prepara-se para inaugurar a 15º loja do Grupo de Farmácias Vison. ‘‘Quando era criança, minha família tinha poucas condições. Consegui vencer, mas não esqueço referências nordestinas, de cochilar na rede e ouvir um bom forró’’, afirma ele. CALDEIRÃO CULTURAL ‘‘A influência nordestina no Distrito Federal é forte porque ela consegue se renovar o tempo todo’’, acredita a socióloga e demógrafa do Núcleo de Estudos Populacionais da Companhia de Desenvolvimento do Planalto Central (Codeplan), Ana Maria Boccucci. De fato. A corrente migratória, apesar de apresentar uma queda na última década, ainda se mostra intensa — isso, se o Nordeste for o ponto de origem. Entre 1980 e 1991, por exemplo, 170,4 mil pessoas que nasceram em um dos estados nordestinos tinham menos de 10 anos de residência no Distrito Federal. ‘‘O caldeirão cultural do DF ainda está fervendo, mas dá para perceber que a maior influência acaba sendo a nordestina. Isso pelas pessoas que existem aqui e as que ainda estão chegando’’, afirma ela. Se a influência cultural nordestina é forte, o sotaque daquela região do país tem pouca força no Distrito Federal. Um estudo do professor Djalma C. Melo, do Instituto de Letras da UnB, mostra que o sotaque daqui é próprio, emergente. ‘‘A marca é não ter marca nenhuma, como se fosse neutro’’, diz ele, que gravou os sotaques de seis lugares diferentes e apresentou a estudantes universitários e do supletivo. Ao ouvir as frases gravadas, esses estudantes desprestigiavam o sotaque nordestino. ‘‘É preconceito. O nordestino que gravou o texto é um médico, mas era identificado pelos estudantes como uma pessoa que não tinha escolaridade’’, conta Melo. SIMPATIA FRANCESA Com forte sotaque nordestino, o pernambucano Severino Xavier, 55 anos, conseguiu se destacar no Distrito Federal num restaurante francês. Nascido em São Joaquim do Monte, no agreste do estado, ele é o dono o restaurante La Chaumière, na 408 Sul. Com apenas o 1º grau, chegou ao Distrito Federal em 1961. Na época, tinha 16 anos e resolveu atender o pedido do irmão, garçom num bar, que tinha como donos um casal de franceses. Foi aceito como ajudante e conquistou a simpatia dos franceses. No início, morava em cima do bar, que quatro anos depois se transformou no restaurante francês. De ajudante, Severino passou a garçom e se tornou tão íntimo dos franceses, que eles o convidaram para passar quatro meses na França. Três anos depois, os franceses venderam o La Chaumière para Severino, que conseguiu manter a qualidade do restaurante, conquistar novos fregueses e segurar os antigos. Nas férias que o chef pernambucano retoma as energias nordestinas. ‘‘A influência do Nordeste está em toda a minha vida, o tempo todo’’, afirma ele. ‘‘E de certa forma, consigo encontrar muitas coisas de lá aqui em Brasília, como a música e a comida.’’ PARA QUEM NÃO É MOLE As referências nordestinas estão por todo o Distrito Federal — desde a música, a dança e, principalmente, a comida. Aqui, pode-se contar mais de 80 restaurantes típicos daquela região. Ceilândia, porém, é o local que mais se parece com as cidades nordestinas. Na feira principal, nordestinos de todos os estados se encontram nos finais de semana. Numa das barracas, avista-se Manoel de Oliveira, 68 anos, mais conhecido como Mané Paraíba. Ali, vende temperos de todos os tipos, cheiros e sabores. Há cinco anos no Distrito Federal, diz que deixou Catolé do Rocha, na Paraíba, estimulado por uma filha, que já morava por aqui. ‘‘Moço, estava ficando impossível viver por lá. A seca acabou com tudo’’, afirma ele, que chega a trabalhar 10 horas por dia, seis dias por semana. Mané Paraíba está do outro lado da moeda que ofereceu a Santana e Severino a chance de se estabelecer na cidade. Entre 1991 e 1996, do total de migrantes que entraram no Distrito Federal, 48,50% foram nordestinos. Uma pesquisa da Codeplan, realizada nas regiões administrativas do Distrito Federal, mostra que, em 12 dessas cidades, o analfabetismo chega a 50%. São pessoas que não estudaram ou apenas cursaram até a 4ªsérie primária. Os que têm ensino superior estão concentrados no Plano Piloto, Lagos Sul e Norte e o Cruzeiro. Mané Paraíba é semi-analfabeto. Na feira da Ceilândia, ele consegue tirar por mês menos do que a aposentadoria de R$ 136. ‘‘Dizem que a vida só é dura para quem é mole. Eu garanto, seu moço, não sou mole. Mas acho a vida muito dura.’’ |
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| Arquivo em formato PDF (72 KB) |
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| Vida de pioneiro | |||
| Dona Maria das saudades | |||
| Andrea Catta Preta |
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| Especial para o Correio | |||
Em busca de seus sonhos, dona Maria Alves (foto abaixo) e o marido, José Borges Paniago, decidiram vir tentar a sorte na nova capital. Sem muito dinheiro e com a intenção de começar um negócio, eles se separaram durante um ano para erguer o Hotel Brasília, o primeiro da cidade. ‘‘Uma casa grande de tábua, com vários quartos e muito simples’’, descreve dona Maria, quando chegou a Brasília em 1957. Deixar Uberlândia e vir para a capital significava a realização de um sonho. Com muito sacrifício, a família tomava conta do lugar onde meses depois entraria o presidente Juscelino Kubitscheck. ‘‘O hotel existia há pouco tempo quando Juscelino parou para tomar um café com a gente. O engraçado é que ao assinar um livro de presença do hotel, ele escreveu Brasília com Z’’, conta dona Maria. ‘‘Ele era um homem muito bom, e quando apareceu com vários carros no início da rua, nós não sabíamos que pararia no nosso hotel.’’ Mas a vida não era nada fácil: ‘‘Dormia-se muito pouco’’. Os tratores roncavam dia e noite. Mãe de sete filhos — quatro mulheres e três homens — dona Maria orgulha-se de ter lutado tanto, e admite que, apesar dos tempos difíceis, aqueles foram os melhores anos de sua vida. ‘‘Estava todo mundo perto. Meus filhos e meu marido estavam comigo’’. Dona Maria encantava-se com a fartura de frutas encontradas na região, e lembra: ‘‘Às vezes íamos a chácaras de amigos e ficávamos no pé catando frutas. Comíamos de tudo, lá tinha jabuticaba, manga, goiaba...’’. Hoje, com 90 anos de idade e muitas saudades daqueles tempos, dona Maria não se arrepende de ter enfrentado tanto suor e trabalho. Para ela, Brasília é uma cidade abençoada: ‘‘Antes era tudo de tábua. Hoje é essa maravilha! Só posso dizer que amo Brasília’’. Faltam 36 dias para Brasília completar 40 anos |
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